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Defesa@Net 05 Maio 2009


A implementação da Estratégia Nacional de Defesa – alguns aspectos julgados relevantes

Gen Ex R1 CARLOS ALBERTO PINTO SILVA

Decreto Presidencial, de dezembro de 2008, aprovou a Estratégia Nacional de Defesa (END), importante instrumento destinado a balizar procedimentos e caminhos a seguir por esse importante setor do Poder Nacional.

A formulação de estratégias é uma tarefa difícil; colocá-las em execução é ainda mais complicado. A experiência mostra que muitos gestores, integrantes dos mais elevados escalões, demonstram saber como desenvolver estratégias, mas se mostram pouco hábeis na tarefa de implementá-las, encontrando dificuldades na superação dos variados obstáculos políticos, organizacionais e orçamentários que são encontrados no caminho.

Não basta embasar as estratégias em objetivos operacionais mensuráveis de curto e de médio prazo. É fundamental que seus pressupostos tenham como alicerces sólidos e equilibrados planos de ação.

No caso específico da END, o Brasil dispõe, hoje, de um instrumento que foi longamente pensado por seus formuladores. Por outro lado, questionamos, será que foi suficientemente discutido, com a profundidade necessária, por todos os segmentos direta ou indiretamente envolvidos? Estão os mais importantes pressupostos levantados e devidamente embasados em sólidos e equilibrados planos de ação?

Continuemos a apresentar questões de difíceis respostas e discutíveis graus de certeza:

- Quais as tendências futuras dos recursos destinados à Defesa no Brasil?;
- O Governo Federal está, realmente, disposto a cumprir suas promessas no sentido de atender às necessidades estabelecidas pela END?;
- O Governo Federal está, realmente, disposto a aumentar a produção nacional de material de Defesa e a incrementar os recursos destinados à sua aquisição?;
- As Forças Armadas brasileiras estão preparadas para empregar recursos de maneira mais inteligente e racional, ou seja, onde é realmente, necessário?;
- Com relação aos países desenvolvidos, queremos manter parcerias em toda a gama de capacidades associadas aos conflitos de alta intensidade?;
- Queremos desenvolver Forças Armadas capazes de atuar também em operações de alta intensidade, contando com tecnologia nacional e internacional de ponta, ou continuaremos a priorizar as tarefas secundárias de não-guerra, como a gestão de crises na América do Sul, as operações de manutenção de paz e as operações de garantia da lei e da ordem e do tipo polícia, consideradas modestas em razão da estatura político-estratégica do Brasil?;
- Estamos dispostos a pensar e a discutir a necessidade de uma Revolução em Assuntos Militares (RAM), iniciando uma Transformação de Defesa nas nossas Forças Armadas, ou continuaremos a priorizar a tomada de medidas paliativas destinadas a apenas remediar a deterioração de nossa capacidade operacional?

Uma estratégia é dinâmica, portanto, deve ser constantemente reavaliada. A reavaliação é uma peça-chave na execução, pois promove as discussões, esclarece as bases fundamentais da estratégia e ajuda a estabelecer objetivos relacionados com a sua execução.

O poder é fundamental na implementação de uma estratégia. As tentativas de execução que violaram as estruturas de poder sempre enfrentaram dificuldades e foram frequentemente condenadas ao fracasso.

Nesse contexto, o clima criado pelos chefes é de capital importância, pois afeta toda a instituição, dos mais baixos aos mais altos escalões. Vale ressaltar que os chefes, na esmagadora maioria das vezes, são também subordinados. Essa condição faz com que eles reajam ao clima decorrente das necessidades impostas pelas estratégias a implementar. Por isso, é importante que os chefes, em todos os níveis, acreditando nos objetivos a alcançar, se empenhem na execução escrupulosa de seus papéis, estimulando seus subordinados à superação das dificuldades e liderando os processos de controle.

Muitas vezes, o estabelecimento de novos rumos a seguir exigirá mudanças na cultura da organização. Mudanças de cultura são difíceis, mas possíveis. Vejamos algumas regras que, bem administradas, podem ajudar nesse sentido:

- As razões para a mudança devem ser claras, estimulantes e de comum acordo entre os principais participantes do processo;
- O foco deve estar voltado para a mudança de comportamento e não diretamente para a mudança de cultura. Novas pessoas, incentivos, controles e estruturas organizacionais podem motivar mudanças comportamentais e, em consequência, levar a mudanças na cultura da instituição;
- A comunicação efetiva é fundamental. A instituição deve desenvolver um plano de comunicação e a chefia deve se ligar diretamente com as pessoas afetadas pelas mudanças;
- A alta administração deve empenhar todos os seus esforços para diminuir a resistência às mudanças;
- O cuidado com a velocidade deve ser observado. Quando se busca mudar a cultura de uma organização, a velocidade pode ser desejável ou até mesmo necessária, mas vem impregnada de problemas. Mudar muitas coisas simultaneamente, e com pressa, pode confundir o processo de mudança e tornar a coordenação e a comunicação difíceis.

Não há como negar que são os governos, por intermédio de Estratégias ou Políticas Nacionais de Defesa, que têm de decidir sobre a preservação da paz, quanto aos passos individuais da escalada em tempo de tensão e, finalmente, acerca do emprego do poder militar para dissuadir ou para travar a guerra.

Ocorre que, muitas vezes, se observa a falta de uma ligação objetiva entre políticos e militares. Isso dificulta a obtenção da clareza necessária com relação às razões que levam ao emprego do poder armado – e que meios a utilizar - na conquista dos objetivos, marcados pela política, necessários à defesa dos interesses nacionais.

Alguns argumentam que, em uma democracia, somente os políticos podem tratar de políticas e de planejamento em nível estratégico. Esse pensamento significa confundir o assunto, pois, na maioria dos casos, os políticos não participam desse processo no campo da Defesa, mas, sim, decidem sobre políticas ou estratégias que lhes são propostas pelos assessores militares ou civis especialistas no assunto.

Alguns políticos erram ao ver as Forças Armadas como um instrumento de governo e não de Estado. Por isso, buscam alijar os militares (que são apartidários) das decisões políticas e estratégicas necessárias à defesa da sociedade e do Brasil. Tal atitude prejudica o planejamento e a implementação da Estratégia Nacional de Defesa, pois representa uma regressão do pensamento estratégico no País, em face de um injusto pré-julgamento dos militares feito por maus políticos de plantão.

Somente por meio de uma completa compreensão da política nacional e da integração entre civis e militares, poder-se-á estabelecer os melhores parâmetros para o emprego bem sucedido do Poder Militar no contexto de uma Estratégia Nacional de Defesa.

O pensamento estratégico precisa ser amplo, ao invés de buscar uma análise detalhada dos fatos. Deve ter como base as necessidades de um grupo humano e ser realizado em equipe. O pensamento estratégico é social e, portanto, não deve ser obra de um homem, personalista e iluminado. A subordinação às idéias de um “virtuose” é o caminho mais direto para o desastre.

Com este trabalho, procuramos apontar aspectos que consideramos relevantes para que a atual END obtenha o êxito esperado em prol do setor da Defesa do Brasil.

Alguns pontos desse importante documento foram questionados, uma vez que, sob a nossa ótica, não estão claros. As respostas a esses questionamentos, esperamos, foram levantadas antes do início e durante a formulação da END e orientarão a sua implementação, posto que, acreditamos, são fundamentais para o seu sucesso.

Caso contrário, a END não passará de mero trabalho teórico!

A estratégia Nacional de Defesa não deve significar o fim do assunto, como poderia transparecer a sua sigla (END ), mas, ao contrário, o início de uma ampla discussão, em nível nacional, sobre esse importante tema, com a participação pró-ativa de todos os segmentos da sociedade brasileira.

Niterói-RJ, maio de 2009.

DEFESA@NET

A integração sul-americana e os conflitos do futuro
- Março 2009
http://www.defesanet.com.br/pensamento1/gen_pinto_silva_1.htm

Conjuntura Atual, Riscos e Oportunidades - Gen Pinto Silva - Dezembro 2009
http://www.defesanet.com.br/pensamento1/gen_pinto_silva.htm

DESPEDIDA DO COMANDANTE DE OPERAÇÕES TERRESTRES Gen Ex Carlos Alberto PINTO SILVA - Carta aos Integrantes da Força Terrestre Brasileira - 02 Julho 2008
(para versão original em pdf acesse)
http://www.defesanet.com.br/eb1/gen_pinto_silva.htm

     
 
 
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