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Defesa@Net 25 Abril 2009
Zero Hora 25 Abril 2009

Entrevista: O novo voo de Alberto Santos-Dumont
Jornalista Cosme Degenar Drumond lança livro sobre o Pai da Aviação

Luiz Zini Pires

<- - Capa do livro

Entrevista: O novo voo de Alberto Santos-Dumont
Jornalista Cosme Degenar Drumond lança livro sobre o Pai da Aviação

Luiz Zini Pires

Alberto Santos-Dumont. Novas Revelações (Editora de Cultura, 296 páginas, R$ 50) é o resultado de meia década de trabalho do jornalista Cosme Degenar Drumond. Ele faz um retrato interessante do Pai da Aviação, recupera algumas histórias, tenta mostrar a importância de Santos-Dumont. Diz, por exemplo, que o brasileiro "não fazia distinção entre personalidades ilustres e pessoas simples; tratava a todos com a mesma fidalguia". Ele foi um homem que praticou ações de benemerência e que sempre defendeu o emprego pacífico do avião.

— Curiosamente, porém, faleceu no momento em que a aviação era utilizada como instrumento bélico na Revolução Constitucionalista de 1932 — lembra o autor.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Drumond:

Cultura - Depois de cinco anos debruçado sobre a vida de Santos-Dumont, lendo e pesquisando, qual a grande novidade que o seu livro apresenta aos leitores brasileiros?
Cosme Degenar Drumond
- A extraordinária figura humana de Santos-Dumont. Além de contribuir para o progresso da ciência e da humanidade, ele praticou ações humanitárias, ajudando a aliviar o sofrimento de pessoas simples, sobretudo os desempregados e mutilados por acidentes ou pela guerra. Fez isso o tempo todo, até no último instante de vida. A solidariedade, o respeito e a atenção eram visíveis na personalidade desse grande brasileiro. Ele pretendia, junto com sua irmã Virgínia, construir um hospital beneficente. Mas não teve tempo para isso. Essa talvez tenha sido uma frustração que levou consigo para o túmulo, pois ele chegou a projetar o empreendimento. Praticamente, todo o seu patrimônio pessoal foi destinado por testamento à instituições culturais e de benemerência e a seus sobrinhos e afilhados. Não esqueceu de contemplar aqueles que lutavam contra a paralisia, talvez pensando no pai, que morrera hemiplégico. Devolveu ao Estado a casa em que nascera, no interior de Minas, onde hoje funciona o Museu Santos-Dumont, que lhe fora doada pelos brasileiros em reconhecimento por suas conquistas aeronáuticas. É impressionante como Santos-Dumont era generoso, solidário e amigo. Por sua generosidade, chegou inclusive a ser explorado por pessoas desonestas. O grande destaque do livro é mostrar para o público o lado humano, pouco conhecido, desse ilustre brasileiro que fez uma revolução nos céus de Paris.

Cultura - Santos-Dumont sempre defendeu o emprego pacífico do avião, era avesso as guerras. Será que ele ficaria muito decepcionado e impressionado ao ver jatos despejando toneladas de bombas na cabeça das pessoas, como no Iraque, Afeganistão ou na faixa de Gaza? Qual seria reação dele, que faleceu justamente no momento em que a aviação era utilizada como instrumento bélico na Revolução Constitucionalista de 1932?
Drumond - Santos-Dumont fez acertadas prospecções do futuro, inclusive a aplicação da aviação como instrumento de guerra. Ele próprio colocou à disposição o Exército francês seus balões-dirigíveis, em caso de guerra envolvendo a França e algum país não americano. Porém, a essência do seu pensamento era tornar a aviação um instrumento de paz e de integração dos povos. Qualquer pessoa ponderada, sobretudo Santos-Dumont, que ajudou a dar asas ao homem, com certeza fica triste ao ver o avião, um dos símbolos da integração da humanidade, sendo empregado como arma de destruição.

Cultura - Que tipo de homem era Santos—Dumont e como os brasileiros precisam se lembrar da sua histórica figura? Ele foi um herói brasileiro?
Drumond -
Santos-Dumont foi um exemplo a ser seguido. Era ousado, corajoso, confiante, persistente e determinado, qualidades que empurram qualquer pessoa, em qualquer ramo de atividade, na direção do sucesso, sobretudo quando se confia no projeto ou ideal a que se dedica. Os próprios ingleses e franceses diziam que ele foi "nada menos do que um herói". Os brasileiros têm essa mesma percepção. É por isso que Santos-Dumont tornou-se na figura histórica brasileira mais retratada em livro, documentário, filme e até em novela da TV. Do seu vasto acervo de legados, ele foi o primeiro brasileiro a lançar mão do chamado "clipping"; o primeiro a introduzir o automóvel na América Latina; criou conceitos de aerodinâmica que ainda hoje prevalecem na aviação; cunhou o termo aeroporto ("airport") e lançou a ideia do porta-aviões, ao sugerir aos americanos uma nova classe de navio destinada a transportar aeronaves, na época, chamada por ele de "porta-dirigíveis". Os brasileiros jamais deixarão de lembrar esse notável compatriota como um exemplo digno.

Cultura - Você afirma em seu livro que o histórico aviador brasileiro praticou várias modalidades de esportes, entre as quais automobilismo, tênis e esgrima. Diz ainda que era um conquistador e que teve casos com várias mulheres. Certo?
Drumond -
Ele também gostava de esquiar na neve e de fazer caminhadas matinais. Participou de competições esportivas para balões livres e foi juiz de tênis no Fluminense Futebol Clube, no Rio de Janeiro. Manteve casos amorosos na França, nos Estados Unidos, no Brasil e no Chile. Cortejou inclusive mulheres casadas e até uma amante de um rei da Bélgica. O livro dá detalhes e exibe documentação acerca desses envolvimentos amorosos. Ele tinha preferência por mulheres jovens, priorizava a beleza física e também se envolveu com prostitutas e frequentou prostíbulos e cabarés. Chegou a causar desconforto à diplomacia brasileira no Chile, por querer saber onde encontrar "mulherzinhas" na capital chilena. Um diplomata teve de se desdobrar para descobrir e elencar os prostíbulos da cidade. Santos-Dumont teve o seu nome envolvido num escândalo em Paris, provocado por ação de divórcio, por ter passado a noite com a esposa de um corretor de seguros. Solteiro, rico e famoso, circulava pela noite ao lado de mulheres bonitas e famosas. E as presenteava com jóias que o joalheiro francês Louis Cartier, seu amigo, confeccionava a seu pedido. Aliás, os franceses o consideravam um "Dom Juan". No Brasil, o caso mais conhecido envolveu a bela paulista Yolanda Penteado, de tradicional família de cafeicultores. Os dois frequentavam o Copacabana Palace, no Rio, para encontros furtivos, e entravam pelos fundos do hotel. Na galeria de fotos de hóspedes ilustres do Copacabana Palace há um fotografia dele. Na França, ele pediu em casamento a filha de Gabriel Voisin, outro pioneiro da aviação, seu amigo. Janine, a filha de Voisin, era uma adolescente morena, de 17 anos. Nos Estados Unidos, uma dama da alta sociedade, mãe de uma de suas namoradas, chegou a considerá-lo um "caça-dote", o que levou a uma colunista de um jornal de Boston a dizer que a tal senhora não podia chamá-lo de "mercenário", pois "ele é tão extraordinariamente rico como ela". O livro traz os nomes e também revela cartas inéditas sobre os casos amorosos. Outra informação pouco conhecida dos brasileiros dá conta de que Santos-Dumont ingressou na maçonaria, após uma conversa que manteve com o então presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, que era maçom.

Cultura - Nas diversas viagens que o senhor fez a Paris, Londres, Buenos e Santiago do Chile, por exemplo, descobrindo documentos inéditos, inclusive, é possível dizer que a imagem do brasileiro é a mesma em todos os países? Ou muda em cada fronteira?
Drumond -
Há um aspecto interessante que despertou a minha curiosidade durante as pesquisas para o livro. Santos-Dumont era tão respeitado nos Estados Unidos, que mesmo depois que os irmãos Orville e Wilbur Wright foram considerados por um tribunal americano como os pioneiros da aviação, era ele quem sempre era convidado pela Casa Branca a opinar nas questões relacionadas com a atividade aeronáutica. Ele chegou a representar os Estados Unidos numa conferência aeronáutica no Chile, em 1916. Em outra ocasião, viajou aos Estados Unidos com passaporte diplomático emitido pelo governo americano, para atender a um chamado de Franklin Roosevelt, então secretário da Marinha americana. Em 1969, seu nome foi dado a uma cratera da Lua, iniciativa do astronauta Michael Collins, que fez um dos voos da Missão Apollo. A homenagem foi corroborada por cientistas americanos e apoiada pela aviadora brasileira Anésia Pinheiro Machado, a quem chamo de "a Chiquinha Gonzaga da aviação", em nome dos brasileiros. Em 2006, durante as comemorações do centenário de vôo do 14Bis, uma réplica do Demoiselle, a aeronave esportiva de Santos-Dumont, fez um vôo conjunto com o Flyer, a aeronave dos irmãos Wright. Portanto, eu acredito que, independentemente da primazia do voo mecânico, os americanos sempre respeitaram e homenagearam Santos-Dumont. A reverência a ele é mais latente na Europa, na América Latina, com singular destaque no Brasil. É aquele velho ditado: "quem foi rei, nunca perde a majestade".

Cultura - Como o senhor descreveria os últimos dias de Santos-Dumont?
Drumond - Essa é uma fase melancólica na vida de Santos-Dumont, sobretudo os seus últimos dois anos de vida. Santos-Dumont viveu um período glamoroso da história francesa, conviveu com inventores famosos, como Thomas Edison, e foi aclamado no mundo inteiro. Já perto da terceira idade, a depressão emocional passou a degradar cada vez mais sua vida social, levando-o a internar-se em sanatórios e clínicas de repouso. Diabético (outra informação pouco conhecida dos brasileiros), submeteu-se a uma dieta medonha, logo ele, um bon-vivant que apreciava a cozinha francesa. Passou então a viver voluntariamente em clausura. Com a degradação de sua saúde, por duas vezes tentou o suicídio. Em 1932, sua mente estava profundamente conturbada. No seu derradeiro momento de vida, viu de perto a sucessão de mortes causada pela Revolução Constitucionalista, deflagrada com a participação da aviação. Na terceira tentativa de suicídio, ele se foi. Sua mãe também sofria de depressão emocional e suicidou-se na cidade do Porto, em Portugal, em 1902. Creio que essa foi a fase triste do herói que foi íntimo da felicidade. Pena que não tenha assistido o quanto o avião tornou-se importante, sobretudo no processo de integração do Brasil. Enquanto a população chorava sua morte, o Correio Aéreo Nacional levava a solidariedade e a assistência médica aos sofridos brasileiros das mais distantes e isoladas regiões do país, concretizando assim o grande sonho de Alberto Santos-Dumont.

DEFESA@NET
ALBERTO SANTOS-DUMONT. NOVAS REVELAÇÕES - Noite da Autógrafos Reportagem Fotográfica
http://www.defesanet.com.br/pensamento1/degenar_2.htm

Cosme Degenar parte para novos desafios - 26 Janeiro 2009
http://www.defesanet.com.br/pensamento1/degenar.htm

     
 
 
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