COBERTURA ESPECIAL - Panorama Haiti - Geopolítica

31 de Agosto, 2017 - 01:00 ( Brasília )

HAITI Adieu - Entrevista TC Inf Ezequiel Bezerra Izaias de Macedo Comandante do 19° Batalhão de Infantaria de Força de Paz

O TC Izaias foi o comandante do primeiro Batalhao a operar no Haiti em 2004

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Tenente-Coronel Infantaria
Ezequiel Bezerra Izaias de Macedo

Entrevista  com o  Tenente-Coronel Infantaria
Ezequiel Bezerra Izaias de Macedo
Comandante do 19° Batalhão de Infantaria de Força de Paz *


Na cidade gaúcha de São Leopoldo, situada a 30 km de Porto Alegre, encontra-se a única unidade do Exército Brasileiro especializada em missões de paz. O 19° Batalhão de Infantaria Motorizado (BIMtz), de Força de Paz, conhecido como Batalhão da Serra, é uma das unidades mais tradicionais de nossas forças armadas, com participações que remontam a Guerra do Paraguai.

Para conhecer um pouco mais sobre a missão dos soldados brasileiros que estão no exterior a serviço da ONU, DefesaNet entrevistou, no dia  30 de dezembro 2004, o seu  Comandante, o Tenente Coronel de Infantaria Ezequiel Bezerra Izaias de Macedo. Com quarenta e cinco anos, trinta deles dedicado à carreira militar, esse nordestino de Natal-RN, recém chegado de uma missão de seis meses no Haiti, falou com exclusividade para  Defesanet, como foi a participação brasileira na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH).

* O 19º Batalhão de  Infantaria Motorizado,  quando operou no Haiti, assumiu a designação de 19º Batalhão de Infantaria de Força de Paz
 

 

Nelson During
Kaiser Konrad
DefesaNet
Publicada originalmente em 09 Janeiro 2005



DefesaNet: Quando começou o treinamento para a missão de paz no Haiti?

Ten.Cel Izaias: Desde 1994, nosso Batalhão (19º Batalhão de Infantaria Motorizado) está permanentemente preparado para executar missões de paz, pois cumpre um programa padrão de treinamento ligado ao Centro de Preparação e Emprego de Força de Paz do Comando de Operações Terrestres (COTER). São anualmente cerca de três meses para instrução de pessoal para este tipo de missão. Atinge desde Direito Internacional a idiomas, passando por primeiros socorros e instruções específicas de infantaria para uma tropa que vai operar na manutenção da paz. Essas instruções são: segurança de instalações, check-point, escolta de comboio, patrulhamento diurno e noturno, a pé, motorizado e mecanizado.

Em 2003, estive junto com oito oficiais em Buenos Aires realizando um exercício multinacional de Estado-Maior, onde estavam presentes representantes de quase todos os países da América do Sul e Estados Unidos. Lá gerenciávamos virtualmente operações com uso de força de paz. Em fevereiro desse ano, com o agravamento da situação no Haiti e a solicitação de tropas brasileiras, tivemos cerca de trinta dias para reunir todos os meios necessários de pessoal e material para completar um batalhão de 750 militares, que é o padrão da ONU.

DefesaNet: Como foi a recepção quando o Batalhão chegou a Porto Príncipe?

Ten.Cel Izaias: Os haitianos gostam muito dos brasileiros, embora muitos não saibam nem onde se situa o Brasil. Essa empatia é por causa do futebol e devido à formação multiracial de nossa sociedade. Embora os nossos soldados não falassem o francês ou o creole, não tinham dificuldade em se comunicar. Lá, muitas pessoas falavam o espanhol, pois no país vizinho, a República Dominicana, essa é a língua oficial. Nós brasileiros fomos com o coração puro, com vontade de ajudar o povo haitiano, e eles perceberam isso e nos receberam muito bem.

Quando tivemos o jogo pela paz, entre as seleções do Brasil e Haiti, as pessoas foram ao delírio. Ficaram maravilhadas com a boa vontade do brasileiro em trazer uma coisa nova para uma missão de força de paz, que era justamente o desejo e a emoção em querer resolver o problema além dos meios já utilizados. O brasileiro também é carismático. Houve uma intensa difusão de nossa cultura no país, já se pode até ouvir músicas em português no rádio.

DefesaNet: Quais são as principais necessidades dos haitianos?

Ten.Cel Izaias: O povo haitiano é muito necessitado. Possui um problema sério de infra-estrutura. Não tem água potável para toda a população. A energia é racionada e existe uma deficiência na coleta de lixo. Tudo isso é agravado pelas intempéries. Anualmente o país é assolado por cerca de seis furacões. Nós tivemos oportunidade de vivenciar um, em Gonaives, que fica à cerca de 140 km ao norte de Porto Príncipe. Mandamos um pelotão de trinta homens para fazer a segurança da base e auxiliar no resgate às vítimas.

DefesaNet: Como eram as ações sociais realizadas pela Brigada Haiti?

Ten.Cel Izaias: As ações sociais que nós fazemos são as chamadas ACISO (Ações Cívico Sociais), que consistem na distribuição de cestas básicas em determinados locais e períodos do dia. Realizávamos em torno de três ações semanais, sejam em escolas, creches ou áreas onde a população é mais carente.

Como foi trabalhar com contingentes de outros países?

Ten.Cel Izaias: Inicialmente, a integração foi grande no nosso próprio Ministério da Defesa, porquê Exército e Marinha trabalhavam próximos, desfrutando das mesmas idéias e compreendendo como a outra força atua. Tínhamos também próximos as forças do Sri Lanka e Guatemala. As aeronaves que voávamos eram chilenas e argentinas. O hospital era argentino, onde levamos alguns militares do batalhão e sentimos o profissionalismo deles.

Realmente foi uma experiência nova e gratificante o convívio com forças armadas estrangeiras. Era unânime a certeza de que nós não deixamos nada a desejar em relação aos outros exércitos. Estamos extremamente preparados. Uma coisa que fomos destaque foi na segurança do porto da Capital. Foi visível o aumento do número de navios que atracavam depois que as tropas brasileiras tomaram a área. Montamos um check-point na saída do porto e comprovamos o aumento no trânsito de veículos.

DefesaNet: Os argentinos e chilenos foram para o Haiti com um enfoque de imposição da paz. Como foi a relação com eles?

Ten.Cel Izaias:O nosso convívio com eles foi em Porto Príncipe. Eles atuavam operando helicópteros. Mandamos um pelotão para Gonaives, onde funcionava uma guarnição argentina. Aparentemente nossa relação foi muito boa. Naquele momento de calamidade, o mais importante é a união e cooperação, e isso foi uma característica da MINUSTAH.

DefesaNet: Como foi lidar com a saudade da família e a distância do Brasil?

Ten.Cel Izaias:Essa, a gente sabia que ia ser difícil. Mas com a tecnologia de hoje todos tinham acesso a computadores conectados na internet, e dispunham de cartões da HAITEL que é a companhia telefônica haitiana.

No final da missão, após a quarta mudança de base, a EMBRATEL instalou um link que possibilitava a ligação Haiti - Brasil como se fosse uma chamada local, e todos os militares do batalhão tinham direito há 10 minutos por dia, para falar com sua família. Isso diminuía a tensão e a saudade, além de tranqüilizar a família, já que chegavam muitas informações desconexas sobre a situação no país.

DefesaNet: As informações sobre a situação no Haiti eram escassas, o que deixava os familiares ansiosos. Como foi trabalhar com isso?

Ten.Cel Izaias: Para minimizar essa ansiedade, a cada quinze dias havia um vôo da Força Aérea Brasileira de suprimento, onde iam e vinham as cartas dos familiares e soldados. Era muito gratificante saber como estava nossa família, saber que nosso batalhão estava operando normalmente, tendo um Major no comando e quase vinte oficiais, cumprindo todas as determinações do comando da 8ª Brigada de Infantaria Motorizada, (Pelotas-RS). Isso tudo nos deixava mais tranqüilo.

DefesaNet: Como era o dia-dia dos militares no Haiti?

Ten.Cel Izaias: Muito parecido com a rotina diária de um quartel. Às 6:30h da manhã tínhamos a Alvorada, que era executada por um corneteiro que levamos daqui. Após eram realizadas as formaturas, início do expediente, almoço, retorno ao serviço, ao fim da tarde fazíamos educação física e à noite uma reunião sobre o resultado das patrulhas e atividades do dia. Isso era posteriormente reportado ao comando da Brigada Haiti.

DefesaNet: Quando foi o momento de maior tensão?

Ten.Cel Izaias:
Foi justamente entre o final de setembro e o início de outubro, quando os partidários do ex-presidente Jean Bertrand Aristide começaram a se organizar, provocando distúrbios na cidade como forma de mostrar a insatisfação com o governo provisório, e o desejo do retorno de Aristide ao poder.

A área de  Bel Air fazia parte de nossa alçada. Uma região pobre que concentra a maioria dos seguidores do ex-presidente. No começo de outubro fizemos uma operação de cerco em apoio Polícia Nacional Haitiana, que tinha o objetivo de acalmar os ânimos dos insurgentes. Nesse momento recebemos tiros e um soldado nosso foi ferido no pé. Foi um momento de muita tensão porque realmente a gente percebeu que poderiam acontecer coisas mais graves.

DefesaNet: Chegaram a ter um confronto direto?

Ten.Cel Izaias: Não houve um confronto direto, porque num combate urbano você não consegue enxergar bem as pessoas do outro lado, que escondem nas janelas e trocam muito de posição. Mas o cerco era para que a PNH fizesse o confronto direto, como determina a resolução 1542 da ONU, que prevê que as tropas da MINUSTAH devem criar as melhores condições para implantar no Haiti um ambiente seguro e estável. Nessa operação foram presos mais de oitenta suspeitos, alguns deles com prováveis ligações com as gangues.
 
DefesaNet: Como era a relação com a Polícia Nacional Haitiana?

Ten.Cel Izaias: Nossa relação era muito boa. O problema é que o efetivo deles era pequeno. Atuavam de uma maneira bem interessante: eram muito enérgicos.

DefesaNet: Que experiências o Exército traz do Haiti que poderão ser úteis em missões semelhantes no Brasil e no Exterior?

Ten.Cel Izaias: As experiências de uma missão real. Sair do Brasil e comprovar num teatro de operações que a doutrina que nós empregamos funciona, de um batalhão com cinco Companhias, todas elas descentralizadas e lideradas pelos oficiais. Para mim como comandante isso foi muito importante. Fazíamos seguidamente reuniões de Estado-Maior para o planejamento das ações a serem executadas na madrugada seguinte. Tudo a qualquer hora e a qualquer momento. O conjunto todo dessas experiências profissionais é muito produtivo ao País e ao Exército.
 
DefesaNet: Como é para um comandante trazer de volta todos os militares que levou?

Ten.Cel Izaias: Foi realmente uma dádiva. Agradeço ao Pai Maior por levar 750 homens e trazer todos eles íntegros para casa. Também credito essa vitória ao treinamento do batalhão em exercícios de força de paz. Todos os oficiais também conjugaram desse momento. Realizei muitas reuniões de comando e procurei me manter sempre calmo e sereno, sabendo que tinha um batalhão rigorosamente selecionado e que estavam motivados para cumprir a missão. Tudo isso foi importante para o pleno êxito de nosso trabalho.

Defesanet: Como foi a excitação do retorno?

Ten.Cel Izaias:
Existe um estudo da ONU sobre o estresse em missões de paz. Nos primeiros meses, tudo é novidade, e a tendência é você ficar mais preparado para a missão. Quando se começa a conhecer melhor o teatro de operações, em torno de dois ou três meses depois, existe um nível de equilíbrio em que o estresse fica neutro. Finalmente quando sabe que será repatriado, normalmente já se começa a enxergar o fim da missão. A partir daí começamos a fazer os planos para o retorno do contingente. Foi muito importante a voz de comando nesse momento, e principalmente o bom relacionamento dos oficiais com seus subordinados.

DefesaNet: Como os soldados respondiam a essa pressão toda?

Ten.Cel Izaias: Todos os soldados que levamos tinham no mínimo dois anos de Exército, nós não levamos recrutas para missão, o que já nos deu uma segurança maior. Muitos deles mais maduros, já tendo realizado diversos exercícios com tropa de força de paz. Eu vi diversas vezes em momentos de tensão, o nosso soldado manter a tranquilidade e a serenidade, sabendo que estávamos a serviço da ONU, que éramos neutros e somente devíamos usar a força em último caso. Na minha avaliação, os nossos cabos e soldados reagiram muito bem, o que significa que estavam preparados para cumprir a missão. Nossos militares eram quase todos do Rio Grande do Sul. Essa juventude mostrou a têmpera do povo gaúcho em virtude do intenso passado de lutas para defender nossas fronteiras. O soldado gaúcho é especial.
 
DefesaNet: Após a chegada no Brasil, todos os militares passam por um período de quarentena que inclui avaliações médicas e psicológicas. Como funciona essa quarentena?

Ten.Cel Izaias:
Esse processo foi conduzido pelo Centro de Estudos de Pessoal, no Rio de Janeiro. Quando chegamos aqui, existia uma tenente psicóloga com experiência de trabalho em doze contingentes no Timor Leste. Ela nos aplicou uma série de questionários à respeito de possíveis sintomas de estresse ocasionado por fatos que pudessem causar distúrbios.

Também, nos foi passado um vídeo que mostrava o nosso antes e o depois da missão, principalmente pelo que vimos e vivenciamos lá. Uma coisa interessante que a psicóloga falou, foi que o tempo não parou. Assim como nós mudamos nesses seis meses lá, aqui nós famílias também mudaram. Devemos ir com calma, tentar vivenciar da melhor forma possível nossa chegada.  Paralelamente a isso, passamos por três dias de testes físicos e de exames laboratoriais e onze dias de observação. Inclusive ainda estamos tomando remédio contra a malária, pois após a saída da região endêmica, deve ser tomado por mais quatro semanas, o que evita, caso esteja contaminado, desenvolver a doença.


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