COBERTURA ESPECIAL - Prosub - Tecnologia

10 de Julho, 2007 - 13:00 ( Brasília )

Visita presidente Luiz Inácio a ARAMAR

Entrevista concedida pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, após visita ao Centro Experimental Aramar, do Centro Tecnológico da Marinha Iperó-SP, 10 de julho de 2007

Entrevista concedida pelo presidente da República,
Luiz Inácio Lula da Silva, após visita ao
Centro Experimental Aramar,
do Centro Tecnológico da Marinha
Iperó-SP, 10 de julho de 2007


Jornalista: Esse projeto pode servir de embrião para a geração de energia elétrica ao País?
Presidente:
Olha, eu acredito que esse projeto pode ser embrião para tudo que nós precisarmos do ponto de vista de energia nuclear e do ponto de vista de produção de energia. É verdade que este projeto esteve parado durante um determinado tempo, é verdade que no nosso primeiro mandato nós tivemos que dedicar os primeiros quatro anos para consertar o País, para arrumar a Casa, mas é verdade também que, desde a primeira conversa que eu tive com o ministro Waldir Pires, eu assumi o compromisso de que nós vamos colocar os recursos necessários para que a gente possa concluir esse projeto. É um projeto que necessita de 130 milhões de reais durante oito anos, quem sabe, se pudermos colocar um pouco mais, poderemos antecipar.

Jornalista: Ele está atrasado, não é?
Presidente:
Ele está atrasado.

Jornalista: Quanto tempo?
Presidente:
Não sei há quanto tempo. O dado concreto é que nós já poderíamos estar muito mais avançados. Eu acho que agora nós temos condições de concluir esse projeto e o Brasil pode se dar ao luxo de ser um dos poucos países do mundo a dominar toda a tecnologia do ciclo de enriquecimento de urânio e, a partir daí, eu penso que nós seremos muito mais valorizados enquanto nação, enquanto a potência que queremos ser.

Jornalista: O que existe aqui já pode ser um passo para fazer uma usina nuclear em São Paulo?
Presidente:
Veja, o que existe aqui é um passo extraordinário do avanço tecnológico do conhecimento do nosso pessoal. O que nós precisamos é garantir que, do que temos hoje, nós só temos que colocar dinheiro para dar os avanços necessários. Nós temos profissionais, nós temos gente competente, nós temos conhecimento. Agora, se estava faltando o dinheiro, não vai faltar mais porque nós vamos colocar o dinheiro necessário. Por que não sonhar grande e dizer que nós queremos chegar até a possibilidade de ter um submarino nuclear?

Jornalista: Agora, Presidente, para ser viável produzir em escala industrial tem que ter demanda para usinas de geração de energia atômica. O seu projeto energético prevê a construção de novas usinas?
Presidente:
Prevê. O Conselho Nacional de Política Energética decidiu que a energia nuclear vai fazer parte da matriz, mais do que nós já temos. Nós vamos concluir Angra III e, se for necessário construir mais, nós vamos construir, até porque é uma energia limpa, está provado que hoje nós temos segurança e está provado que o Brasil não pode parar. Nós temos algumas questões para produzir energia: nós temos a eólica, nós temos a hídrica, nós temos biomassa, nós temos a diesel, nós temos a carvão. E a energia nuclear é uma energia já testada e aprovada no Brasil, é segura, nós detemos tecnologia, por que não aproveitar? Obviamente que nós vamos sempre utilizar aquilo que for economicamente mais viável para o País e, hoje, com a hídrica, nós temos um potencial extraordinário. Vocês viram que ontem foi liberada a licença prévia do rio Madeira para fazer Santo Antônio e Jirau. Nós estamos agora no processo de estudar Belo Monte e vamos tentar utilizar todo o potencial de energia hídrica que temos, porque ambientalmente ela é correta e pode ser muito mais barata. Vamos utilizar todo o nosso potencial, e o potencial nuclear é um deles.

Jornalista: No caso de um acidente, o senhor acredita que em Angra há possibilidade de uma evacuação rápida?
Presidente:
Deixe eu lhe dizer uma coisa. Primeiro, não há nenhuma possibilidade de acontecer um acidente no Brasil como aconteceu em Chernobyl. Segundo, as experiências que nós temos com a energia nuclear, tipo Angra, não têm dado acidente. Eu não acredito, porque nós temos conhecimento, temos tecnologia, temos gente altamente qualificada para fazer o processo. Agora, nenhum de nós está livre de nada. Eu não estou livre de sair daqui e acontecer alguma coisa comigo daqui a seis metros, ou seja, se ficarmos pensando assim, nós não fazemos absolutamente nada.

Jornalista: Presidente, o presidente Bush se reaproxima agora da América Latina, com uma nova política. O Brasil também passa a ingressar numa nova fase de aproximação, através de uma política energética, via Angra, e também uma política estratégica militar, que é justamente a construção do submarino nuclear?
Presidente:
Veja, nós não temos nenhum compromisso com o presidente Bush. O Bush se aproxima da América Latina porque é um erro alguém não se aproximar da América Latina. A nossa determinação é brasileira, com a determinação do Estado brasileiro, da Marinha brasileira, de que vamos utilizar todo o nosso conhecimento para fazer aquilo que nós soubermos fazer, pensando no Brasil. Eu estou convencido de que um país precisa ter capacidade de investimento em ciência e tecnologia. Depois de visitar uma instalação como esta, você sai daqui convencido de que muitas vezes nós temos que perguntar a nós mesmos: será que quando você vai discutir um investimento de 130 milhões para terminar as nossas experiências, você poderia utilizar a palavra gasto? Será que não seria importante discutir quanto nós vamos gastar por não termos investido no tempo certo, na hora certa, para termos as coisas prontas no momento certo?

Então, eu acredito que o Brasil tem tudo para se transformar definitivamente num Estado soberano, seja no reparo que nós temos que fazer nas nossas Forças Armadas, tornar a equipar as nossas Forças Armadas, preparar o Brasil para ter todo conhecimento do ciclo do urânio, porque isso é levado em conta. São poucos os países que têm a competência que tem o Brasil, e por que não utilizar essa inteligência que está disponível, formada por nós, para produzir coisas para nós? E, ao mesmo tempo, o Brasil precisa ser um exemplo do mundo na questão da produção energética.

Eu estou convencido de que o exemplo que nós estamos dando aqui, não apenas na questão nuclear, onde temos o sistema mais moderno do mundo mas, sobretudo, se a gente levar em conta a produção de biocombustíveis, o Brasil – na minha opinião, isso será inexorável – será uma grande potência energética nos próximos 20 anos no mundo.

Jornalista: Ontem, no “Café com o Presidente” o senhor mandou recado para quem? Para o Chávez?
Presidente:
Eu mandei o recado para todo mundo, o recado é para todo mundo. Ninguém vai segurar o Brasil de cumprir com o papel histórico que ele tem que cumprir. O que eu disse, na verdade, é que o Brasil não será subserviente para atender os interesses dos outros, sem levar em conta os interesses do próprio Brasil. Nós temos condições de nos transformar numa grande potência energética e não vamos abrir mão disso.

Jornalista: Presidente, o senhor vai reconduzir o ministro Silas Rondeau ao cargo?
Presidente:
Não. Até foi engraçado porque eu estava em Bruxelas quando alguém me perguntou, e eu fiquei imaginando quem era o poderoso que estava indicando ministro por mim. Veja, eu nem pensei nisso, eu acho que o Silas foi injustiçado. Agora, tem um processo em andamento, nós vamos aguardar para ver o que acontece com o processo.

Jornalista: O fato de ter negociado com o pessoal da Infraero, o pessoal dos aeroportos de São Paulo e do Rio, aproveitando que o Ministro está aqui do seu lado, não foi abrir um precedente para que novos pedidos sejam feitos daqui para a frente?
Presidente:
No dia em que deixar de haver pedidos, nós não viveremos numa democracia.

Jornalista: Sim, mas num tipo de chantagem como essa?
Presidente:
Não é chantagem. Tem a data-base do pessoal da Infraero. Se houve erros cometidos da nossa parte ou da parte deles foi não termos negociado há dois meses, há três meses. Agora, sempre é tempo de negociar. Nós achamos que era possível atender aquilo que era importante para eles, eles aceitaram, e para nós é o que importa, e que os aeroportos funcionem bem daqui para a frente.