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07 de Dezembro, 2007 - 12:00 ( Brasília )

Othon - Angra 3 vai custar R$ 7 bilhões


Angra 3 vai custar R$ 7 bilhões
"Entrevista - OTHON LUIZ PINHEIRO DA SILVA"


Rodrigo Camarão

 

Othon Luiz Pinheiro da Silva chegou a vice-almirante do corpo de engenheiros navais, o maior posto para oficiais engenheiros. Mesmo assim, nos corredores da Eletronuclear, estatal que comanda, diz-se que ele não gosta de ser chamado de almirante. Basta presidente. Pois o presidente da estatal responsável pelo programa nuclear brasileiro é um dos maiores especialistas em energia nuclear do país, participou do projeto de construção de um submarino nuclear entre 1979 e 1994. Não é à toa que se sente à vontade quando o assunto é Angra 3. Acha que, se o país não aumentar seu portifólio de fontes de energia, corre o risco de atrasar o crescimento.

JB - Nesta semana, o senhor esteve com o representante da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) na sede das Indústrias Nucleares Brasileiras (INB). Como foi o encontro?
Fui convidado. A INB produz o combustível nuclear. Eles extraem o urânio e produzem o concentrado, conhecido no mundo todo como yellow cake. O urânio na natureza é uma pedra comum. É encontrado misturado a outros elementos. Tem apenas partículas alfa, muito pouco radioativas. A INB tira da mina, concentra, purifica e manda para o Canadá, onde é transformado num gás, o hexafluoreto de urânio. De lá, segue para a Urenco, empresa holandesa que faz o enriquecimento. O elemento combustível só é feito quando essa substância volta para a INB. Fica parecendo pó de café. Depois, é prensado e colocado em tubos de zircaloy. Todo esse processo dura um ano.

JB- O Brasil não poderia fazer essas etapas executadas no exterior?
O Brasil tem tecnologia para enriquecer e transformar em gás, mas não tem o equipamento. Só três países no mundo têm tecnologia e reservas de urânio: Rússia, Estados Unidos e Brasil. Outros países, como França, Alemanha e Holanda, têm a tecnologia, mas não as reservas. O Brasil é a sexta maior reserva do mundo e ainda há indicações de que temos muito mais urânio a descobrir. A INB está justamente construindo a máquina para enriquecer o urânio e atender uma parte das usinas nucleares. Isso que foi visto pela AIEA.

JB - O senhor é favorável à construção da bomba atômica?
Não temos problemas de rivalidade com outros países. Isso não agregaria nada e ainda poderia criar o desbalanceamento político na região. Nosso urânio é apenas para gerar energia. O petróleo não. Você faz um chinelo havaianas com petróleo, mas não com urânio.

JB - Na matriz energética brasileira, quanto a energia nuclear representa?
A geração elétrica brasileira é única no mundo. Em 2006, 91,9% da fonte de energia foram hídricos. Ainda bem, porque a fonte é limpa, barata e renovável. A prioridade tem que ser a água. No sistema interligado nacional, a complementação térmica é de 8% em média. Isso significa que todo ano precisamos de, no mínimo, 7% da energia produzidos pelas térmicas. A energia nuclear sozinha responde por 40% desses 7%, ou algo em torno de 3%, mais que o gás natural, o carvão e os outros derivados de petróleo.

JB - A energia hídrica depende de fatores externos.
Eletricidade é um consumismo. Tem que produzir, estocar, transportar e distribuir. É como um sapato. Ou vocês estoca o couro ou o sapato pronto. Com a eletricidade, você só consegue estocar o couro, antes de produzir. O estoque é feito em forma de água, nas barragens. No início do século passado, tínhamos a maior hidrelétrica do mundo em Rio Claro. Servia para abastecer os bondes e tinha boa capacidade de estocagem. Do Paraná até o Nordeste, acima da Serra do Mar, temos 90 mil MW instalados e com capacidade de estocagem. A partir da década de 80, motorizamos mais, construímos mais máquinas, mas quase não aumentou a capacidade de estocagem. Aumenta a produção mas continua estocando o mesmo.

JB - Cresce a chance de as hidrelétricas não darem conta?
Sim. É necessário ter térmicas como segurança, mas para trabalharem o mínimo possível. São como válvulas que o homem abre mais ou menos para compensar a quantidade de chuvas e as variações da natureza. A capacidade de estocar energia nas barragens, que já foi de dois anos, caiu para 5,8 meses em 2003. Um sistema hídrico que se auto-regule para enfrentar um ano seco como o de 2001, quando houve o apagão, necessita, no mínimo, de cinco meses de energia armazenada.

JB - Dentre as térmicas, a nuclear apresenta mais vantagens?
Na energia nuclear, o investimento inicial é maior, mas o custo do KWh produzido é menor. Ela acaba ficando mais barata que as outras térmicas. Mas, como no caso das hidrelétricas, não podem trabalhar sozinhas. Precisamos de um mix de opções. Não podemos ter só a geração nuclear, nem desprezá-la. Antes do Campo de Tupi, se juntássemos toda a reserva de gás natural e de óleo combustível, não teríamos tanta energia quanto a proporcionada pelo urânio. Pode ser que ainda encontremos um campo de Tupi nuclear. Mas, ainda assim, é uma energia muito mais concentrada. Para ter idéia, um quilo de lenha, produz 1kWh de eletricidade. A mesma quantidade de carvão, 3 kWh, com óleo, 4 kWh. Um quilo de urânio produz 50.000 kWh. Com urânio enriquecido, a produção vai a 6 milhões de kWh.

JB - O que falta para as obras de Angra 3 começarem?
Começam no primeiro semestre do ano que vem. Ainda falta a licença ambiental do Ibama. Fizemos quatro audiências públicas, a última dia 26 de novembro, no Rio. Outras três foram feitas em junho, em Angra dos Reis, Paraty e Rio Claro. Depois da licença ambiental, vem a licença do Conselho Nacional de Energia Nuclear, que só pode sair depois da aprovação do Ibama.

JB - Os ambientalistas sempre foram contra as usinas. Essa posição mudou?
O antinuclearismo ambientalista é influenciado por série de mitos. Do risco, da catástrofe. É energia limpa, com sistemas de segurança redundantes, independentes e fisicamente separados, em condições de prevenir acidentes. Na situação improvável de perda de controle do reator em operação, sistemas entram automaticamente em ação. Cerca de 95% das substâncias radioativas são gerados no funcionamento do reator, na fissão nuclear do combustível. O volume dos rejeitos é muito menor em comparação com outros tipos de geração.

JB - A construção das usinas do Rio Madeira ainda mantém a necessidade da energia nuclear?
A matriz energética funciona da mesma forma que um fundo de ações. O corretor tem que maximizar a rentabilidade e diminuir o risco. O mesmo acontece com a energia. Precisamos ter um portfólio para garantir a modicidade tarifária e segurança do sistema. Para conseguir o menor preço com mais segurança de abastecimento, a estratégia é diversificação. Juntas, as duas usinas do Rio Madeira têm a capacidade de gerar 7.000 kWh, mas o fator de utilização é menor.

JB - Como?
O fator de utilização de uma usina é a relação entre a energia que gera com a que poderia gerar se funcionasse continuamente. Na hidrelétrica, o fator de utilização é da ordem de 55%. Portanto, uma usina que tem capacidade para 7 mil kMW, gera, efetivamente, uns 4 mil kMW. Na eólica, 15% a 20%. Com a biomassa, que gera energia por meio do bagaço de cana, o índice é 40% a 45%. Elas dependem da natureza. Nas térmicas, o homem tem controle sobre o fator de utilização. Quando é necessário acionar uma termelétrica para funcionar pouco, até 5% de fator de utilização, o diesel e o óleo combustível são imbatíveis. De 5% a 70%, o gás natural passa a ser mais barato. Mas isso depende do preço. Se o gás estiver a R$ 7 por milhão de BTUs, vale a pena. Mas o gás natural, com esse preço incerto, amplia a competitividade da energia nuclear. Somente Angra 1 e Angra 2 respondem por 3,11% da matriz energética nacional. O fator de utilização gira em torno de 80%. Angra 3 vai produzir 1.350 kWh, com fator de utilização de 90%. O custo para implantar a usina é maior, mas o combustível é mais barato. A térmica nuclear é mais rentável quando utilizada continuamente.

JB - Quanto custará Angra 3 e em quanto tempo ficará pronta?
Serão necessários investimentos da ordem de R$ 7 bilhões, e um prazo de construção de 66 meses. Um total de US$ 750 milhões em equipamentos já foi comprado.

JB - Isso é um investimento, já que o crescimento do país depende da geração de energia, não é?
Caso o Brasil queira crescer, precisamos de energia e infra-estrutura de transportes. O Plano Decenal de Energia Elétrica de 2006 a 2015 prevê a construção de diversas usinas térmicas de complementação energética. A indispensável participação do carvão e da energia nuclear deve considerar, no entanto, aspectos econômicos e ambientais. Existe espaço para usinas de biomassa, que podem contribuir significativamente para a regulação do sistema por sua produção se concentrar no período seco do ano, quando os níveis dos reservatórios estão mais baixos. Só que a disponibilidade está limitada às terras cultiváveis. Não seria recomendável contar com expressivas contribuições do petróleo e do gás natural, seja pela limitada disponibilidade, seja pela prioridade de seu uso. Gás natural é prioritário para uso indústrial e para transporte, nos veículos.