COBERTURA ESPECIAL - Russia Docs - Geopolítica

27 de Novembro, 2015 - 10:05 ( Brasília )

Mundo Histórico de troca de farpas entre Rússia e Turquia

O abate do caça russo agravou o afastamento recente dos parceiros tradicionais. Mas, devido ao peso dos interesses comerciais e estratégicos comuns, Ancara e Moscou têm se empenhado em manter o diálogo.

A derrubada do caça russo pela Força Aérea turca esta semana foi um dos mais graves confrontos públicos entre um membro da Otan e a Rússia em meio século e complica ainda mais os esforços internacionais para combater o "Estado Islâmico" (EI) na Síria.

O conflito atual representa um marco negativo nas relações entre os dois países. "Há uma crise histórica", resume o especialista turco em política externa Hasan Ali Karasar. "A Turquia precisa pensar rápido, se quiser solucionar esta crise."

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse nesta quinta-feira (26/11) que o jato SU-24 foi abatido em uma "reação automática" à violação do espaço aéreo turco e não manifestou qualquer pedido de desculpas pelo incidente. A Rússia insiste que seu jato nunca saiu do espaço aéreo sírio e anunciou medidas de retaliação econômica contra Ancara.

O ministro turco das Relações com a União Europeia, Volkan Bozkir, disse que Rússia e Turquia "não podem se dar ao luxo" de interromper suas relações de amizade. O fato é que essa amizade já enfrenta altos e baixos há algum tempo.

Amigo do meu inimigo

Há anos a guerra na Síria tem sido a causa principal dos atritos binacionais. Ancara aposta numa mudança de governo em Damasco e apoia os dissidentes que lutam contra o presidente Bashar al-Assad. A Rússia, em contrapartida, complementa com meios militares seu respaldo político a Assad.

Nas últimas semanas, a Turquia queixou-se diversas vezes de violações de seu espaço aéreo por caças russos. Erdogan advertiu Moscou a respeito, no início de outubro, em termos inusitadamente severos.

Segundo relatos na imprensa, ele teria comentado de que seu país podia comprar gás de outro fornecedor, e que a planejada primeira usina nuclear turca também podia ser construída junto com outro parceiro. Ao mencionar o gás, Erdogan tocou naquele que é possivelmente o mais importante projeto russo na Turquia, e, portanto, um ponto vulnerável.

O trunfo do gás

Há cerca de um ano, a Rússia encerrou inesperadamente a construção do gasoduto South Stream, com que o país abasteceria a União Europeia atravessando o Mar Negro e contornando a Ucrânia. Coincidentemente, durante visita a Ancara, em dezembro de 2014, Putin anunciou o projeto Turkish Stream, em que o conglomerado Gazprom faria chegar o gás até a fronteira da UE na Grécia, passando pela Turquia.

Moscou está pressionado, pois a infraestrutura em território russo já está construída. Contudo o projeto não avança. Até hoje, não foi assinado um contrato relativo ao Turkish Stream. Em meados do ano, Ancara citou as dificuldades na constituição de governo como justificava para a demora. Nesse ínterim, a Gazprom corrigiu para baixo seus planos para uma central de comutação de gás na Turquia: ela teria apenas dois braços, em vez de quatro.

Após o abate do bombardeiro russo, observadores questionam a viabilidade do projeto. A Turquia é o segundo maior importador de gás russo, depois da Alemanha. Segundo fontes russas, em 2014 a Gazprom forneceu mais de 27 bilhões de metros cúbicos ao país.

Crimeia e genocídio dos armênios

No entanto, o esfriamento nas até então amigáveis relações entre Moscou e Ancara não tem apenas a ver com a Síria. Também a anexação da península ucraniana da Crimeia , entre fevereiro e março de 2014, tem sido fonte de tensões binacionais.

A minoria étnica dos tártaros na Crimeia pediu socorro à Turquia, que se colocou do lado da Ucrânia no nível diplomático. Erdogan e Putin conversaram diversas vezes sobre o assunto.

Uma troca de ofensas aconteceu em abril, quando o presidente russo falou do genocídio dos armênios pelo então Império Otomano, em 1915 – versão até hoje rechaçada pela Turquia. Erdogan rebateu com uma menção ao procedimento russo na Crimeia, alvo de críticas internacionais. Em maio, ele rejeitou o convite de Moscou para a comemoração dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa.

Importância do Bósforo para Moscou

Apesar de tudo, o Kremlin não tem interesse num congelamento prolongado das relações com a Turquia. Segundo observadores de Moscou, principalmente devido ao controle turco do estreito de Bósforo. A passagem entre o Mar Negro e o Mediterrâneo é estrategicamente importante para os russos, pois através dela eles abastecem com reforços sua operação militar na Síria.

Até agora, os navios de guerra russos podiam cruzar o Bósforo sem problemas, a caminho de sua base no porto sírio de Tartus. Ficar impossibilitada de fazê-lo seria um duro golpe para a Rússia, pois assim sua frota no Mar Negro estaria isolada.

Apesar das diferenças na questão da Síria ou da Crimeia, até o momento a Rússia e a Turquia têm se esforçado para manter o diálogo. No fim de setembro, Erdogan viajou até Moscou para a inauguração de uma mesquita. Para meados de dezembro estão planejadas consultas governamentais turco-russas em São Petersburgo. Sua realização está em aberto, no momento.

Erdogan: Turquia teria agido diferente se soubesse que era caça russo

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, disse nesta quinta-feira (26/11) que a Turquia teria agido de forma diferente se soubesse que o avião militar derrubado pela Força Aérea turca perto da fronteira com a Síria era russo.

Em entrevista ao canal televisivo francês France 24, Erdogan afirmou que a aeronave abatida por ter entrado no espaço aéreo turco "era um avião de identidade não determinada", e que, portanto, podia ter sido "um avião do regime" sírio de Bashar al-Assad.

"Se soubéssemos que era um avião russo talvez teríamos avisado de forma diferente", disse o presidente turco à France 24, acrescentando que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, não atendeu seu telefonema após o incidente de terça-feira. "Liguei para o senhor Putin, mas até agora ele não retornou", afirmou.

Putin: Moscou informou os EUA da missão

Em resposta, o presidente russo aproveitou a coletiva de imprensa ao lado do chefe de Estado francês, François Hollande , para desmentir a afirmação de Erdogan. Segundo Putin, Ancara não pode alegar que desconhecia a nacionalidade da aeronave, pois Moscou tinha informado os Estados Unidos da missão do caça russo abatido.

"Os Estados Unidos, que lideram uma coalizão da qual a Turquia faz parte estão cientes do local e do momento da passagem de nossos aviões, e foi precisamente nesse lugar e nesse momento em que fomos atingidos", afirmou Putin. "Eles [os aviões russos] têm sinais de identificação e estes são bem visíveis", alegou.

Desta forma, segundo o presidente russo, fica excluída a hipótese de a Força Aérea turca não ter podido identificar a que país pertencia o SU-24. Para Putin, as alegações de Ancara "são apenas pretextos". "Em vez de assegurar que isso nunca aconteça novamente, estamos ouvindo explicações ininteligíveis e declarações afirmando que não há nada pelo qual se deva se desculpar", disse.

Erdogan rejeita acusação de financiar EI

Ainda na entrevista à emissora France 24, Erdogan aproveitou para responder outra acusação feita por Putin: a de que a Turquia estaria comprando petróleo do grupo extremista "Estado Islâmico" (EI) e, assim, financiando os jihadistas.

"É óbvio que são mentiras, calúnias. Deviam ter vergonha. Os que dizem que compramos petróleo do Daesh [acrônimo em árabe para o EI] têm de provar. Se não conseguem, são caluniadores", afirmou Erdogan.

Segundo o presidente turco, o maior fornecedor de energia da Turquia é justamente a Rússia, seguida pelo Irã. "Nós nunca tivemos esse tipo de relação comercial com qualquer organização terrorista. Eles têm que provar. Se provarem, eu, Recep Tayyip Erdogan, renunciarei meu cargo."