COBERTURA ESPECIAL - Panorama Haiti - Terrestre

06 de Dezembro, 2006 - 12:00 ( Brasília )

Os EE-11 Urutus no Haiti

Lições das operações incorporados aos blindados.

Os EE-11 Urutus no Haiti
Lições das operações incorporados aos blindados.


Paulo Roberto Bastos Jr.
Alfredo Andre Tassara
Hélio Higuchi


A participação Brasileira na Missão de Paz no Haiti (MINUSTAH), colocou as tropas brasileiras em um teatro de operações (TO), que não estavam familiarizadas e num tipo de ação também desconhecido: operações militares em áreas urbanizadas (MOUT). Os oponentes são compostos de ex-policias, ex-militares das Forças Armadas Haitianas (extintas em 1994, por Jean Bertrand Aristide) e bandidos comuns, organizado em milícias destinadas a controlar algumas áreas na capital Port au Prínce. Armados com os mais variados tipos de armas leves, desde fuzis M1 Garand, M-1 Carbine norte-americanos até AK-47 russos, forçaram as tropas brasileiras a adaptar-se ao tipo peculiar de confronto.

Neste tipo de missão, o uso de viaturas blindadas de transporte de pessoal(VBPTP) sobre rodas Urutu tem sido fundamental. Todos os 16 veículos para lá levados em duas levas, foram extensivamente utilizados em Operações tipo Polícia e em Operações de Combate.

Os Urutus foram duramente castigados pelo trabalho diuturno e pela ação das milícias, como a colocação de objetos cortantes sob o lixo das ruas para danificar os pneus, (Nota DefesaNet: Foi adicionada uma pá limpa entulhos: Em ação o Urutu Moustache - Bigode). Também tiros à curta distância, que deixavam o motorista e o atirador de metralhadora vulneráveis.

Tornou-se necessário efetuar modificações de campanha no veículo para adequá-lo a este ambiente operacional, e uma das iniciativas pioneiras partiu do próprio Esquadrão Mecanizado do 3º Contingente. Assim que designado para a Missão, o Capitão Fábio Cordeiro Pacheco comandante do Esquadrão de Cavalaria Mecanizado Escola - Esquadrão Paiva Chaves (a subunidade mecanizada do terceiro contingente), com o devido apoio do Gen. Iberê; juntamente com uma equipe formada por militares especialistas e com significativa experiência em blindados; iniciou tratativas com a finalidade de projetar um novo tipo de blindagem rústica, porém funcional ; que pudesse ser produzida no Haiti ou na República Dominicana, para a torre de metralhadora do blindado.

A equipe foi assim composta:
- Capt. Meyer - Engenheiro Militar (Engº mecânico automotivo)
- 1º Sgt Albuquerque - Encarregado de Material do Esqd)
- 2º Sgt Costa Mello - Mecânico de Viaturas Blindadas (Mec chefe do Esqd)
- 3ºSgt Bruno Gouveia - Mecânico de Armamento do Esqd
- Cb Edivaldo e Cb Damião - Motoristas de Urutu/Cascavel (os mais experientes do Esqd)
A equipe recebeu também orientação do Gen.R1 Iberê Mariano da Silva que foi Comandante do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento-IPD e do Parque Regional de Manutenção/1 -PqRMnt/1.


Os Urutus para lá enviados eram do 5º Lote da ENGESA, e estavam equipados com torres de metralhadora semelhantes às do Cascavel. Através de um simples molde de papel cartão, foi projetada e moldada uma blindagem protetora na parte anterior e nas laterais da torre. A parte posterior era protegida pela própria escotilha da torre.(Ver Foto 8) Para ser devidamente fixada, 2 dos 4 lançadores de fumígenos foram retirados da torre. O protótipo foi construído pela Metalúrgica MESMA, do Rio de Janeiro, utilizando aço SAE 1020. A blindagem protótipo uma vez pronta foi embarcada para o Haiti junto com os militares do Esquadrão Paiva Chaves. Desde o começo o objetivo foi a simplicidade e que pudesse ser produzido nas condições técnicas encontradas no Haiti, e montado nos veículos com os recursos disponíveis no local.

Juntamente com o aço SAE 1020, foram feito testes de uma blindagem composta, agregando placas de borracha na parte anterior da torre, entretanto diante da falta deste item no Haiti, bem como na vizinha Republica Dominicana, optou-se por instalar um aço de maior resistência(aço SAE 1100)

Em Porto Príncipe as blindagens de série foram encomendadas à metalúrgica LA PERFECTION, que adquiriu nos EUA o aço SAE 1100. Durante os testes foram efetuados tiros de fuzil a distâncias de 20 a 50m, com um resultado de proteção balística plenamente satisfatório.

Todos os 16 veículos lá operados receberam esta modernização, com excelentes resultados, introduzidas no segundo semestre de 2005. Pelo menos 6 Urutus retornaram ao Brasil para serem reformados, e os que para lá estão sendo enviados como substitutos, estão recebendo uma modificação no Arsenal de Guerra de São Paulo em Barueri. A nova configuração foi em grande parte inspirada nestas primeiras modificações. (Urutus no Haiti recebem blindagem especial)

 

Para a missão no Haiti, a metralhadora Browning 12,7x99mm (.50) foi retirada e substituída por uma MAG 7,62x51mm. A fim de substituir a solução de contingência utilizada para fixar a metralhadora MAG no reparo projetado para metralhadora .50; a equipe do Esquadrão Paiva Chaves desenvolveu também uma adaptação para o reparo, utilizando o conjunto superior do reparo terrestre da Mtr MAG, denominado Cunha Elástica. Este conjunto foi fixado com solda no reparo da Mtr .50, possibilitando o disparo com mais estabilidade e a recuperação do recuo necessária ao bom funcionamento da arma.(ver nota abaixo)

Um detalhe interessante é que o Esquadrão Fuzileiros Mecanizado (Esqd Fuz Mec). do terceiro contingente foi formado pelo Esquadrão de Cavalaria Mecanizado Escola - Esquadrão PAIVA CHAVES (antigo 9º Esqd C Mec - Es, atualmente integrando a estrutura do Regimento Escola de Cavalaria). O Gen PAIVA CHAVES foi o primeiro comandante do Esqd Auto-metralhadoras, dotado de viaturas Fiat-Ansaldo CV3 35II , criado em 1938; primeira organização militar de natureza mecanizada da cavalaria do Exército Brasileiro. Como o Esquadrão Escola originou-se do Esqd Auto-Mtr, algumas tradições persistem até hoje e foram levadas também para o Haiti, como por exemplo os naipes de baralho pintados nos Urutus, que diferenciam as viaturas dos quatro pelotões do Esquadrão .

A adição de blindagem teve um papel fundamental na adequação dos veículos àquele tipo de operação. O Esquadrão PAIVA CHAVES foi o punho de aço do Batalhão Haiti/3º Contingente, abrindo caminho nas ruas de Porto Príncipe para que as companhias de fuzileiros ocupassem efetivamente o terreno, de forma a garantir, com segurança, o emprego do segmento civil da MINUSTAH (policial, humanitário, assistencial e eleitoral) dentro da concepção atual de Missão de Manutenção de Paz da ONU. ( Nota Defesa@Net: para a descrição de uma patrulha noturna em Porto Príncipe acesse "A Patrulha")

Agradecimentos

Os autores agradecem as pessoas abaixo citadas, os quais graças a atenciosa colaboração ajudaram a tornar este artigo possível:
-Ten.Cel.André Luis Novais Miranda - Comandante do 57ºBIMtz(Es)-RJ
-Capt. Fábio Cordeiro Pacheco - Chefe da Divisão de Planejamento e Doutrina do Centro de Instruções de Operações de Paz - RJ
-Capt.Guilherme Eduardo da Cunha Barbosa- engenheiro mecânico do AGSP - SP

Nota

O emprego da metralhadora 7,62 tem sido o padrão em zonas urbanas. A metralhadora .50 limita a opção de emprego, pois a tropa pode ser acusada de uso excessivo de força. A munição mais potente pode gerar danos colaterais imprevisíveis. Lembrar que muitas operações são em áreas tipo favelas com estruturas frágeis que não deterão a munição.
Assim a arma mais potente torna-se inócua pelo receio da tropa em usá-la.



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