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Em
solenidade militar realizada na noite de 05 de dezembro de
2005, na Base Bravo do Exército Brasileiro, em Porto
Príncipe, aconteceu a troca do comando do Batalhão
de Infantaria de Força de Paz - Batalhão Haiti.
Na ocasião o Cel Adilson Mangiavachi passou o comando
ao Cel Luiz Augusto de Oliveira Santiago.
Ao ser nomeado Comandante do 4° contingente, o Cel Santiago
estava servindo no Comando Militar do Sudeste, em São
Paulo. Natural de Itapetininga (SP), ele têm 50 anos,
35 deles dedicados ao Exército.
Para apresentar de forma mais detalhada as atividades realizadas
pelo Batalhão Haiti e a importância do Brasil
manter um efetivo militar na Missão das Nações
Unidas para a Estabilização do Haiti, o Cel
Santiago concedeu uma entrevista exclusiva ao repórter
Kaiser Konrad do Defesanet.
Defesanet
- Houve dificuldade do IV Contingente em adaptar-se ao Teatro
de Operações (TO) do Haiti? Muitos dos procedimentos
adotados nesse TO são específicos. A adaptação
da tropa foi fácil?
Cel Santiago - Não houve grandes dificuldades,
em virtude de termos sofrido uma preparação
bastante intensa, com o apoio de militares que já passaram
por aqui, em contingentes anteriores. Além do que,
o afluxo de notícias recebidos do contingente anterior
nos prepararam, sobremaneira, para a missão no país.
É natural que haja uma adaptação ao terreno
de operações, que durou cerca de duas semanas,
aproximadamente. Hoje posso dizer que meus homens já
são "veteranos" na missão, muito embora
reconheça que ainda há 5 meses pela frente.
Defesanet - A passagem das tarefas do III ao IV contingente
transcorreram de forma esperada?
Cel Santiago - É sempre um momento crítico,
já que há a rotação de todo um
contingente, mas a vinda, no destacamento precursor, da totalidade
do meu estado-maior e dos comandantes de subunidade foi altamente
válida para que a transição se processasse
a contento. Fomos bem recebidos pelo contingente que saía
e esperamos fazê-lo, ainda melhor, para o próximo.
| Nota
Redação: Sempre quando há a troca
dos contingentes, as milicias rebeldes promovem uma série
de ataques às tropas da ONU, com o objetivo de
testar a capacidade e disposição de luta
da tropa que está chegando. |
Defesanet - Quais as maiores dificuldades ao assumir as
ações no Haiti?
Cel
Santiago
- Foi, como já disse anteriormente, a adaptação
ao terreno de operações, já que nosso
treinamento foi muito bem conduzido. Não houve, portanto,
maiores dificuldades.
Defesanet
- Desde que chegou no Haiti, quais foram as principais ACISO
( Ação Cívico Social) realizadas pelo
IV contingente?
Cel
Santiago - Durante cada operação militar
que realizamos nos bairros, particularmente Bel Air e Cité
Militaire, sempre procuramos realizar, ao término da
mesma, uma Ação Cívico-Social (ACISO),
com o objetivo de mostrar à população
que nossa ação visa, justamente, a protegê-la
e apoiá-la. Ainda, no final de 2005 realizamos um pacote
de ACISOs denominado "Feliz 2006" em três
áreas distintas de atuação do Batalhão.
É sempre reconfortante ver o sorriso de uma criança
recebendo uma pequena lembrança de Natal ou, ainda,
uma família podendo ser atendida por médicos
e dentistas da Unidade.
Defesanet
- Qual foi a primeira ação crítica do
IV contingente? Como aconteceu isso?
Cel
Santiago - Bem, ação crítica começa
ao se desembarcar no Haiti, pois aí já passou
o período de preparação e se inicia a
missão real, com os riscos de que já falei anteriormente.
Posso citar que meu momento crítico neste início
de missão, como Comandante, durou até 23 de
dezembro quando, após pequenas operações
no nível Companhia, realizamos a Operação
Barba Branca que colocou cerca de 500 homens em Cité
Militaire e foi coroada de sucessos, tanto no nível
tático, quanto numa visão da MINUSTAH.
Defesanet
- A principal força estrangeira que o Brasil mantém
contato no Haiti é a da Jordania. Como é a relação
com eles? Os tropas dos dois países realizam operações
conjuntas?
Cel
Santiago - As relações, como não
poderiam deixar de ser, são muito boas, tanto no nível
pessoal em todos os escalões, quanto no fato de sermos
unidades que integram uma mesma missão da ONU, tendo
a boina azul a nos identificar. Quanto ao trabalho operacional,
estamos desenvolvendo, sob orientação do Sector
Commander, esforços conjuntos para aumentar o resultado
de nossas atuações. Já tivemos a oportunidade
de receber oficiais dos batalhões jordanianos que vieram
assistir operações nossas.
Defesanet
- Como é a relação entre a PNH (Polícia
Nacional do Haiti) e o Btl Haiti?
Cel Santiago - A relação é muito
boa. Uma das minhas diretrizes de comando foi o apoio e o
respeito que devemos ter para com a PNH, uma vez que é
o único segmento institucional do estado haitiano que
responde pela segurança pública. Da mesma forma,
temos recebido total apoio da mesma.
Defesanet
- Que experiências o Exército pode trazer do
Haiti e que poderão ser úteis em missões
semelhantes no Brasil e no Exterior?
Cel Santiago - Talvez esta missão, pela sua intensidade,
tempo de duração, distância e volume de
tropa empenhado, seja a maior experiência de atuação
real das forças armadas brasileiras no período
que se segue à Segunda Guerra Mundial. Desnecessário
dizer o ganho que as mesmas obtêm desta missão.
Mas poderia citar que o apoio logístico prestado pelo
Brasil ao Batalhão, colocando-se aí cerca de
5 mil km, ou mais, de distância de nossas bases e o
fato de estarmos criando uma geração de futuros
chefes militares, experimentados no dia a dia de uma missão
real, são os maiores ganhos obtidos.
Defesanet - Como está o moral dos militares brasileiros
que estão no Haiti?
Cel Santiago - O moral está muito bom. Somos
homens voluntários e selecionados para esta missão,
cumprindo o destino profissional que nos trouxe aqui. Além
do que, com ação de comando, em todos os níveis,
camaradagem e outros valores militares que cultuamos, fica
fácil conduzi-los, superando eventuais dificuldades
surgidas.
Defesanet - Porque no início da missão, a
designação da tropa brasileira era de brigada
e hoje é batalhão?
Cel Santiago - Tal resposta seria melhor dada pelo Ministério
da Defesa, uma vez que desconheço as razões
exatas. O que posso adiantar é que o Batalhão
sempre existiu desde o primeiro contingente, subordinado à
Brigada. Esta foi extinta, juntamente com a Base Administrativa
da mesma, na mudança do segundo para o terceiro contingente.
Em seu lugar, mantendo o total de pessoal brasileiro na missão
foi instalada a Companhia de Engenharia
de Força de Paz.
Defesanet - Como tem sido o desempenho do equipamento brasileiro,
em especial das viaturas Urutu e do Fuzil FAL?
Cel
Santiago - As viaturas do Batalhão são muito
boas e têm correspondido ao que delas se espera. No
tocante ao armamento FAL, que é muito bom diga-se,
acho, em minha opinião particular, que poderia ser
feito um estudo de dotar a Unidade com o calibre 5.56mm, de
menor tamanho, peso e alcance útil para este tipo de
missão.
Defesanet - Está em uso o novo fuzil da Imbel MD97
5,56mm?
Cel Santiago - Não.
Defesanet - Qual tem sido o desempenho dos Urutus
equipados com as pás recebidos recentemente?
Cel Santiago - Ainda não foram testados para esse
tipo de ação. Mas acredito que, se necessário,
responderão adequadamente.
Defesanet - Quais têm sido os principais dificuldades
enfrentadas pelo Batalhão Haiti no desempenho da missão
de manutenção da paz?
Cel
Santiago - Creio que a maior dificuldade é o risco
inerente a cada saída em patrulha ou missão.
A saudade de casa e dos familiares também é
um obstáculo a ser superado.
Defesanet
- Como é a relação com os contingentes
sul-americanos, em especial do Uruguai, Argentina e Chile?
Cel
Santiago - Muito boa. Existe uma identidade cultural entre
os países sul-americanos. Ainda que a língua
não seja exatamente a mesma, é mais fácil
arranhar o portunhol - de ambas as partes - do que o inglês
oficial da missão ou o creóle das ruas haitianas.
A única divergência fica por conta do futebol,
numa salutar brincadeira entre os contingentes.
Defesanet
- Quais as principais ações empreendidas pelos
militares da unidade de operações especiais
do EB no Haiti?
Cel
Santiago - Não há uma unidade específica
de operações especiais aqui no Batalhão.
Há militares, ocupando cargos no estado-maior ou nas
subunidades que possuem diversos cursos de especialização,
como oficial de comunicações (meu caso), oficial
de educação física e alguns que possuem
cursos de comandos e forças especiais. Estes auxiliam
provendo seu conhecimento específico em prol da unidade,
até mesmo treinando nossos soldados.
Defesanet
- Embora o IV contingente estivesse só há um
mês no Haiti, como foi a passagem do Natal e Ano Novo?
Cel Santiago - Desde que nos preparamos para a missão,
sabíamos que estaríamos aqui nessas duas datas.
Previ, em função da distância dos familiares,
que seriam momentos difíceis a superar. Para minha
grata surpresa, afora os que estavam diretamente empenhados
nos pontos fortes ou de serviço, conseguimos realizar
eventos em que conjugamos cerimônias religiosas, ceias
bem preparadas e, acima de tudo, muita união e alegria,
com direito a árvore de natal gigante e tudo. Creio
que a "família" do Batalhão esteve
bastante unida.
Defesanet
- Qual mensagem que você deixa às famílias
dos militares que se encontram no Brasil?
Cel Santiago - Deixo a mensagem da união que permeia
nossa tropa, confiança e fé em nossa missão.
Peço que os familiares sempre orem por nós,
para que Deus continue velando por nosso pessoal. Com fé
n'Ele, retornaremos em junho com a alegria do reencontro e
com a certeza do dever bem cumprido.
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Momento
lúdico do Batalhão Haiti. Um EE-11 Urutu
enfeitado com lãmpadas de Natal.
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