COBERTURA ESPECIAL - Prosub - Tecnologia

10 de Julho, 2007 - 18:00 ( Brasília )

Presidente Lula garante prioridade ao programa nuclear da Marinha




O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva garantiu nesta terça-feira (10/7), em entrevista após visita ao Centro Tecnológico da Marinha de São Paulo (CTMSP), em Iperó, que o programa nuclear da Marinha terá prioridade do governo. O programa deverá resultar em projeto de um submarino com propulsão nuclear e em projeto de centrais nucleares para produção de energia elétrica, entre outros benefícios. “É um projeto que necessita de R$ 130 milhões durante oito anos; quem sabe se pudermos colocar um pouquinho mais, poderemos antecipar”, afirmou o Presidente.

A visita foi acompanhada pelo ministro da Defesa, Waldir Pires, e pelos comandantes da Marinha, Almirante-de-Esquadra Julio Soares de Moura Neto; do Exército, General-de-Exército Enzo Martins Peri; e da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro-do-Ar, Juniti Saito. Também compareceu o engenheiro e Vice-Almirante da reserva Othon Pinheiro da Silva, presidente da Eletornuclear e idealizador do programa nuclear naval. A visita incluiu o Centro Experimental de Aramar (CEA), onde são testados os equipamentos e sistemas desenvolvidos. “Creio que este é um dos dias em que nós podemos nos declarar contentes, com o trabalho da Marinha e com o futuro da República e da Nação”, afirmou Pires.

O presidente disse que, embora nos últimos anos o programa não tenha recebido os recursos desejados, havia o compromisso de fazê-lo tão logo as contas do País estivessem ajustadas. “Desde a primeira conversa que eu tive com o Waldir Pires, eu assumi o compromisso de que nós vamos colocar os recursos necessários para que a gente possa concluir esse projeto”, afirmou Lula.

A conclusão do projeto do submarino nuclear é uma das prioridades do ministro Waldir Pires, e foi manifestada em diversas ocasiões desde que assumiu a pasta, em março do ano passado. O sinal de que o projeto receberia prioridade, foi dado em 5 de junho último, em reunião do Conselho de Defesa, presidido pelo ministro. Na ocasião, em sintonia com o Presidente da República, foram anunciadas as diretrizes para as Forças, e entre elas estavam o submarino nuclear, os caças de superioridade aérea (projeto FX), e o estímulo ao desenvolvimento de tecnologia e produtos nacionais de defesa, entre outros. Todas medidas em consonância com o estabelecido na Política de Defesa Nacional brasileira.

O programa da Marinha foi iniciado em 1979, e tem duas vertentes. A primeira é o Projeto do Laboratório de Geração Núcleo-Elétrica (Labgene), que deverá resultar em um reator nuclear, que tanto poderá ser usado para movimentar um submarino quanto para gerar energia para uma comunidade. A segunda é o Projeto do Ciclo do Combustível, que já deu ao Brasil a autonomia para a produção do urânio enriquecido necessário ao suprimento das usinas nucleares de Angra dos Reis. A produção industrial do urânio enriquecido, com tecnologia da Marinha, começou a ser feita pelas Indústrias Nucleares Brasileiras (INB), em Resende (RJ).

O principal objetivo agora dos pesquisadores brasileiros é concluir o projeto do gerador, que é uma espécie de usina nuclear em miniatura. Ela deve produzir eletricidade para os motores do submarino. As baterias que alimentam os motores dos atuais submersíveis brasileiros são recarregadas por geradores movidos a diesel, o que os tornam mais fáceis de serem localizados, pois precisam subir à superfície no intervalo de dias, para ligar os motores. Os submarinos nucleares podem ficar meses submersos, garantindo maior poder de dissuasão contra eventuais agressores.

Devido a esta vantagem estratégica, as nações que possuem a tecnologia de propulsão nuclear não vendem seu conhecimento, e procuram impedir que a tecnologia seja adquirida por outros países. Por isso, o Brasil está tendo que desenvolver a maior parte dos componentes do protótipo da planta propulsora, que está sendo construída em terra, para testes. Um indicador desta dificuldade, é que o índice de nacionalização da planta de propulsão é superior a 90%, muito maior que o dos sistemas de propulsão convencionais usados em navios mercantes e de guerra.

Este desenvolvimento está sendo feito com ajuda de uma ampla rede de pesquisa (Ipen, IPT, CDNT, USP, Unicamp, UFSCar), de diversas empresas nacionais, e com apoio do Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio da Financiadora de Projetos (Finep), do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para a iniciativa privada, uma das vantagens do programa é a capacitação como fornecedores deste mercado especializado de equipamentos destinados à indústria nuclear.

O presidente Lula sinalizou que é necessário ter uma visão mais abrangente, ao se analisar o orçamento do programa: “Depois de visitar uma instalação como esta, você sai daqui convencido de que, muitas vezes, nós temos que perguntar a nós mesmos: será que quando você vai discutir um investimento de R$ 130 milhões para terminar as nossas experiências, você poderia utilizar a palavra gasto? Será que não seria importante discutir quanto nós vamos gastar por não termos investido no tempo certo, na hora certa, para termos as coisas prontas no momento certo?”.

O ministro Waldir Pires considerou a visita uma “constatação de um empreendimento da mais alta importância para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil”. Ele elogiou a tenacidade com a qual a Marinha, ao longos dos anos, sustentou o programa, “realizando esta conquista significativa para o progresso do País e do seu povo”.

O presidente Lula ressaltou também o aspecto energético envolvido na pesquisa. Disse que o Brasil deve usar todos os recursos disponíveis para a geração elétrica mais racional economicamente, ao lado do avanço nas pesquisas de combustíveis renováveis, como o biodiesel e o etanol. “O Brasil não será subserviente para atender os interesses dos outros, sem levar em conta os interesses do próprio Brasil. Nós temos condições de nos transformar numa grande potência energética e não vamos abrir mão disso”, afirmou o Presidente.