Defesa@Net
Após quase 24 anos integrando a direção
de Tecnologia & Defesa, o jornalista
Cosme Degenar Drumond parte para novos desafios
profissionais. A partir de 2 de Fevereiro,
assumirá a Diretoria Editorial da
Editora Cultura .
No dia 19 de Março
lançará na mesma Livraria
o seu novo Livro “Alberto Santos Dumont:
Novas Revelações”. Livro
que é resultado de vários
anos de pesquisas no: Brasil, França,
Chile, Inglaterra e Argentina.
Seu contato a partir
do dia 02 de Fevereiro será a Editora
de Cultura, onde estará a disposição
de todos no telefone (11) 2894-5100, ou
no celular (11) 9993-9045.
O jornalista Cosme
Degenar também foi um assíduo
colaborador do Defesa@Net.
Nota: Republicamos
o texto abaixo trabalho da paixão
de Degenar pela vida Alberto Santos-Dumont.
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O soberano
dos ares
A odisséia do inventor brasileiro,
cujo maior prazer era voar
Cosme
Degenar Drumond
A TARDE ERA FRIENTA, naquele
inverno de 1884. Guardado por uma brisa que soprava
nos campos da fazenda, o tímido mormaço
atraíra as crianças para as brincadeiras
ao redor do solar. Dentro da mansão, porém,
solitário no seu quarto, o menino franzino,
que mal acabara de completar onze anos de idade,
aquecia a curiosidade na narrativa que o capitão
Nemo fazia para o professor Aronnax sobre o submarino
Nautilus, personagens fictícios da saga
criada pelo escritor francês Júlio
Verne (1828-1905).
Nada tirava sua atenção
da leitura, ainda que, de vez em quando, ao ouvir
a algazarra em volta da casa, sentisse vontade
de participar das brincadeiras. Mas aguçava
a inteligência nas explicações
do velho lobo do mar de Verne. Lia e relia cada
capítulo de "20 mil léguas
submarinas", atinando a curiosidade no sistema
de navegação da belonave.
Se os lendários romances
lhe deixassem dúvida, o que quase sempre
acontecia, ele aguardava ansioso a chegada da
noite, quando seu pai retornava da lida no cafezal.
Era só ouvir o ruído da charrete
encostando-se no alpendre que, aí sim,
abandonava o quarto, descia apressado a larga
escada de madeira, cruzava a sala e corria de
encontro ao velho engenheiro, atirando no ex-construtor
de ferrovias diversas perguntas sobre os aparelhos
do Nautilus. Sorridente, o patriarca o atendia:
"Nem todos são reais, Alberto!
São frutos da imaginação
do novelista".
Depois de cumprimentar a esposa,
o pai acomodava-se na confortável cadeira
de madeira nobre, no grande salão, e abraçado
às filhas mais novas falava dos traços
básicos da mecânica. O garoto o ouvia
atentamente. Ao final, voltava a saborear sua
leitura.
Impulsionado pela perspicácia,
bisbilhotava a ciência e dava asas à
imaginação. Na fazenda onde morava,
nos arredores de Ribeirão Preto (SP), as
lendas do famoso contista francês pareciam
transportá-lo para semelhantes sagas. Assediava-lhe
o pressentimento de que, no futuro, se envolveria
com os desafios da tecnologia, que, naquele momento,
desenhava um mundo mais moderno. As coincidências
em sua vida se mostravam, aliás, eloqüentes
sinais de que realmente ele viveria aventuras
quase tão fictícias como as que
desnudavam sua curiosidade.
Em 1873, ano em que nascera numa
rústica casa do sertão de Minas,
Julio Verne lançava "A volta ao mundo
em 80 dias", mais uma epopéia irreal,
protagonizada por personagens igualmente fantasiosos,
a bordo de um balão. Naquele mesmo ano,
outra coincidência o acompanharia: D. Pedro
II, o Imperador brasileiro, concedia carta de
privilégio ao criador de um tipo de balão,
batizado Brasil.
Introvertido e um tanto arredio,
o sinhozinho exibia nítido entusiasmo não
apenas pela eletricidade, mas, sobretudo, pela
mecânica, influência do pai. Muitas
vezes, no meio da tarde, ouviu o chiado efervescente
da Baldwin, atracando os vagões carregados
de café no terminal da usina de beneficiamento
da fazenda. Rapidamente, ele deixava Verne de
lado e ia para a usina observar o processo de
beneficiamento do café.
Com o brilho nos olhos, via o
café ser despejado nos imensos tanques
de água e carreado para a calha inclinada
e toda furada por baixo. Notava que os detritos
colados aos grãos, depois de agitados pela
água turbulenta, flutuavam, ao passo que
o café caía nos furos da calha a
caminho do despolpador, onde as polpas, esmagadas,
produziam o isolamento das sementes. Estas, depois
de submetidas ao secador, no ar quente, seguiam
mecanicamente para o trabalho final.
O pequeno bisbilhoteiro se movimentava
para acompanhar, etapa por etapa, a rotina da
usina. No enorme ventilador com peneiras, as sementes
de café vazavam por entre as malhas, caindo
no separador. Selecionadas por tamanho, nenhuma
impureza restava. Finalmente, depois de pesadas
nas balanças, costuradas e marcadas, as
sacas de café eram embarcadas nos vagões,
prontas para o próximo ritual, no porto
de Santos - a exportação. Às
vezes, ele mesmo pilotava a locomotiva inglesa
nos limites da fazenda, por obséquio do
condutor, a seu pedido. As máquinas e a
força motriz eram seus brinquedos favoritos.
Costumava praticar a criatividade,
fazendo pequenos pássaros de bambu, dotando-os
com sistema de propulsão acionado por tira
de borracha enrolada, um tipo de elástico.
Assim brincava, lançando no ar os artifícios
que deixavam as outras crianças admiradas
com o seu talento, como inclusive o engenheiro.
Noutras vezes, durante as festas juninas, construía
balões de papel de seda. Quando a fogueira
era acesa, enquanto a criançada aguardava
para assar batatas nas cinzas, ele exercitava
o princípio que o padre santista Bartolomeu
Lourenço de Gusmão demonstrara,
quase dois séculos antes, em Lisboa, perante
a Corte portuguesa. Os balões subiam até
certa altura, levados pela massa de ar aquecida
pelas chamas.
Não eram apenas as fantásticas
viagens de Júlio Verne que o inebriavam.
Hector Servadoc lhe suscitava idênticos
devaneios. Acompanhava também o desenvolvimento
da aerostação na Europa, lendo as
publicações que chegavam de Paris.
Na adolescência, seu interesse
pela navegação aérea descortinou-se
de vez, ao visitar com o pai, em 1888, uma feira
tecnológica na capital paulista. Extasiou-se
tanto diante do aeróstato, que voava cativo
como atrativo da mostra, que o velho engenheiro
não teve dúvidas de que ali estava
um predestinado que manteria fortes ligações
com a mecânica, sobretudo quando foi questionado
pelo venturoso a cerca de forças combinadas
e movimento de corpos celestes.
Às vezes, o afortunado
menino permanecia horas e horas na varanda do
solar, a contemplar o céu, admirando a
facilidade com que as aves planavam. Apaixonado
pelo espaço livre, com pouco menos de dezoito
anos visitou, novamente junto com o pai, outra
exposição tecnológica, desta
vez em Paris.
Maravilhou-se diante de um motor
a combustão interna e não hesitou
em mover sua curiosidade na direção
de seu protetor, que lhe respondeu, laconicamente:
Por hoje basta! À noite, no jantar, receberia
as respostas.
O predestinado decidiu estudar na Europa. No ano
seguinte, passou a morar em Paris, já emancipado
pelo pai, agora um homem entrevado em razão
do acidente de charrete que sofrera na fazenda.
O velho engenheiro, que tanto o estimulara, não
viveria o suficiente para ver o filho abraçar
de vez a mecânica e se tornar famoso, voando
balões e dirigíveis sobre a capital
francesa, engenhos que ele próprio projetava
e construía.
Perseguiu a dirigibilidade aérea
e a alcançou. Em seguida, suas idéias
inovadoras o levaram a abrir um novo panorama
para a humanidade. Investindo parte da fortuna
que o pai lhe destinara, consolidou a intimidade
com a mecânica em outubro de 1906, ao fazer
voar o avião. Imortalizou-se como o primeiro
homem a voar uma máquina mais pesada que
o ar, conquista que estabeleceu o princípio
ainda hoje praticado na aviação:
a aeronave corre numa pista, decola e pousa por
meios próprios.
O excêntrico inventor, nascido no mesmo
dia em que seu pai aniversariava, resgatara enfim
o ideal de outros destemidos pioneiros que o antecederam
nesse desafio. E virou celebridade mundial.
Embora vivesse rodeado de mulheres
(chegou a receber proposta de casamento), manteve-se
solteiro a vida toda, tal qual os irmãos
Orville e Wilbur Wright, os maiores contestadores
de sua invenção. Quando moço,
não teve tempo para se envolver com romances,
pois se dedicava de corpo e alma a sua maior paixão
- voar. Anos depois, quando abandonou a vocação
aeronáutica, passou a cortejar as mulheres.
Porém, o tempo e a doença conspiraram
contra ele.
Jamais almejou ambições
materiais, nunca patenteou seus inventos e destinava
as premiações que recebia em dinheiro
para os mais necessitados. Sentia prazer em voar
o Demoiselle, a graciosa aeronave que ele próprio
criou e com a qual visitava os amigos nos palacetes
localizados nos arredores de Paris.
Na idade madura, passou a sofrer
de esclerose múltipla e depressões
emocionais, doenças que lhe vinham debilitando
a mente havia alguns anos. A um passo da terceira
idade, numa manhã do inverno de 1932, em
Santos, litoral paulista, sofreu sua derradeira
crise de depressão, falecendo na terra
do padre voador, outra coincidência de sua
rica biografia.
No exato momento em que deu cabo
da própria vida (suicidou-se, enforcando-se
no banheiro do hotel onde se hospedara para cuidar
da saúde), o avião era usado em
duelo aéreo e ataque terrestre em sua terra
natal, um conflito que sacudiu o País,
em especial o estado de São Paulo, onde
ele passara os melhores momentos de sua infância.
Era mês de julho.
Fechava-se assim o ciclo de suas
coincidências e históricas conquistas.
Comentários sobre sua vida pessoal correram
o mundo, sobretudo depois de sua morte. Diziam
que suas repetidas crises de depressão
eram devidas ao emprego do avião como arma
militar. Porém, ele mesmo previra essa
aplicação, primeiramente em julho
de 1903, ao colocar à disposição
do Ministério da Defesa francês sua
"flotilha aérea", em caso de
conflito armado "entre a França e
um país qualquer que não fosse das
duas Américas". Mais tarde, voltaria
a projetar o avião como ferramenta de guerra,
ressaltando, contudo, que sua criação
deveria ser usada apenas como instrumento capaz
de unir a humanidade, o mesmo pensamento dos grandes
inventores.
Falavam ainda, até com
intenção pejorativa, sobre as suas
excentricidades. Na verdade, eram intrigas para
tentar desacreditá-lo, o mesmo subterfúgio
dirigido ao padre Bartolomeu de Gusmão,
acusado de ter mantido relações
sexuais com uma freira, dentro do convento. Pouco
antes de sua consagração com o 14-Bis,
enamorou-se de uma bela jovem da colônia
americana radicada em Paris, Edna Powers, que
caiu de amores por ele "ouvindo suas odisséias
emocionantes pelos ares". Quanto a ele, retribuiu
o amor "porque ela foi brilhante, encantadora
e solidária na sua solidão, tão
longe de sua casa brasileira".
Diziam ainda que era azarado.
Todavia, como alguém que sofre tantos acidentes
aéreos, alguns graves, e de todos sai ileso,
às vezes com apenas ferimentos leves, pode
ser considerado um azarado, principalmente numa
época em que as máquinas voadoras
eram absolutamente frágeis e não
havia segurança para o vôo? De qualquer
modo, aviadores brasileiros costumam bater três
vezes na madeira se ouvem alguém mencionar
seu nome; dizem que é para homenagear o
herói brasileiro.
Assim foi Alberto Santos-Dumont,
o soberano dos ares, um mineiro do interior que
se transformou em lenda, até mesmo para
os que ainda não o aceitam como o verdadeiro
criador do avião.