08 de Abril, 2013 - 10:00 ( Brasília )

Pensamento

Nota de Pesar - José Cândido

Homenagema José Cândido da Silva Fonseca um desbravador da imprens especializada em defesa no Brasil,


Cosme Degenar Drummond
Diretor de Redação Defesa Latina



José Cândido era uma figura extraordinária, modesto, ético, amigo, justo e honesto. Ele jamais admitiu que a Tecnologia e Defesa fugisse de sua linha editorial. Na primeira grande crise enfrentada pela revista, em meados de 1985, ele me consultou se deveria fechar a publicação, ainda feita na ocasião em Preto & Branco, com capa em tons alaranjados e pretos e a marca totalmente em negrito. Disse que deveríamos continuar com a revista. Ele topou.
 
Convidados então um jornalista, professor da Faculdade Cásper Líbero, Aurélio de Abreu, de saudosa memória, e começamos a mudar gradualmente o padrão gráfico-editorial de Tecnologia e Defesa. Foi uma época muito difícil para tocar a revista, pois o segmento de defesa começava a enfrentar a enfrentar uma discriminação política sem precedente no Brasil. Publicávamos a revista com enorme atraso, perdendo assim a periodicidade regular de suas edições.
 
Em pouco tempo, veio a segunda grande crise na revista. Não é difícil imaginar como era o cenário no setor de defesa no Brasil, a partir dos movimentos que culminaram com a derrubada do Muro de Berlin! Com equilíbrio e determinação, José Cândido ainda conseguiu publicar mais alguns números da revista até que, para complicar, a Editora Aquarius, proprietária do título, quebrou no mercado editorial. Mesmo assim, em 1988 Tecnologia & Defesa foi consagrada pelos organizadores da DEFENDORY – Feira Internacional de Defesa realizada bienalmente na Grécia, em Atenas, como uma das 10 melhores revistas do mundo no gênero. José Cândido não viu mais futuro para Tecnologia e Defesa e decidiu transferir para mim a responsabilidade pelas edições da revista, e foi ministrar aulas de sua formação e especialidade e cuidar de outros interesses da família Fonseca. Peguei o pião na unha, apoiado por companheiros jornalistas – aliás, a revista revelou grandes talentos, ainda hoje atuantes nesse setor –, como Nelson During, hoje editor do DEFESANET, excelente portal de defesa.
 
A situação no mercado tornou-se era mais dramática. Em 1990, piorou bastante no Brasil. A Embraer, a Avibras e a Engesa, empresas que apostavam no potencial da revista, entraram em dificuldade financeira. Mesmo com a ajuda dos velhos amigos, a situação da revista não se normalizou. As poucas edições de Tecnologia e Defesa continuaram saindo com grande atraso.
 
Em meados de 1990, convidei um então técnico em Contabilidade, estudante de jornalismo na Cásper Líbero, para ser meu sócio na revista. Estilizamos a marca Tecnologia & Defesa e o meu sócio achou por bem modificar as capas das revistas, experiência que durou apenas quatro edições, publicadas num espaço de dois anos, pois o novo jeitinho não dera certo. Praticamente a revista passou a ter periodicidade semestral.
 
O mercado melhorou, mas a revista não dava lucro. O meu sócio tinha uma atividade adicional; era gerente de uma empresa que fabricava válvulas industriais. Eu vivia da minha parte nas vendas em bancas da revista. Novos colaboradores surgiram. Tecnologia & Defesa ganhou maturidade. Em dezembro de 2008, deixei a revista.
 
Um grupo de amigos que conheci no setor de defesa me incentivou a permanecer no jornalismo setorial. Convidado pela Editora de Cultura, que publica os meus livros, decidi enfrentar o novo desafio. Com base na minha experiência profissional, com a ajuda da jornalista Mirian Paglia, reformulamos o projeto e lançamos a revista DEFESA LATINA, uma nova modalidade de retratar o setor de defesa.
 
Ao longo dos anos, visitei o José Cândido em sua residência, na zona norte de São Paulo. Ele estava feliz, como professor. A partir de certo momento, entretanto, não o vi mais; ele mudara de endereço. Num encontro casual com sua esposa, numa agência bancária, eu soube por ela que ele tinha falecido em agosto de 2012. Deitara-se para dormir e nunca mais acordou, pois seu coração parou. Morreu dormindo.
 
Bons sonhos, meu amigo! Tenha a certeza de que você foi um grande mestre! Muitas passagens sobre a nossa convivência profissional, inclusive em feiras internacionais, estão registradas e permanecem vivas comigo. Quem sabe um dia eu as possa tornar públicas em livro!
 
José Cândido da Silva Fonseca, até algum dia!