15 de Outubro, 2005 - 12:00 ( Brasília )

Pensamento

A Guerra de Fonte Aberta



A Guerra de Fonte Aberta
(Open Source War)

JOHN ROBB


Em setembro, o Departamento da Defesa emitiu uma solicitação para que uma companhia construa um "sistema de avaliação para medir, como os Estados Unidos progridem na guerra ao terrorismo" e fazer sugestões em como melhorar o esforço. Como um executivo do software e um ex-operador da Força Aérea em ações de contra-terrorismo, eu comecei a pensar: como eu construiria este sistema, e o que eu recomendaria?

Minha primeira tarefa seria medir nosso progresso no Iraque. É agora, para bem ou mal, o epicentro da guerra ao terrorismo. Pela maioria dos indicadores, a guerra está indo mal.

Os ataques dos insurgentes têm aumentado firmemente desde a invasão, e os seus métodos estão cada vez mais sofisticados. As baixas americanas permanecem elevadas, apesar de uma força cada vez mais experiente e das melhorias em sistemas de proteção indivudual e veículos blindados. Os insurgentes também expandiram de forma radical sua campanha da violência, para incluir tropas iraquianas, oficiais de polícias, oficiais do governo e civis iraquianos Shiitas. Desde que o objetivo das forças armadas americanas é ganhar o monopólio na violência no Iraque, estes desenvolvimentos indicam, podemos dizer por similaridade às empresas civis, perdeu uma rápida a parte desse mercado.

Apesar desses percalços, as Forças Armadas e a Administração Bush continuam a reivindicar progressos, embora esses progressos parecem estar sendo medidos no familiar sistema "contagem de corpos" (Body Count). De acordo com as Forças Armadas, elas matam ou capturam de 1.000 a 3.000 insurgente a cada mês. As suas estimativas da forças dos insurgentes é de uns meros 12.000 a 20.000 homens. Algo está visivelmente. A matemática simples indica, que nós já destruímos a força dos insurgentes várias vezes desde que a guerra começou.

Talvez a revolta no Iraque seja muito maior do que o Departamento da Defesa informe. Outros observadores estimam que até 20 por cento dos dois milhões de seguidores do Partido Baath podem estar envolvidos na revolta. Esta estimativa explicaria em parte a habilidade dos insurgentes de suportar perdas elevadas ao aumentar sua cota no mercado da violência.

A outra explicação provável é uma, que as próprias Forças Armadas fazem: que a revolta não é uma organização hierárquica frágil, mas sim uma rede resiliente formada por grupos pequenos e autônomos. Isto significa que a revolta é virtualmente imune às baixas e à decapitação ( Nota Defesa@Net termo usado para definir a destruição do núcleo dirigente). Organizam e reorganizam-se para dar forma a uma rede viável , apesar das elevadas taxas de perdas. A "contagens de corpos" - e as Forças Armadas já devem saber - não são um indicativo de sucesso.

Dado esse cenário, olhemos estratégias alternativas.

Primeiramente, se não formos inovadores, seremos levados ao fracasso. A revolta usa um sistema de comunidade de fonte aberta "open source" (similar ao processo descentralizado de desenvolvimento que é usado atualmente na indústria do software), na guerra que é extremamente rápida e inovadora. As novas tecnologias e as táticas movem-se rapidamente de um ponto a outro dos insurgentes, ajudados por comunicações relativamente avançadas do Iraque e pela rede de transportes - demonstradas pelo rápido aumento da sofisticação das bombas caseiras dos insurgentes'. Isto implica que os ciclos da inovação da revolta, são mais rápidos do que os processos burocráticos, mais lentos, das Forças Armadas americanas (por exemplo: sua inabilidade de entregar em quantidades suficientes de proteção individual e veículos blindados para nossas tropas no Iraque).

Segundo, há poucas linhas visíveis de pontos falhos na revolta, que possam ser explorados. Como os colaboradores de software na comunidade "open source", os insurgentes subordinaram seus objetivos individuais ao objetivo comum do movimento. Isto foi passado pelos militantes dos grupos insurgentes. Em conseqüência, as Forças Armadas, não estão encontrando uma maneira de isolar uma parte da revolta por meios políticos - particularmente se os ex-membros do Partido Baath forem excluídos sistematicamente da participação do estado Iraquiano pela nova Constituição.

Em terceiro lugar, os Estados Unidos podem tentar diminuir a revolta deixando-a ganhar. Os diferentes grupos, em um esforço da "open source", são mantidos juntos por um objetivo comum. Uma vez que o objetivo é alcançado, a comunidade freqüentemente dispersa-se. No Iraque, o objetivo original para a revolta era a retirada das forças de ocupação. Se as tropas estrangeiras sairem rapidamente, a revolta pode esmorecer. Esta é a mesma solução que foi apresentada ao Congresso, no mês passado, pelos generais atuando no Iraque, George Casey e John Abizaid.

Infelizmente, esta solução chegou demasiado tarde. Já há sinais de que o objetivo da revolta está deslocando-se, de uma retirada dos militares dos Estados Unidos, para o colapso do governo iraquiano. Assim, se as tropas americanas saírem agora, a violência continuará certamente a aumentar.

Que resta? É possível, porque a Microsoft descobriu, que não há nenhuma solução monopolista que resista a um esforço de "open source". Nesse caso, os Estados Unidos poderiam adotar a forma da IBM, em tratar a "open source". Esta solução requereria renunciar o monopólio do uso da violência, usando os Shiitas e as milícias Curdas como uma fonte de contra-terrorismo. É similar à estratégia usada para as revoltas em El Salvador, nos anos 80, e na Colômbia no anos 90. Naqueles casos, estas milícias usaram o conhecimento local, táticas sem restrição e elevados níveis de motivação para derrotar os insurgentes locais (contraste com a ineficiência do pagamento das Forças Armadas Iraquianas). Esta opção também funcionará no Iraque.

De fato, parece que as Forças Armadas Americanas já estão adotando essa estratégia. Em recentes ações em áreas Sunitas, precariamente uniformizados membros das milícias Peshmerga e de Badr complementaram tropas americanas; e em Basra, as milícias Shiitas são o poder das Forças Armadas de facto.

Se uma estratégia contra-terrorista "open-source" for a única opção, ela pode criar uma depressão. As milícias criarão, provavelmente, uma situação de "caos controlado", que permitirá que a administração americana reivindique a vitória, e retire as tropas do país, entretanto, exigirão um custo pesado ao Iraque, e pode perdurar por décadas. Ficará distante assim o objetivo de espalhar a democracia no Oriente Médio. Os partidários de adaptar as Forças Armadas americanas para a construção de um Estado, ao estilo top-down (de cima para baixo), devem reconhecer, que os ventos atuais, como um teste fatal do conceito.