07 de Agosto, 2018 - 10:00 ( Brasília )

Pensamento

Caixa de Pandora: não abra


Cel Swami de Holanda Fontes

Entre as diversas histórias sobre a origem da humanidade, há a versão da mitologia grega, que descreve a criação do homem por Zeus e pelos irmãos titãs Prometeu (o que pensa antes) e Epimeteu (o que pensa depois). Segundo a lenda, Zeus ordenou que Epimeteu criasse os animais e que Prometeu criasse o homem. Zeus determinou, ainda, que Prometeu não entregasse o fogo aos homens.

Enquanto Epimeteu era inconsequente, deixando os problemas ocorrerem para depois solucioná-los, Prometeu, ao contrário, avaliava a situação antes de tomar a decisão, antecipava-se aos fatos e era proativo. Contudo, com o objetivo de garantir a segurança do homem, Prometeu arriscou-se e lhe entregou o fogo.

Para se vingar de Prometeu, Zeus o condenou a ficar, eternamente, amarrado ao cume de um penhasco, onde um abutre comia seu fígado durante o dia. À noite, o órgão se regenerava, numa rotina sem fim. Zeus também decidiu punir os homens, criando Pandora para ser esposa de Epimeteu. Ela possuía alguns dons: inteligência, beleza e bondade; mas um grave defeito: curiosidade. Com Pandora, seguiu-se um presente de casamento – uma caixa contendo todos os males do mundo e a recomendação de que nunca fosse aberta.

Prometeu alertou Epimeteu para não se casar com Pandora e não abrir a caixa. Mas sua curiosidade fez com que a abrisse, espalhando todos os males pela humanidade. Ao perceber o que Epitemeu havia feito, Pandora fechou a caixa, deixando, no fundo, a esperança. Essa passagem resultou no famoso ditado “a esperança é a última que morre”.

A narração sobre a criação do homem pode ter várias versões, como a do trecho bíblico de Adão e Eva, e ser interpretada de diversas maneiras. Mas, para fins de reflexão, interessa destacar as ações de antecipação, prevenção, correção e reparação. É nessa concepção que devem ser trabalhados a inteligência, o assessoramento jurídico, o planejamento, o experimento, o preparo, o treinamento, a decisão, entre outros assuntos.

Uma boa série de informações para a montagem de conjunturas e cenários possibilita que o assessoramento seja o mais adequado possível e que a decisão esteja mais próxima da correta, ou que seja a mais acertada. Assim, por meio do apoio de pessoas especializadas, pode-se formar um grupo de assessoramento com a finalidade de subsidiar quem tem o poder de decidir.

Nas Forças Armadas, um desses grupos é o Estado-Maior, cuja origem de sua organização remonta à época das guerras da Revolução Francesa, em 1795. Ele está organizado em células, que são responsáveis por uma área específica: pessoal, inteligência, operações, logística, entre outros assuntos de interesse. Baseado nas informações e nas propostas dos assessores e especialistas, o chefe ou comandante toma a melhor decisão.

A célula de inteligência é muito importante na tomada de decisão. De acordo com o manual do Ministério da Defesa “Doutrina de Operações Conjuntas”, 1º volume, a Inteligência tem como finalidade “assessorar o processo decisório de autoridades políticas e militares, além de apoiar o planejamento e a condução de operações militares nas situações de paz, crise ou conflito. Seu objetivo é a difusão de conhecimentos oportunos, adequados, precisos e confiáveis, em conformidade com os interesses políticos, estratégicos, operacionais e táticos”.

Segundo esse manual, para ser eficaz, “a Inteligência deve ser apoiada por uma ampla gama de informações, englobando os fatores políticos, econômicos, científico-tecnológicos, psicossociais, e as questões militares. A integração de todas as fontes de informação e inteligência no processo de produção de conhecimentos possibilita a eficácia do sistema”.

Para que se possa entender o que está ocorrendo, quais atores envolvidos e as relações entre eles, não é necessário ser um deus ou titã. O mais importante é ter, em primeiro lugar, a visão do todo, como se estivesse em um observatório no Monte Olimpo, para, em seguida, discutir os detalhes.

Avaliar a conjuntura, como fez Prometeu ao analisar os riscos que sua criação correria sem a posse do fogo, é uma atividade permanente. Ela tem por finalidade identificar as ameaças e oportunidades que implicam o emprego da proteção, gerando hipóteses de defesa (ou de emprego). Essa avaliação é um processo cartesiano de conhecimento dos fatos passados e presentes; de sua provável evolução nacional e internacional; e de identificação de possíveis oportunidades, ameaças, vulnerabilidades e áreas geográficas de interesse.

Analisando-se o passado e o presente, é possível que não se consiga prever o futuro, mas que se permita levantar possibilidades de futuros plausíveis, conhecidos como cenários prospectivos. Conhecendo Zeus, Prometeu visualizou que Pandora poderia ser um indício de mau acontecimento, apesar de sua beleza. A deusa era uma possibilidade plausível de ameaça. Contudo, mesmo alertado por seu irmão, Epimeteu decidiu correr o risco, não considerando os laços sanguíneos e não percebendo que Prometeu estava se arriscando para protegê-lo.

Assim como Prometeu, que se arriscou para proteger seu irmão e os homens, o trabalho do assessor também envolve risco e tem um alto preço. As orientações transmitidas podem não agradar, uma vez que o decisor pode interpretar certos assessoramentos como mais pessimistas do que realistas.

Enfim, no mundo real, existem inúmeras tentações, dissimuladas pelas “belezas sedutoras e facilidades”, que não dão margem para que os danos se regenerem. Assim, fica a reflexão: o assessoramento não deve ser oferecido com o intuito de agradar, mas para atender à demanda de forma realista. No caso de uma decisão mal tomada, ao final, só restará a esperança. Prometeu cumpriu seu papel, foi reconhecido e libertado do sofrimento por Hércules. Então, a exemplo da mitologia, podemos ter esperança, mas, pode-se contar com a sorte?


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