01 de Maio, 2013 - 22:26 ( Brasília )

Pensamento

ARMAS - Opinião pública deve decidir se lucros valem a pena



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Nota  DefesaNet

Texto engajado da linha do desarmamento civil. Infelizmente a Folha não abriu a oportunidade para a indústria e linha contrária ao desarmamento.

O Editor



DANIEL MACK
Coordenador internacional do Instituto Sou da Paz.

Carnaval, futebol e pistolas: a nova lista das nossas atrações aos olhos norte-americanos. A liderança no mercado de armas pequenas e leves faz sentido: os EUA são o maior comprador do mundo e o Brasil é grande produtor --entre os cinco maiores exportadores em um mercado global estimado em mais de US$ 7 bilhões anuais.

Segundo o Small Arms Survey, há tempos o Brasil "rotineiramente" exporta mais de US$ 100 milhões em armas pequenas e leves anualmente --junto com Alemanha (Heckler & Koch), Áustria (Glock), Bélgica (FN Herstal), Itália (Beretta) e, presumem, China e Rússia, mas atrás dos líderes absolutos, os EUA.

Lá --por motivos constitucionais e culturais que acabam de derrubar proposta minimalista de controle de armas no Senado-- compradores não faltam: há 90 armas para cada 100 pessoas. Ou seja, 270 milhões sem contar as dos militares e dos policiais.

No Brasil, estima-se que há 15 milhões de armas nas mãos de civis --demanda muito menor e em contração: desde 2003, quando o Estatuto do Desarmamento determinou mais rigidez, houve diminuição de 40% na venda de armas, segundo o Ipea.

Na contramão, verificou-se que muitos americanos, de modo levemente paranoico, compraram mais armas.

Ademais, as armas "made in Brazil" têm bom custo-benefício. Pistolas da Taurus são benquistas por civis e policiais nos EUA, tendo conquistado o prêmio "Hand Gun of the Year" da NRA (lobby pró-armas) em 2011.

Acionistas comemoram. Em 2012, a Taurus teve lucro de quase R$ 42 milhões, sucesso comercial que permite até fábrica em Miami.

O foco nas exportações aos EUA deve continuar, também porque o Tratado de Comércio de Armas acordado no começo do mês na ONU, quando em vigor, deve aumentar a dificuldade de exportar para países em conflito ou com graves problemas de direitos humanos, que outrora receberam armas brasileiras.

Mas há o outro lado da moeda: os custos do "american dream" da indústria brasileira. Qual percentual das milhares de mortes anuais a tiro nos EUA é cometido com "nossas" armas?

Quantas das 250 mil armas traficadas dos EUA anualmente para o México são fabricadas aqui e usadas pelos narcotraficantes que atemorizam aquele país? O governo brasileiro, que autoriza as transferências mas o faz em segredo com diretrizes criadas durante a ditadura, tem responsabilidade nesses casos?

Mesmo que ainda não espontânea, maior transparência sobre as exportações pode ajudar a dirimir dúvidas que permitam aos brasileiros, que como contribuintes subsidiam a indústria de armas através de incentivos fiscais ao setor, decidir: esses lucros valem a pena?