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Missão
Haiti
Entrevista com o Capitão-de-Fragata(FN)
Marco Antonio Veppo dos Santos,
comandante do Grupamento Operativo de
Fuzileiros Navais - Haiti
Kaiser Konrad
Enviado Especial ao Haiti
A
Marinha do Brasil integra o Batalhão Haiti através
do Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais. A unidade comandada
pelo Capitão-de-Fragata Marco Antônio Veppo dos
Santos é composta por 15 oficiais e 200 praças
e fuzileiros. Seu quartel general está localizado ao
lado do Aeroporto Internacional François Duvalier,
nas proximidades do QG da MINUSTAH, do hospital militar argentino
e das bases militares guatemalteca e chilena.
Para
conhecer o trabalho dos Fuzileiros Navais no Haiti, Defesanet
esteve em Porto Príncipe onde entrevistou com exclusividade
o Comandante Veppo.
Defesanet:
Quais são as principais tarefas de responsabilidade
dos FNs no Haiti?
Veppo:
Realizamos escolta de autoridades; possuímos um serviço
estático na região onde fica o Primeiro-Ministro;
temos um check-point no aeroporto, onde identificamos quem
possui armas e se têm autorização para
o porte delas, pois a constituição do país
permite determinados tipos de armas desde que o proprietário
possua uma permissão válida. Vêm acontecendo
de encontrarmos uma série de armamentos ilegais. Quando
isso acontece, realizamos o procedimento padrão e recolhemos
ao Batalhão Haiti, nosso comando superior. Realizamos
também patrulhas e escolta de comboios. Nessa semana
acompanhamos o comício de um candidato a presidente.
Aconteceu em Pétion-Ville, uma área nobre da
cidade que está sob nossa responsabilidade. Quando
virou showmício nós retornarmos à base
já que a missão era exclusivamente conduzir
e proporcionar segurança para a área do comício.
A nossa área de atuação é de quase
1500 km², maior que o município do Rio de Janeiro.
Entretanto, isso é dificultado por termos um efetivo
insuficiente para cobrir todo esse espaço. O Exército
Brasileiro têm praticamente quatro vezes nosso efetivo
para uma área de atuação de apenas 25km².
Obviamente isso é apenas um dado, porque se formos
avaliar a área que eles têm em termos de segurança
e instabilidade, é muito menor do que a nossa. Embora
nossa área seja grande - rural inclusive - isso não
causa tamanha intranqüilidade quanto à área
que o Exército ocupa. Mas cada caso é um caso.
Os nossos militares vêm muito motivados porque estamos
exercendo nossa profissão e representando muito bem
nosso país. Todos são voluntários e nosso
objetivo aqui é passar os seis meses de forma harmoniosa
e fraterna com os haitianos, as forças estrangeiras
e com o Exército Brasileiro, com o qual temos uma ligação
muito forte e um apoio muito grande. Por exemplo: Nós
temos a melhor borracharia da ilha. Eu apóio aqui a
MINUSTAH e o EB, sempre dando preferência para nosso
Exército. Em compensação, eles possuem
uma Companhia de Engenharia de Força de Paz que faz
asfalto e brita e que neste momento está asfaltando
uma parte da nossa base. É aquele jogo de amizade e
companheirismo característico do brasileiro e que estamos
travando bem aqui.
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Equipamento
típico de um Fuzileiro Naval no Haiti. A arma
M16, 5,56mm difere do FAL do Exército, que emprega
munição 7,62mm.
Muitos fuzileiros são equipados com o Lança-Granada
M203, 40mm, acoplado ao seu M16. Observar foto da escolta
com os dois FN em cima da Toyota.
Foto
Escolta
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Defesanet: Na MINUSTAH, como é a integração
do Exército Brasileiro com a Marinha do Brasil?
Veppo:
Essa integração tem sido positiva. Embora todos
sejamos militares, mas oriundos de forças armadas diferentes,
não se consegue de uma hora para outra mudar pensamentos,
atividades e doutrinas. O Exército tem uma comunicação
e um tipo de equipamento que é diferente do nosso,
mas excluindo todas essas diferenças, que são
tradicionais, a nossa integração tem sido muito
boa.
Defesanet: Quais são as principais dificuldades
na relação entre as duas forças no Haiti?
Veppo: Umas das dificuldades que identifico
é o fato de termos armamentos e munições
diferentes, embora cada um tenha a sua própria logística.
Com o passar do tempo a gente vai sentindo a necessidade de
unificar isso, e vejo que por essas e outras coisas é
que foi criado o Ministério da Defesa, pois ali há
representantes das três forças que procuram se
ajustar em frente às diferenças e o processo
de planejamento militar de cada uma. Por exemplo: missão
na Marinha, é Tarefa + Propósito, já
no Exército é de outra forma. São coisas
que ao longo do tempo deverão se adequar. Mas nosso
espírito de união é muito forte. Acabamos
de receber uma visita do Ministério da Defesa, os generais
que aqui estiveram saíram muito satisfeitos, pois viram
o empenho com que os fuzileiros navais têm ao desempenhar
qualquer tarefa. Mesmo pequenos em número, somos grandes
na vontade de cumprir o dever da melhor forma possível.
Aqui só temos pessoas selecionadas, que passaram por
um treinamento muito intenso e estão preparadas a desempenhar
a missão.
Defesanet:
Como são as relações com os contingentes
estrangeiros?
Veppo:
Nós ainda não tivemos contato com uma força
jordaniana que é nossa vizinha de zona de ação.
Tenho contato extremamente positivo com os guatemaltecos,
chilenos e argentinos, contingentes com bases ao redor da
nossa. Coloquei a eles que aqui possuem portas abertas. Não
faço nada diferente dos três contingentes anteriores.
Aqui tenho uma borracharia e gelo, e sempre que precisarem
estaremos sempre disponíveis.
Defesanet:
Os equipamentos usados têm respondido bem no desempenho
da missão?
Veppo:
Nosso
fuzil M-16 é excelente. De fácil emprego, tem
uma precisão muito boa e é leve. Fazendo a manutenção
preventiva ele atende perfeitamente a necessidades. No caso
das viaturas, nossa dificuldade é mínima. Enquanto
o Exército já perdeu ou quebrou seus caminhões
Mercedes-Benz, de rodagem em estrada normal, o nosso é
um caminhão de QT - Qualquer Terreno - e foi comprado
especificamente para atividades no campo. As nossas Toyotas
são espetaculares, não param nunca.
Defesanet:
Qual era a expectativa antes de vir ao Haiti e agora?
Veppo: Eu estava ganhando da Marinha do Brasil um grande
reconhecimento. Eles me disseram que eu estava fazendo o que
poucos conseguiram; comandar no combate. Muitos pensam que
sou louco. O que você quer naquele lugar, o dinheiro
não compensa. Claro que compensa, o soldo que se ganha
aqui ajuda bastante, tenho uma esposa e três filhos.
Sinto-me privilegiado por poder estar aqui e comandar em combate.
Estou vibrando com a missão. Agora, aqui, digo aos
meus subordinados que não viemos ao Haiti para sermos
heróis. Devo ser herói somente para os meus
filhos Larissa, Marcos e Vinícius. Meu dever juntamente
com minha tropa é contribuir para estabilização
do país, aqui a situação é muito
complicada. Devemos ajudar a população e ao
mesmo tempo controlar nossos próprios ânimos
porque às vezes nos deparamos com situações
críticas e já queremos partir para a defesa,
mas tenho que estar sempre travando. O fuzileiro naval, se
não tiver alguém para segurar suas rédeas,
ele vai para o combate. Nós viemos cumprir nossa parte
profissional, representar nosso País, nossa Marinha
de Guerra e o Corpo de Fuzileiros Navais, sempre obedecendo
às regras de engajamento da ONU, que cada militar deve
obrigatoriamente saber.
Defesanet:
Como é a alimentação?
Veppo: Como
esse é o 4º Contingente, procuramos fazer algumas
adaptações típicas de uma organização
militar de Marinha do Corpo de Fuzileiros Navais. Um exemplo
é o rancho. Aqui é excelente. Sempre digo aos
meus subordinados que aqui comemos melhor que em nossas casas.
A comida é saborosa e abundante.
Defesanet: Qual a mensagem que deixa para a família
do seu subordinado?
Veppo:
Aqui vivemos em um ambiente familiar, todos são respeitados
e tem a capacidade de interagir com sua casa - cada um pode
falar por telefone cerca de 7 minutos diários com o
Brasil - e só vou começar a me sentir bem quando
saber que meus subordinados estão se sentindo dessa
forma. São seis meses que vamos aproveitar ao máximo,
temos cinema, internet, futebol e churrasco. Com certeza quando
retornarmos ao Brasil teremos muitas histórias para
contar aos nossos filhos e o dinheiro que ganhamos aqui vai
melhorar um pouco mais a vida de cada um.
Defesanet: Qual seria a principal reivindicação
que você faria?
Veppo:
O que eu vejo que deveria ser feito, inclusive já coloquei
em questão, mas aparentemente não avançou,
é o seguinte: Será que seria possível
ter vôos para o Brasil com aeronaves da Força
Aérea Brasileira que possam levar aqueles que estão
de folga? A FAB mantém vôos regulares de apoio
logístico. Se eu pudesse enviar os militares de licença
de volta ao País e trazê-los ao Haiti após
15 dias, isso faria um bem sem igual e aumentaria ainda mais
o moral da tropa. Esse seria o meu pedido.
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Antes
do Haiti, o Comandante Veppo foi observador militar
da ONU na Cróacia, entre novembro de 1996 e fevereiro
de 1998. Em 2 de janeiro de 1997, durante uma patrulha,
a viatura Cherokee que estava capotou e quase tirou
sua vida. Atualmente é comandante do 3° Batalhão
de Infantaria dos Fuzileiros Navais - Batalhão
Paissandu - e do Grupamento Operativo dos Fuzileiros
Navais
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