24 de Junho, 2013 - 01:06 ( Brasília )

Pensamento

Como o Brasil é visto externamente

Apresenta uma análise de diversas percepções colhidas de especialistas externos em política e relações internacionais

 
Como o Brasil é visto externamente


 

André Luís Woloszyn
 Analista de Inteligência Estratégica

 
Aspectos gerais
 
A América Latina, tradicionalmente, não despertou grandes interesses estratégicos das principais potências mundiais. Desde o advento da 2ª Guerra Mundial e no decorrer da Guerra Fria, seu papel foi considerado como de forma moderada.

Neste contexto, o Brasil ficou restringido a uma participação com efetivos militares já nos estágios finais da guerra e durante a guerra fria, com a instalação de bases de apoio no território de Fernando de Noronha e em Natal, no Rio Grande do Norte. 

Na década de 90, com o incremento do narcotráfico na Colômbia e o crescimento das ações das FARCs, os EUA implementaram o Plano Colômbia, com investimentos humanos e financeiros incluindo a instalação de bases militares, destinada a centralizar as operações de  apoio ao combate aos cartéis colombianos, cujas atividades atingiam seus interesses mas que, foram  abandonadas,  em razão dos atentados do 11-S e das novas ameaças trazidas do terrorismo extremista islâmico. Mas, de maneira geral, foram obtidos resultados satisfatórios e o país vive hoje um estado de equilíbrio em termos de violência. 

A ascensão  de Hugo Chaves  ao  poder na Venezuela trouxe alguns inconvenientes mais por suas relações diplomáticas com países como o Irã do que propriamente pelas ameaças contra os EUA ou o apoio as guerrilhas colombianas e a alguns grupos terroristas do Oriente Médio e da Europa. Tais atitudes foram encaradas como mera retórica populista, enquanto mantinha relações comerciais, especialmente a venda de petróleo, aos estadunidenses. A revolução bolivariana apregoada por ele, também foi encarada como retórica sendo considerada por analistas praticamente impossível face a diversidade de interesses dos países ao longo da  Cordilheira dos Andes.

A modernização de suas Forças Armadas com a compra de diversos tipos de armas da Federação Russa não teve grandes impactos pois se constituíam em uma estratégia de marketing institucional. O ponto positivo foi que acabou fomentando a possibilidade de expansão do mercado da indústria bélica dos EUA em outros países da região, que a a exemplo da Venezuela, necessitavam se modernizar.

O Brasil, nos anos de governo do Presidente Luís Inácio Lula da Silva, passou a despertar a atenção internacional pela implementação de programas  sociais e pelo bag de crescimento econômico. Esta conjuntura, foi encarada como uma oportunidade pontual de investimentos para o capital externo e pelo aumento da balança comercial, especialmente importações, a ampliação do mercado consumidor. Este, talvez, tenha sido o grande legado de Lula da Silva, o marketing institucional que vendeu a imagem do país como o de  uma possível superpotência mundial, situação que não é descartada. Houve grande apreensão com a possibilidade de apoio do Brasil ao programa nuclear iraniano e aos movimentos de resistência palestinos especialmente durante o conflito israelo-palestino.
 
Muitas análises e estimativas tem sido feitas por diversos especialistas internacionais sobre os fatores internos da política governamental brasileira na tentativa de visualizar se o país, de fato, poderá efetivamente se constituir em uma potência  mundial, a médio prazo. Dentre estas, ressaltamos quatro aspectos de análise:
 
Segurança

Uma situação que chama a atenção é o avanço da criminalidade e as dificuldades dos agentes públicos de segurança em mantê-la sob  controle. Os constantes casos de violência praticados por organizações criminosas ligadas ao narcotráfico como o Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho, em diversos estados, repercutiram negativamente na opinião pública internacional passando a idéia de que a situação foge do controle estatal. As péssimas condições  do sistema prisional, denunciadas por ONGs e pela Comissão dos Direitos Humanos da OEA, é vista como um descaso das autoridades.  No mesmo sentido, a corrupção policial e a impunidade são encaradas externamente como um fenômeno histórico endêmico que só poderá ser minimizado com uma reestruturação dos sistemas de segurança pública e criminal. Estes fatores, contribuem decisivamente para os elevados índices de criminalidade, outro, dos grandes desafios a  serem enfrentados pelo governo da  Presidente  Dilma Rousseff.

Por outro lado, os resultados positivos obtidos com a  instalação das UPPS na cidade do Rio de Janeiro vem sendo acompanhados com grande interesse. A expectativa está justamente em como os órgãos de segurança irão se comportar nos próximos grandes eventos, especialmente na Copa do Mundo de Futebol de 2014, o que deverá balizar o número de turistas para as Olimpíadas de 2016.    
 
Defesa

Na última década, é acompanhado pela mídia especializada o aumento progressivo nos gastos com equipamentos de defesa na América latina, especialmente na Venezuela e no Brasil os quais possuem materiais obsoletos e desativados pelo alto custo de manutenção e dificuldades na reposição de peças já não mais fabricadas.  O projeto de modernização das Forças Armadas brasileiras é visto como uma excelente oportunidade de expansão de mercado por parte de empresas internacionais e países como EUA, Federação Russa, França, Suécia e Espanha, passaram a disputar este nova fatia. A intenção da compra de caças para a Força Aérea que, fomentou inicialmente uma corrida competitiva entre estes países hoje é vista com certo ceticismo bem como o projeto do primeiro submarino movido a energia nuclear. Isto, principalmente, pelo arrefecimento do crescimento econômico no país e das futuras perspectivas de crise financeira mundial.

A atuação de efetivos militares no Haiti como tropa de Estabilização (MINUSTAH)  trouxe uma visibilidade internacional positiva reforçada pela nomeação de um Oficial General do Exército para comandar tropas de ataque na República Democrática do Congo, fato que não ocorria desde a 2ª guerra Mundial.
 
 
Inteligência

Talvez pelo fato do Brasil não se constituir em um país com características  expansionistas, estando voltado para suas questões internas, a área de inteligência é pouco conhecida. Existem alguns intercâmbios com agências internacionais e compartilhamento de tecnologia, especialmente no campo digital com a venda de plataformas de cruzamento de dados e sistemas de monitoramento e vigilância. A maior colaboração nesta área reside em troca de informações sobre organizações internacionais ligadas ao narcotráfico e suas conexões com grupos brasileiros. 
 
Política

É fato que o Brasil vem se tornando um importante ator no cenário da política internacional. O governo da Presidente Dilma Rousseff é visto positivamente e com expectativas, principalmente pelos grandes desafios a serem enfrentados e se conseguirá manter o crescimento econômico e os índices de inflação em baixos patamares, fatores essenciais para o desenvolvimento. A redução da carga tributária, a redução dos gastos públicos e investimentos na infraestrutura interna também são considerados passos importantes para o crescimento do país, de maneira geral. Em síntese, o governo passa uma imagem de profissionalismo e austeridade diferentemente da euforia populista criada pelo anterior.  

A conjuntura política interna é desconhecida pela  maioria que se valem das análises feitas por jornalistas brasileiros, especializados na área. Mas os escândalos de corrupção política no Congresso Nacional e em outras esferas de poder não passaram desapercebidos contribuindo para uma imagem negativa. As atuais manifestações populares pela melhoria das condições sociais foi uma surpresa para os analistas que acreditavam em uma aprovação massiva da população no governo central, conforme a progressão das pesquisas de opinião divulgadas nos últimos doze meses.

Pelo fato de estar, tradicionalmente, voltado para questões internas e observar como expectador a maioria das crises e conflitos internacionais, pode se afirmar que existe ainda certa ingenuidade sobre como funciona o jogo de poder internacional e os aspectos que envolvem a luta por hegemonia das potências.

A diversidade de pensamentos neste sentido e a possibilidade de descontinuidade de um parâmetro nacional quando da mudança do governo central talvez venha ser um fator preponderante que ainda não impulsionou o país para uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.
 
A percepção geral é de que o país possui grandes potencialidades. Se conseguir manter o crescimento econômico apresentado nos últimos cinco anos e ajustar alguns de seus problemas internos no campo social e econômico, além de aproveitar-se da situação de crise dos países da comunidade europeia para ampliar sua balança de exportação a novos mercados poderá, de fato, vir a se constituir na próxima nova superpotência mundial em um período médio de 10 anos.