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Entrevista:
O novo voo de Alberto Santos-Dumont
Jornalista Cosme Degenar Drumond lança
livro sobre o Pai da Aviação
Luiz
Zini Pires
<- - Capa do livro
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Entrevista:
O novo voo de Alberto Santos-Dumont
Jornalista Cosme Degenar Drumond lança livro
sobre o Pai da Aviação
Luiz
Zini Pires
Alberto
Santos-Dumont. Novas Revelações (Editora
de Cultura, 296 páginas, R$ 50) é o resultado
de meia década de trabalho do jornalista Cosme
Degenar Drumond. Ele faz um retrato interessante do
Pai da Aviação, recupera algumas histórias,
tenta mostrar a importância de Santos-Dumont.
Diz, por exemplo, que o brasileiro "não
fazia distinção entre personalidades ilustres
e pessoas simples; tratava a todos com a mesma fidalguia".
Ele foi um homem que praticou ações de
benemerência e que sempre defendeu o emprego pacífico
do avião.
—
Curiosamente, porém, faleceu no momento em que
a aviação era utilizada como instrumento
bélico na Revolução Constitucionalista
de 1932 — lembra o autor.
Leia
a seguir os principais trechos da entrevista com Drumond:
Cultura
- Depois de cinco anos debruçado sobre a vida
de Santos-Dumont, lendo e pesquisando, qual a grande
novidade que o seu livro apresenta aos leitores brasileiros?
Cosme Degenar Drumond -
A extraordinária figura humana de Santos-Dumont.
Além de contribuir para o progresso da ciência
e da humanidade, ele praticou ações humanitárias,
ajudando a aliviar o sofrimento de pessoas simples,
sobretudo os desempregados e mutilados por acidentes
ou pela guerra. Fez isso o tempo todo, até no
último instante de vida. A solidariedade, o respeito
e a atenção eram visíveis na personalidade
desse grande brasileiro. Ele pretendia, junto com sua
irmã Virgínia, construir um hospital beneficente.
Mas não teve tempo para isso. Essa talvez tenha
sido uma frustração que levou consigo
para o túmulo, pois ele chegou a projetar o empreendimento.
Praticamente, todo o seu patrimônio pessoal foi
destinado por testamento à instituições
culturais e de benemerência e a seus sobrinhos
e afilhados. Não esqueceu de contemplar aqueles
que lutavam contra a paralisia, talvez pensando no pai,
que morrera hemiplégico. Devolveu ao Estado a
casa em que nascera, no interior de Minas, onde hoje
funciona o Museu Santos-Dumont, que lhe fora doada pelos
brasileiros em reconhecimento por suas conquistas aeronáuticas.
É impressionante como Santos-Dumont era generoso,
solidário e amigo. Por sua generosidade, chegou
inclusive a ser explorado por pessoas desonestas. O
grande destaque do livro é mostrar para o público
o lado humano, pouco conhecido, desse ilustre brasileiro
que fez uma revolução nos céus
de Paris.
Cultura
- Santos-Dumont sempre defendeu o emprego pacífico
do avião, era avesso as guerras. Será
que ele ficaria muito decepcionado e impressionado ao
ver jatos despejando toneladas de bombas na cabeça
das pessoas, como no Iraque, Afeganistão ou na
faixa de Gaza? Qual seria reação dele,
que faleceu justamente no momento em que a aviação
era utilizada como instrumento bélico na Revolução
Constitucionalista de 1932?
Drumond
-
Santos-Dumont fez acertadas prospecções
do futuro, inclusive a aplicação da aviação
como instrumento de guerra. Ele próprio colocou
à disposição o Exército
francês seus balões-dirigíveis,
em caso de guerra envolvendo a França e algum
país não americano. Porém, a essência
do seu pensamento era tornar a aviação
um instrumento de paz e de integração
dos povos. Qualquer pessoa ponderada, sobretudo Santos-Dumont,
que ajudou a dar asas ao homem, com certeza fica triste
ao ver o avião, um dos símbolos da integração
da humanidade, sendo empregado como arma de destruição.
Cultura
- Que tipo de homem era Santos—Dumont e como os
brasileiros precisam se lembrar da sua histórica
figura? Ele foi um herói brasileiro?
Drumond -
Santos-Dumont foi um exemplo a ser seguido. Era ousado,
corajoso, confiante, persistente e determinado, qualidades
que empurram qualquer pessoa, em qualquer ramo de atividade,
na direção do sucesso, sobretudo quando
se confia no projeto ou ideal a que se dedica. Os próprios
ingleses e franceses diziam que ele foi "nada menos
do que um herói". Os brasileiros têm
essa mesma percepção. É por isso
que Santos-Dumont tornou-se na figura histórica
brasileira mais retratada em livro, documentário,
filme e até em novela da TV. Do seu vasto acervo
de legados, ele foi o primeiro brasileiro a lançar
mão do chamado "clipping"; o primeiro
a introduzir o automóvel na América Latina;
criou conceitos de aerodinâmica que ainda hoje
prevalecem na aviação; cunhou o termo
aeroporto ("airport") e lançou a ideia
do porta-aviões, ao sugerir aos americanos uma
nova classe de navio destinada a transportar aeronaves,
na época, chamada por ele de "porta-dirigíveis".
Os brasileiros jamais deixarão de lembrar esse
notável compatriota como um exemplo digno.
Cultura
- Você afirma em seu livro que o histórico
aviador brasileiro praticou várias modalidades
de esportes, entre as quais automobilismo, tênis
e esgrima. Diz ainda que era um conquistador e que teve
casos com várias mulheres. Certo?
Drumond - Ele
também gostava de esquiar na neve e de fazer
caminhadas matinais. Participou de competições
esportivas para balões livres e foi juiz de tênis
no Fluminense Futebol Clube, no Rio de Janeiro. Manteve
casos amorosos na França, nos Estados Unidos,
no Brasil e no Chile. Cortejou inclusive mulheres casadas
e até uma amante de um rei da Bélgica.
O livro dá detalhes e exibe documentação
acerca desses envolvimentos amorosos. Ele tinha preferência
por mulheres jovens, priorizava a beleza física
e também se envolveu com prostitutas e frequentou
prostíbulos e cabarés. Chegou a causar
desconforto à diplomacia brasileira no Chile,
por querer saber onde encontrar "mulherzinhas"
na capital chilena. Um diplomata teve de se desdobrar
para descobrir e elencar os prostíbulos da cidade.
Santos-Dumont teve o seu nome envolvido num escândalo
em Paris, provocado por ação de divórcio,
por ter passado a noite com a esposa de um corretor
de seguros. Solteiro, rico e famoso, circulava pela
noite ao lado de mulheres bonitas e famosas. E as presenteava
com jóias que o joalheiro francês Louis
Cartier, seu amigo, confeccionava a seu pedido. Aliás,
os franceses o consideravam um "Dom Juan".
No Brasil, o caso mais conhecido envolveu a bela paulista
Yolanda Penteado, de tradicional família de cafeicultores.
Os dois frequentavam o Copacabana Palace, no Rio, para
encontros furtivos, e entravam pelos fundos do hotel.
Na galeria de fotos de hóspedes ilustres do Copacabana
Palace há um fotografia dele. Na França,
ele pediu em casamento a filha de Gabriel Voisin, outro
pioneiro da aviação, seu amigo. Janine,
a filha de Voisin, era uma adolescente morena, de 17
anos. Nos Estados Unidos, uma dama da alta sociedade,
mãe de uma de suas namoradas, chegou a considerá-lo
um "caça-dote", o que levou a uma colunista
de um jornal de Boston a dizer que a tal senhora não
podia chamá-lo de "mercenário",
pois "ele é tão extraordinariamente
rico como ela". O livro traz os nomes e também
revela cartas inéditas sobre os casos amorosos.
Outra informação pouco conhecida dos brasileiros
dá conta de que Santos-Dumont ingressou na maçonaria,
após uma conversa que manteve com o então
presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, que
era maçom.
Cultura
- Nas diversas viagens que o senhor fez a Paris, Londres,
Buenos e Santiago do Chile, por exemplo, descobrindo
documentos inéditos, inclusive, é possível
dizer que a imagem do brasileiro é a mesma em
todos os países? Ou muda em cada fronteira?
Drumond - Há
um aspecto interessante que despertou a minha curiosidade
durante as pesquisas para o livro. Santos-Dumont era
tão respeitado nos Estados Unidos, que mesmo
depois que os irmãos Orville e Wilbur Wright
foram considerados por um tribunal americano como os
pioneiros da aviação, era ele quem sempre
era convidado pela Casa Branca a opinar nas questões
relacionadas com a atividade aeronáutica. Ele
chegou a representar os Estados Unidos numa conferência
aeronáutica no Chile, em 1916. Em outra ocasião,
viajou aos Estados Unidos com passaporte diplomático
emitido pelo governo americano, para atender a um chamado
de Franklin Roosevelt, então secretário
da Marinha americana. Em 1969, seu nome foi dado a uma
cratera da Lua, iniciativa do astronauta Michael Collins,
que fez um dos voos da Missão Apollo. A homenagem
foi corroborada por cientistas americanos e apoiada
pela aviadora brasileira Anésia Pinheiro Machado,
a quem chamo de "a Chiquinha Gonzaga da aviação",
em nome dos brasileiros. Em 2006, durante as comemorações
do centenário de vôo do 14Bis, uma réplica
do Demoiselle, a aeronave esportiva de Santos-Dumont,
fez um vôo conjunto com o Flyer, a aeronave dos
irmãos Wright. Portanto, eu acredito que, independentemente
da primazia do voo mecânico, os americanos sempre
respeitaram e homenagearam Santos-Dumont. A reverência
a ele é mais latente na Europa, na América
Latina, com singular destaque no Brasil. É aquele
velho ditado: "quem foi rei, nunca perde a majestade".
Cultura
- Como o senhor descreveria os últimos dias de
Santos-Dumont?
Drumond
-
Essa é uma fase melancólica na vida de
Santos-Dumont, sobretudo os seus últimos dois
anos de vida. Santos-Dumont viveu um período
glamoroso da história francesa, conviveu com
inventores famosos, como Thomas Edison, e foi aclamado
no mundo inteiro. Já perto da terceira idade,
a depressão emocional passou a degradar cada
vez mais sua vida social, levando-o a internar-se em
sanatórios e clínicas de repouso. Diabético
(outra informação pouco conhecida dos
brasileiros), submeteu-se a uma dieta medonha, logo
ele, um bon-vivant que apreciava a cozinha francesa.
Passou então a viver voluntariamente em clausura.
Com a degradação de sua saúde,
por duas vezes tentou o suicídio. Em 1932, sua
mente estava profundamente conturbada. No seu derradeiro
momento de vida, viu de perto a sucessão de mortes
causada pela Revolução Constitucionalista,
deflagrada com a participação da aviação.
Na terceira tentativa de suicídio, ele se foi.
Sua mãe também sofria de depressão
emocional e suicidou-se na cidade do Porto, em Portugal,
em 1902. Creio que essa foi a fase triste do herói
que foi íntimo da felicidade. Pena que não
tenha assistido o quanto o avião tornou-se importante,
sobretudo no processo de integração do
Brasil. Enquanto a população chorava sua
morte, o Correio Aéreo Nacional levava a solidariedade
e a assistência médica aos sofridos brasileiros
das mais distantes e isoladas regiões do país,
concretizando assim o grande sonho de Alberto Santos-Dumont.
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