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DEFESA@NET 26 Janeiro 2009
01 Março 2009
Atualizado data lançamento livro

Defesa@Net

Após quase 24 anos integrando a direção de Tecnologia & Defesa, o jornalista Cosme Degenar Drumond parte para novos desafios profissionais. A partir de 2 de Fevereiro, assumirá a Diretoria Editorial da Editora Cultura .

No dia 19 de Março lançará na mesma Livraria o seu novo Livro “Alberto Santos Dumont: Novas Revelações”. Livro que é resultado de vários anos de pesquisas no: Brasil, França, Chile, Inglaterra e Argentina.

Seu contato a partir do dia 02 de Fevereiro será a Editora de Cultura, onde estará a disposição de todos no telefone (11) 2894-5100, ou no celular (11) 9993-9045.

O jornalista Cosme Degenar também foi um assíduo colaborador do Defesa@Net.

Nota: Republicamos o texto abaixo trabalho da paixão de Degenar pela vida Alberto Santos-Dumont.

O soberano dos ares
A odisséia do inventor brasileiro, cujo maior prazer era voar

Cosme Degenar Drumond

A TARDE ERA FRIENTA, naquele inverno de 1884. Guardado por uma brisa que soprava nos campos da fazenda, o tímido mormaço atraíra as crianças para as brincadeiras ao redor do solar. Dentro da mansão, porém, solitário no seu quarto, o menino franzino, que mal acabara de completar onze anos de idade, aquecia a curiosidade na narrativa que o capitão Nemo fazia para o professor Aronnax sobre o submarino Nautilus, personagens fictícios da saga criada pelo escritor francês Júlio Verne (1828-1905).

Nada tirava sua atenção da leitura, ainda que, de vez em quando, ao ouvir a algazarra em volta da casa, sentisse vontade de participar das brincadeiras. Mas aguçava a inteligência nas explicações do velho lobo do mar de Verne. Lia e relia cada capítulo de "20 mil léguas submarinas", atinando a curiosidade no sistema de navegação da belonave.

Se os lendários romances lhe deixassem dúvida, o que quase sempre acontecia, ele aguardava ansioso a chegada da noite, quando seu pai retornava da lida no cafezal. Era só ouvir o ruído da charrete encostando-se no alpendre que, aí sim, abandonava o quarto, descia apressado a larga escada de madeira, cruzava a sala e corria de encontro ao velho engenheiro, atirando no ex-construtor de ferrovias diversas perguntas sobre os aparelhos do Nautilus. Sorridente, o patriarca o atendia: "Nem todos são reais, Alberto!
São frutos da imaginação do novelista".

Depois de cumprimentar a esposa, o pai acomodava-se na confortável cadeira de madeira nobre, no grande salão, e abraçado às filhas mais novas falava dos traços básicos da mecânica. O garoto o ouvia atentamente. Ao final, voltava a saborear sua leitura.

Impulsionado pela perspicácia, bisbilhotava a ciência e dava asas à imaginação. Na fazenda onde morava, nos arredores de Ribeirão Preto (SP), as lendas do famoso contista francês pareciam transportá-lo para semelhantes sagas. Assediava-lhe o pressentimento de que, no futuro, se envolveria com os desafios da tecnologia, que, naquele momento, desenhava um mundo mais moderno. As coincidências em sua vida se mostravam, aliás, eloqüentes sinais de que realmente ele viveria aventuras quase tão fictícias como as que desnudavam sua curiosidade.

Em 1873, ano em que nascera numa rústica casa do sertão de Minas, Julio Verne lançava "A volta ao mundo em 80 dias", mais uma epopéia irreal, protagonizada por personagens igualmente fantasiosos, a bordo de um balão. Naquele mesmo ano, outra coincidência o acompanharia: D. Pedro II, o Imperador brasileiro, concedia carta de privilégio ao criador de um tipo de balão, batizado Brasil.

Introvertido e um tanto arredio, o sinhozinho exibia nítido entusiasmo não apenas pela eletricidade, mas, sobretudo, pela mecânica, influência do pai. Muitas vezes, no meio da tarde, ouviu o chiado efervescente da Baldwin, atracando os vagões carregados de café no terminal da usina de beneficiamento da fazenda. Rapidamente, ele deixava Verne de lado e ia para a usina observar o processo de beneficiamento do café.

Com o brilho nos olhos, via o café ser despejado nos imensos tanques de água e carreado para a calha inclinada e toda furada por baixo. Notava que os detritos colados aos grãos, depois de agitados pela água turbulenta, flutuavam, ao passo que o café caía nos furos da calha a caminho do despolpador, onde as polpas, esmagadas, produziam o isolamento das sementes. Estas, depois de submetidas ao secador, no ar quente, seguiam mecanicamente para o trabalho final.

O pequeno bisbilhoteiro se movimentava para acompanhar, etapa por etapa, a rotina da usina. No enorme ventilador com peneiras, as sementes de café vazavam por entre as malhas, caindo no separador. Selecionadas por tamanho, nenhuma impureza restava. Finalmente, depois de pesadas nas balanças, costuradas e marcadas, as sacas de café eram embarcadas nos vagões, prontas para o próximo ritual, no porto de Santos - a exportação. Às vezes, ele mesmo pilotava a locomotiva inglesa nos limites da fazenda, por obséquio do condutor, a seu pedido. As máquinas e a força motriz eram seus brinquedos favoritos.

Costumava praticar a criatividade, fazendo pequenos pássaros de bambu, dotando-os com sistema de propulsão acionado por tira de borracha enrolada, um tipo de elástico. Assim brincava, lançando no ar os artifícios que deixavam as outras crianças admiradas com o seu talento, como inclusive o engenheiro. Noutras vezes, durante as festas juninas, construía balões de papel de seda. Quando a fogueira era acesa, enquanto a criançada aguardava para assar batatas nas cinzas, ele exercitava o princípio que o padre santista Bartolomeu Lourenço de Gusmão demonstrara, quase dois séculos antes, em Lisboa, perante a Corte portuguesa. Os balões subiam até certa altura, levados pela massa de ar aquecida pelas chamas.

Não eram apenas as fantásticas viagens de Júlio Verne que o inebriavam. Hector Servadoc lhe suscitava idênticos devaneios. Acompanhava também o desenvolvimento da aerostação na Europa, lendo as publicações que chegavam de Paris.

Na adolescência, seu interesse pela navegação aérea descortinou-se de vez, ao visitar com o pai, em 1888, uma feira tecnológica na capital paulista. Extasiou-se tanto diante do aeróstato, que voava cativo como atrativo da mostra, que o velho engenheiro não teve dúvidas de que ali estava um predestinado que manteria fortes ligações com a mecânica, sobretudo quando foi questionado pelo venturoso a cerca de forças combinadas e movimento de corpos celestes.

Às vezes, o afortunado menino permanecia horas e horas na varanda do solar, a contemplar o céu, admirando a facilidade com que as aves planavam. Apaixonado pelo espaço livre, com pouco menos de dezoito anos visitou, novamente junto com o pai, outra exposição tecnológica, desta vez em Paris.

Maravilhou-se diante de um motor a combustão interna e não hesitou em mover sua curiosidade na direção de seu protetor, que lhe respondeu, laconicamente: Por hoje basta! À noite, no jantar, receberia as respostas.

O predestinado decidiu estudar na Europa. No ano seguinte, passou a morar em Paris, já emancipado pelo pai, agora um homem entrevado em razão do acidente de charrete que sofrera na fazenda. O velho engenheiro, que tanto o estimulara, não viveria o suficiente para ver o filho abraçar de vez a mecânica e se tornar famoso, voando balões e dirigíveis sobre a capital francesa, engenhos que ele próprio projetava e construía.

Perseguiu a dirigibilidade aérea e a alcançou. Em seguida, suas idéias inovadoras o levaram a abrir um novo panorama para a humanidade. Investindo parte da fortuna que o pai lhe destinara, consolidou a intimidade com a mecânica em outubro de 1906, ao fazer voar o avião. Imortalizou-se como o primeiro homem a voar uma máquina mais pesada que o ar, conquista que estabeleceu o princípio ainda hoje praticado na aviação: a aeronave corre numa pista, decola e pousa por meios próprios.

O excêntrico inventor, nascido no mesmo dia em que seu pai aniversariava, resgatara enfim o ideal de outros destemidos pioneiros que o antecederam nesse desafio. E virou celebridade mundial.

Embora vivesse rodeado de mulheres (chegou a receber proposta de casamento), manteve-se solteiro a vida toda, tal qual os irmãos Orville e Wilbur Wright, os maiores contestadores de sua invenção. Quando moço, não teve tempo para se envolver com romances, pois se dedicava de corpo e alma a sua maior paixão - voar. Anos depois, quando abandonou a vocação aeronáutica, passou a cortejar as mulheres. Porém, o tempo e a doença conspiraram contra ele.

Jamais almejou ambições materiais, nunca patenteou seus inventos e destinava as premiações que recebia em dinheiro para os mais necessitados. Sentia prazer em voar o Demoiselle, a graciosa aeronave que ele próprio criou e com a qual visitava os amigos nos palacetes localizados nos arredores de Paris.

Na idade madura, passou a sofrer de esclerose múltipla e depressões emocionais, doenças que lhe vinham debilitando a mente havia alguns anos. A um passo da terceira idade, numa manhã do inverno de 1932, em Santos, litoral paulista, sofreu sua derradeira crise de depressão, falecendo na terra do padre voador, outra coincidência de sua rica biografia.

No exato momento em que deu cabo da própria vida (suicidou-se, enforcando-se no banheiro do hotel onde se hospedara para cuidar da saúde), o avião era usado em duelo aéreo e ataque terrestre em sua terra natal, um conflito que sacudiu o País, em especial o estado de São Paulo, onde ele passara os melhores momentos de sua infância. Era mês de julho.

Fechava-se assim o ciclo de suas coincidências e históricas conquistas.

Comentários sobre sua vida pessoal correram o mundo, sobretudo depois de sua morte. Diziam que suas repetidas crises de depressão eram devidas ao emprego do avião como arma militar. Porém, ele mesmo previra essa aplicação, primeiramente em julho de 1903, ao colocar à disposição do Ministério da Defesa francês sua "flotilha aérea", em caso de conflito armado "entre a França e um país qualquer que não fosse das duas Américas". Mais tarde, voltaria a projetar o avião como ferramenta de guerra, ressaltando, contudo, que sua criação deveria ser usada apenas como instrumento capaz de unir a humanidade, o mesmo pensamento dos grandes inventores.

Falavam ainda, até com intenção pejorativa, sobre as suas excentricidades. Na verdade, eram intrigas para tentar desacreditá-lo, o mesmo subterfúgio dirigido ao padre Bartolomeu de Gusmão, acusado de ter mantido relações sexuais com uma freira, dentro do convento. Pouco antes de sua consagração com o 14-Bis, enamorou-se de uma bela jovem da colônia americana radicada em Paris, Edna Powers, que caiu de amores por ele "ouvindo suas odisséias emocionantes pelos ares". Quanto a ele, retribuiu o amor "porque ela foi brilhante, encantadora e solidária na sua solidão, tão longe de sua casa brasileira".

Diziam ainda que era azarado. Todavia, como alguém que sofre tantos acidentes aéreos, alguns graves, e de todos sai ileso, às vezes com apenas ferimentos leves, pode ser considerado um azarado, principalmente numa época em que as máquinas voadoras eram absolutamente frágeis e não havia segurança para o vôo? De qualquer modo, aviadores brasileiros costumam bater três vezes na madeira se ouvem alguém mencionar seu nome; dizem que é para homenagear o herói brasileiro.

Assim foi Alberto Santos-Dumont, o soberano dos ares, um mineiro do interior que se transformou em lenda, até mesmo para os que ainda não o aceitam como o verdadeiro criador do avião.

DEFESA@NET

 

   
   
   
 

 

 

 

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