23 de Março, 2014 - 23:43 ( Brasília )

Pensamento

Hidrelétricas sem reservatórios foram tiro pela culatra


Editorial O Globo 21 Março 1914


O Brasil já acumulou no passado água suficiente para suprir o país por cinco anos; atualmente, esse volume de água não dá para mais de cinco meses

Como um país que dobrou sua capacidade de geração de energia elétrica em um período relativamente curto, de menos de vinte anos, pode se ver na contingência de racioná-la, mesmo que o consumo não tenha se expandido em igual proporção? A razão é que essa expansão de capacidade não tem igual correspondência com a chamada energia firme, aquela que é efetivamente assegurada.

A maior parte das hidrelétricas, por exemplo, só consegue assegurar ao longo de um ano ano, em média, o equivalente à metade de capacidade de geração. Nos momentos que os rios estão cheios, no máximo de sua vazão, tais usinas podem até operar a plena capacidade. A futura usina de Belo Monte, no Rio Xingu, contribuirá pouco para o sistema interligado em alguns meses do ano, enquanto só no período da cheia poderá operar a 100%. As usinas eólicas também costumam assegurar energia equivalente a menos de 40% de sua capacidade, e isso quando há bons ventos. A vantagem é que há uma complementaridade com o sistema hidráulico; geralmente venta mais quando chove pouco no Nordeste, e vice-versa . E, à noite, quando o consumo de energia diminui na região, os ventos são mais predominantes, e, nesse horário, usinas hidráulicas podem ser menos acionadas, possibilitando o enchimento de reservatórios. E aí está o xis da questão. Na matriz elétrica brasileira, a energia precisa ser armazenada sob a forma de água acumulada nos reservatórios. No passado, essa acumulação de água possibilitava o planejamento da oferta de energia por cinco anos à frente. Esse horizonte foi se estreitando à medida que novas hidrelétricas foram construídas sem reservatórios. No quadro atual, a energia acumulada nos reservatórios existentes só poderia suprir o país por cinco meses.

Usinas com reservatórios de acumulação são aquelas em que a vazão dos rios permite que, ao menos durante uma fase do ano, se guarde parte da água junto (a montante) às barragens. As demais usinas são a fio d'água, porque não há essa acumulação, e o volume de água que chega às barragens é o mesmo que passa pelas turbinas e pelas comportas dos vertedouros. Assim, quando os rios estão cheios, as usinas podem operar a plena carga. Por causa da altura das barragens, uma usina a fio d'água pode represar água a montante, como é o caso de Itaipu, mas tecnicamente o lago formado não é considerado reservatório.

 A topografia muitas vezes ajuda a formação de reservatórios e esse é o caso dos vários existentes. Nas regiões mais planas, reservatórios podem ser menos profundos e se estender por vastas áreas, o que não se admite nos critérios de proteção ambiental. Esse foi o argumento que acabou prevalecendo no Brasil para se banir do cenário a construção de novas hidrelétricas com reservatórios de acumulação. Mas, se o propósito foi proteger o ambiente, o tiro saiu pela culatra, pois a alternativa tem sido construir usinas térmicas, bem mais caras e com impacto muito mais poluente.