26 de Abril, 2015 - 21:41 ( Brasília )

Pensamento

Direita (?) reaparece e ganha adesão na trincheira contra o governo

Para especialistas, vergonha de assumir posição política diminuiu


MARCELO REMIGIO

 
A direita reapareceu no país. Tendência observada nas eleições do ano passado, a defesa de ideais de direita e centro-direita ganhou força nas manifestações antigoverno promovidas desde março. No Congresso, temas como a redução da maioridade penal seguem em discussão.

Para especialistas, reconhecer que concorda com parte dessas ideias ou admitir em público “ser de direita” já não assustam muito. Segundo eles, a esperança de mudança depositada nos governos petistas foi grande, mas terminou abalada com denúncias de corrupção, contribuindo para o fortalecimento dos movimentos direitistas.

Bandeiras como redução da maioridade penal, revisão da carga tributária e a adoção de leis mais rígidas para crimes hediondos — que possam instituir a pena de morte ou perpétua — ultrapassaram a fronteira ideológica da direita e hoje são defendidas por eleitores que consideravam-se de centro ou centro-esquerda. Surgiram ainda grupos minoritários que reivindicam o retorno da ditadura militar.

Além do crescimento dos movimentos de direita no exterior, especialistas apontam a atual fragilidade política do PT, denúncias de corrupção — do mensalão à Operação Lava-Jato — e a condução da economia como razões para a direita despontar.
 
— Existem duas vertentes para a recuperação da direita. Por um lado, o ambiente mundial favorável e crescente à direita e ao centro-direita em vários países, que atinge principalmente os mais pobres. No caso da Europa, envolve a questão dos imigrantes. Por outro, temos no Brasil um governo mal avaliado — explica a pesquisadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da FGV Marly Motta:

— Mal avaliado politicamente, economicamente e moralmente, o que é muito grave para um governo de esquerda, onde os eleitores depositaram todas as esperanças de mudanças.

Marly ressalta que, mesmo se reafirmando nas manifestações, não há a garantia de que o ressurgimento da direita ganhará corpo suficiente para se manter forte até as eleições de 2018.

Segundo o professor e pesquisador da UFF Daniel Aarão Reis, grupos da nova direita têm se mostrado mais moderados:

— Havia muita dificuldade em se assumir como de direita. Ser chamado assim era encarado como um insulto. Existe hoje uma tendência à direita e ao centro. São “as direitas”: extrema-direita e grupos de direita mais moderados. Eles querem superar o lado pejorativo vinculado à direita.

Liderança de direita, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) diz que seu grupo “abraçou os pedidos de mudança feitos pela sociedade”. E que a direita está representada em nomes distribuídos por várias legendas:

— O último partido de direita foi o PDS. O meu, o PP (envolvido em denúncias de corrupção apuradas pela Operação LavaJato), acabou.

Pesquisa do Datafolha divulgada em setembro do ano passado, durante o período eleitoral, já mostrava tendência de crescimento da ideologia de direita. De cada cem brasileiros, sete possuíam tendências de esquerda; 28, de centro-esquerda; 20, de centro; 32, de centro-direita e 13, de direita. Os números foram colhidos a partir de um questionário que mediu a inclinação ideológica. O Datafolha usou como referência os métodos do Pew Research Center em estudos sobre o voto americano.
 
O GLOBO criou um questionário para identificar a tendência ideológica (ao lado), que pode ser respondido. As perguntas foram baseadas em levantamentos de institutos de pesquisa e entrevistas com cientistas políticos. Por ser uma enquete, não há uma amostragem científica.
 
RESISTÊNCIA ÀS AÇÕES SOCIAIS
 
De acordo com o cientista político e pesquisador da UFRJ Paulo Baía, a nova direita brasileira pode ser identificada por duas bandeiras e uma negação:
 
— Grupos de direita e extrema-direita, muitas vezes, não têm a percepção da desigualdade social. Eles defendem a redução da carga tributária e, em alguns casos, o fim de programas de proteção social. Para muitos, seriam privilégios.
 
Para Paulo Baía, no Brasil não existe atualmente um partido com representação nacional exclusivamente de direita, o mesmo não ocorrendo com legendas menores que buscam registro, entre elas uma sigla que reúne apenas militares:
 
— O PP e o DEM, por exemplo, apontados como de direita, reúnem os mais diversos políticos, que nem sempre compactuam com as mesmas ideologias.
 
— No DEM, um partido de direita, nem todos pensam igual. Existem alas mais moderadas. Não podemos generalizar e chamar todos do partido de direita raivosa — acrescenta Reis


 

                                          

Teste: identifique seu perfil ideológico

Marque a frase que melhor expressa sua opinião sobre cada tópico. Enquete baseada em questionários de institutos de pesquisa e entrevistas com cientistas políticos; não trabalha com amostragem científica

01 - VIOLÊNCIA E DEFESA DO CIDADÃO
- O cidadão deve ter o direito ao porte de arma para garantir sua segurança e a de sua família.
- O direito ao porte e o acesso facilitado às armas somente aumentam a violência.
02 - COMBATE À POBREZA
- Programas sociais de combate à pobreza e geração de renda são privilégios e não benefícios, que estimulam à ociosidade.
- Programas sociais de combate à pobreza e geração de renda diminuem a desigualdade social e proporcionam inclusão social.
03 - COTAS NAS UNIVERSIDADES
- O programa de cotas corrige um erro histórico no acesso às universidades públicas e proporciona a possibilidade do ingresso de minorias ao ensino superior.
- O ingresso nas universidades públicas deve obedecer à meritocracia; o estudante precisa garantir sua vaga por merecimento e não por cotas.
04 - DIREITOS TRABALHISTAS
- Todos os direitos trabalhistas conquistados no país sempre devem ser preservados.
- Para garantir o emprego, se necessário, o trabalhador deve ceder à nova realidade econômica e abrir mão de parte dos direitos trabalhistas em prol da saúde econômica.
05 - TRIBUTOS
- Impostos devem ser mantidos para alimentar a máquina pública e financiar programas inclusão social, educação pública de qualidade e o sistema público de saúde.
- A carga tributária brasileira precisa ser revista e reduzida. O empresariado não pode ser taxado em excesso para gerar recursos que financiam a máquina administrativa e programas de inclusão.
06 - PENA DE MORTE
- A pena de morte não reduz a violência; programas de ressocialização são mais eficientes.
- O cidadão pensa duas vezes antes de cometer crimes hediondos em sociedades que adotam a pena de morte.
07 - MIGRAÇÃO
- Movimentos migratórios dentro do país contribuem para o desenvolvimento dos estados e aumentam a oferta de mão de obra.
- Movimentos migratórios dentro do país prejudicam regiões mais ricas, e aumentam a pobreza e a violência.
08 - MOVIMENTO SINDICAL
- Os sindicatos são instituições legais que defendem os direitos dos trabalhadores.
- Os sindicatos são instituições legais que deixaram de defender os direitos dos trabalhadores e passaram a servir como instrumento político de partidos.
09 - REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL
- Jovens que comentem crimes precisam ser punidos como adultos; a atual legislação estimula a impunidade.
- Jovens que comentem crimes devem ser ressocializados; tirar do convívio social apenas não significa que o jovem será recuperado.
10 - HOMOSSEXUALISMO
- Leis que garantam direitos civis aos homossexuais não devem ser aprovadas.
- Todos cidadãos são iguais e devem ter direitos civis garantidos.


Notas DefesaNet

1 - Recomendamos a leitura do artigo de VEJA publicado em 2011:

Veja - O incrível caso do país sem direita 2011 Link

2 - O artigo de O Globo é parte integrante de uma sutil e articulado ataque dos porões do Palácio do Planalto aos movimentos de rua contrários ao governo. Classificando-os de direitistas e colocando-os em estereótipos, muitos risíveis, mas com o claro objetivo de diminuir o movimento e seus participantes.