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Defesa@Net 27 Outubro 2009

CRIME ORGANIZADO:
DEFESA OU SEGURANÇA PÚBLICA?

(A população é o Centro de Gravidade da luta contra o crime)

General de Ex R1- CARLOS ALBERTO PINTO SILVA -
ex-comandante de Operações Terrestres (COTer),
do Comando Militar do Sul, e do Comando Militar do Oeste

Vivemos atualmente uma grave crise no Brasil. Diariamente, assistimos a traficantes, e outros tipos de bandidos, desafiando a sociedade e enfrentando de maneira hostil e violenta os órgãos de Segurança Pública.

Não podemos, numa conjuntura de ameaças multidimensionais, ter como referência paradigmas antigos no que se refere à soberania e ao combate ao crime organizado.

Soberania, “em sentido lato, é o poder de mando de última instância numa sociedade política" . Refere-se à entidade que não conhece superior na ordem externa nem igual na ordem interna. Relaciona-se a poder, autoridade suprema, independência (geralmente do Estado). Em outras palavras, soberania é uma autoridade superior que não pode ser limitada por nenhum outro ator.

O Estado brasileiro protege o seu espaço de soberania nacional em relação a outros Estados. No entanto, seus últimos governos não têm conseguido evitar que a sua soberania seja violada diariamente. Não por outras nações, mas por grupos do crime transnacional, que cruzam as fronteiras à procura de novos negócios, e por ações de criminosos nos estados da Federação, que impedem que as autoridades exerçam o poder de mando em última estância em áreas definidas, como ocorre nas favelas do Rio de Janeiro, por exemplo.

Defesa é atribuição do Governo Federal!

Por isso, ressaltamos: caso o Governo Federal, em função da magnitude da situação e/ou da incapacidade de os estados federados preservarem, na plenitude, a soberania nacional em seus respectivos territórios, entenda que essa ameaça constitui um problema de Defesa, não deverá vacilar na decisão de empregar todos os meios necessários para enfrentá-la, aqui incluídas as Forças Armadas. Mas de nada, ou de muito pouco, adiantará empregar isoladamente os meios do Ministério da Defesa. É fundamental o seu emprego em conjunto com meios disponíveis do Judiciário Federal, dos estados da Federação e de outros ministérios, tais como da Justiça, das Cidades, da Saúde, da Educação, todos integrados, sincronizados, e sob um comando único designado pelo poder central.

Segurança Pública é atribuição dos estados da Federação!

Por isso, o emprego das Forças Armadas nesse campo deve possuir caráter emergencial e temporal. Devem ser lançadas em apoio ou depois de esgotados os recursos dos governos estaduais e seguir rígidas normas legais.

Em diversas partes do mundo, a experiência nos mostra uma série de insucessos no emprego das Forças Armadas no combate direto ao narcotráfico e demais crimes transnacionais. É preciso criar novas estratégias de combate ao crime organizado, justamente porque a nova realidade das ameaças multidimensionais desafia a soberania do Estado.

A operação contra o crime organizado abarca aspectos muito variados, tendo implicações políticas, sociais e psicológicas, além das puramente policiais.

Somente a integração dos meios sob comando único poderá conseguir que os esforços desenvolvidos em cada um dos campos se dirijam de forma coordenada aos mesmos objetivos. Ou seja, o comando único permitirá uma ação integrada contra o crime organizado, desde a fase do planejamento até a execução das ações, passando, é claro, pela esmerada preparação dos atores envolvidos. Nesse sentido, a cooperação entre o Governo Federal e os Governos Estaduais é condição indispensável.

A definição da situação final desejada é parte fundamental do planejamento da ação para a pacificação da área em crise por força da ação de criminosos.

A população é o centro de gravidade da luta contra o crime e o objetivo principal deve ser a sua proteção. A influência da opinião pública e a presença física da população nas áreas onde serão desencadeadas as ações, entre outros fatores, impedirão o emprego de meios considerados “maiores que os admitidos” e que possam produzir efeitos prejudiciais aos habitantes locais. A força que pretende contar com o apoio da opinião púbica e que está altamente compromissada com a solução do problema deverá manter e externar essa preocupação, para que suas ações contra o crime não produzam, como conseqüência, danos colaterais indesejáveis à população.

Numa democracia não se pode ganhar a luta contra o crime organizado sem o apoio popular, sem o respaldado do consenso no seio da sociedade ameaçada.
As forças de segurança pública são os atores mais fracos e não os mais fortes, já que não podem usar livremente o seu poder, em face da presença física da população. Eventuais danos aos habitantes, que podem comprometer seriamente o andamento e/ou o sucesso da operação, devem ser evitados a todo custo.

A valorização correta da ameaça e o controle do emprego da força no combate às atividades criminosas são de suma importância. A História demonstra que as represálias precipitadas e as ações violentas superiores ao necessário, longe de conseguir demover os criminosos, geram a reação negativa da opinião pública, influenciada pelos meios de comunicação.

As forças empregadas deverão conhecer a componente cultural da população. Entender os aspectos culturais da comunidade é essencial para ajudar na melhoria política, social e de segurança pública local. Isso é conseguido por intermédio da Inteligência Cultural.

Integrando-se à população, as forças poderão tomar conhecimento sobre o que está acontecendo. Essa integração gera a simpatia da população e favorece a proteção das forças empregadas.

O emprego da inteligência precisa potencializar todas as fontes de informação, sendo conveniente montar ações de alcance variável e com a finalidade primordial de se manter informado para planejar operações. Nesse sentido, é imprescindível a colaboração das agências de inteligência federais e estaduais.
É preciso lutar contra a propaganda adversa e a desinformação, lançando mão de uma intensa campanha psicológica, que tenha repercussão positiva na opinião pública da comunidade local, regional e mesmo nacional.

A informação, a prevenção e o controle da população permitem conhecer a comunidade e seus atores mais importantes, para se antecipar às necessidades locais e evitar eventuais ações contrárias ao trabalho das forças policiais empregadas.

É essencial para o êxito a participação da população, o que pode ser conseguido pelo emprego de ações psicológicas capazes de fazer aumentar o número de pessoas interessadas em participar, com suas experiências específicas, dos trabalhos de pacificação e melhoria da comunidade.

A guerra psicológica e a ação psicológica em apoio às operações devem ser realizadas por grupos operacionais especializados. Tais grupos se aproveitam do fato mediático para, por intermédio do emprego planejado da propaganda e da ação psicológica, direcionar condutas, sem recorrer ao uso de armas.

A força policial tem que agir com rapidez para satisfazer, no menor tempo possível, as expectativas da comunidade.

Os poderes públicos federal, estadual e municipal possuem importantes capacidades ao seu inteiro dispor. Assim, os problemas graves existentes, principalmente nas áreas de risco, devem ser tratados e solucionados antes que se tornem casos de Segurança Pública ou de Defesa.

Aspectos muito importantes a considerar:

- definir se a ameaça constitui um problema de Defesa ou Segurança Pública;
- estabelecer a população como Centro de Gravidade;
- manter bem capacitadas as estruturas de Defesa e Segurança Pública;
- integrar, e manter sob comando único, a ação dos órgãos federais e estaduais;
- definir, claramente, os objetivos da operação, que devem ser compatíveis com a capacidade dos meios disponíveis;
- agir sempre com moderação, aplicando prudentemente a força;
- planejar e executar operações psicológicas;
- apoiar e organizar da população residente nas áreas de operações;
- após o fim das operações, permanecer nas áreas pacificadas.


Niterói-RJ, 23 de outubro de 2009.

1 - BOBBIO, Norberto.; MATTEUCCI, Nicole.; PARQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. Tradução por João Ferreira. 2. ed. Brasília, DF: Ed. da Universidade de Brasília, 1986.

Matérias Publicadas por Defesa@Net em cobertura exclusiva no Rio de Janeiro no mês de Outubro :

Análise - Guerra no Rio: a outra face da Cidade Maravilhosa
http://www.defesanet.com.br/09_10/091019_025.htm

Reportagem - GAM da Polícia Militar do Rio de Janeiro realiza a primeira missão real de Combate SAR no BrasilTripulação de helicóptero abatido foi resgatada por outra aeronave
http://www.defesanet.com.br/09_10/091022_040.htm

Matéria sobre o GAM da PMERJ - Abril de 2009
http://www.defesanet.com.br/04_09/br_gam_1.htm

DNTV - Voo tático policial sobre favela no Rio de Janeiro
http://www.defesanet.com.br/04_dntv/091021_gam03.htm

DNTV - Patrulha aeromarítima com os helicópteros Fênix 02 e 03 na Baía da Guanabara
http://www.defesanet.com.br/04_dntv/091021_gam01.htm

DNTV - Patrulha com o Grupamento Marítimo na Baía da Guanabara
http://www.defesanet.com.br/04_dntv/091021_gam02.htm

DEFESA@NET

A Guerra de Quarta Geração, a Guerra em Rede Social e a Situação Atual em Honduras - Setembro 2009
http://www.defesanet.com.br/pensamento1/gen_pinto_silva_4.htm

A Estrutura Militar de Guerra do Exército Brasileiro
Idéias para Discussão - Julho 2009
http://www.defesanet.com.br/pensamento1/gen_pinto_silva_3.htm

A implementação da Estratégia Nacional de Defesa – alguns aspectos julgados relevantes http://www.defesanet.com.br/pensamento1/gen_pinto_silva_2.htm

A integração sul-americana e os conflitos do futuro
- Março 2009
http://www.defesanet.com.br/pensamento1/gen_pinto_silva_1.htm

Conjuntura Atual, Riscos e Oportunidades - Gen Pinto Silva - Dezembro 2009
http://www.defesanet.com.br/pensamento1/gen_pinto_silva.htm

DESPEDIDA DO COMANDANTE DE OPERAÇÕES TERRESTRES Gen Ex Carlos Alberto PINTO SILVA - Carta aos Integrantes da Força Terrestre Brasileira - 02 Julho 2008
(para versão original em pdf acesse)
http://www.defesanet.com.br/eb1/gen_pinto_silva.htm

     
 
 
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