Forças Armadas e Política no Brasil

Editora
Jorge Zahar

Ano 2005

Autor
José Murilo de Carvalho

Coleção Nova Biblioteca de Ciências Sociais


Defesa @ Net

Recomendamos a leitura de entrevista do autor ao JB
(Julho 2005)


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Pensamento
Defesanet 14 Agosto 2005
O Estado de São Paulo 14 Agosto 2005

Ontem e hoje, um papel para as Forças Armadas
Entrevista com o historiador José Murilo de Carvalho


Beatriz Coelho Silva

RIO - O papel das Forças Armadas no Brasil desperta controvérsias, mas foi fundamental na história do País. O historiador José Murilo de Carvalho se interessa pelo assunto desde os anos 60, quando estudava sociologia e política na Universidade Federal de Minas Gerais, e acha que hoje sua função não está definida, apesar dos militares estarem atentos aos acontecimentos. Para esquentar o debate, ele acaba de lançar Forças Armadas e Política no Brasil, reunião de textos publicados na imprensa ou em livros, nos quais conta como o Exército e a Marinha se tornaram importantes na história republicana. E ainda indaga como e por que desapareceram de cena política com o fim da ditadura.

Em 1964, Carvalho tinha 21 anos, conjugava a universidade com a militância em grupos empenhados em transformações sociais para o País. O golpe não o surpreendeu, mas o rumo que tomou e a falta de reação contrária, da população ou dos políticos, foram um baque. Para lidar com a perplexidade, tornou-se um especialista. "Todos falavam em golpe, mas não daquela natureza. Então, estudar as Forças Armadas foi um exercício pessoal para entender um choque que atingiu a minha geração. Queria também esclarecer um fato que marcou a vida do País", diz ele ao Estado. "Para entender 1964, fui para trás. Não fui para frente porque aí começa um novo processo, com uma dinâmica diferente, que exige distância para ser visto com clareza."

O livro é dividido em três partes, contando a história das Forças Armadas na República, sua participação nos governos e na Guerra do Paraguai que, para ele, construiu a identidade brasileira ainda no Império, e a 2ª Guerra Mundial. Em textos escritos nos anos 70, anteriores à sua volta da Universidade de Stanford, nos EUA, conta como se formaram o Exército e a Marinha republicanos e segue até o fim do Estado Novo, em 1945. A fartura de dados e o distanciamento poderiam, em outras mãos, levar a um texto pouco claro. Não é o caso pois, entre tabelas e estatísticas, Carvalho mostra quem se tornava militar na primeira metade do século 20 e trata de seus anseios e ideais.

ARDOR

O historiador mostra corpo, alma e emoção em Fortuna e Virtù no Golpe de 1964, que revela a perplexidade de sua geração, faz crítica e autocrítica e tenta entender como e por que ideais tão ardentemente acalentados acabaram em nada. Como aquela revolução morreu na praia? É o texto mais recente, de 2004. "Os outros tinham muito rigor, do ponto de vista histórico, de pesquisa. Este é uma reflexão sobre o passado, em outro estilo porque escrito para uma revista de literatura", explica. "E não escrevo mais como antigamente, quando estava sob o impacto de uma formação acadêmica. Hoje meu texto é diferente, mas a emoção está lá porque, se para parte das pessoas hoje o golpe de 64 é história, para mim é memória. Vivi aquilo, como toda a minha geração."

Carvalho reconhece que os estudiosos e os políticos evitam discutir a função atual das Forças Armadas e desconhecem como é o militar brasileiro hoje. O historiador convive com eles, leciona política na Escola Naval de Guerra. "A geração das lutas políticas desapareceu, a nova tem outra cabeça. A doutrinação, a luta contra o comunismo, a guerrilha, nada disso faz sentido para eles. Não querem atuar politicamente e sim lutar por um Exército profissional", diz. O que não é sinônimo de distanciamento. "Sentem-se injustiçados com a imagem que a imprensa e os intelectuais criam, embora saibam do prestígio que têm na opinião pública. Um dos debates preferidos é o lugar das Forças Armadas diante do enfraquecimento do Estado-nação, origem dos exércitos profissionais modernos."

Já Executivo e Legislativo não pensam no assunto, critica Carvalho. "O Congresso faz questão de ignorar, numa covardia cívica. Por tradição, o governo não mexe com os militares e os civis se tornaram ignorantes deles. Os militares se queixam disso, com razão", comenta, sem esconder dúvidas. "O que cabe ao Exército num país periférico como o Brasil? A briga com os países vizinhos é mais comercial e, nos outros conflitos externos, o único papel plausível são missões como a do Haiti, tarefa mais policial. O narcotráfico é uma ameaça, mas há uma divisão sobre o papel do Exército e da Polícia Militar nesse caso. Sobram os conflitos urbanos, mas sobre isso eles não falam."

Daí vem, para José Murilo de Carvalho, o silêncio dos militares diante da atual crise, em que o Congresso expõe suas mazelas e o governo federal se enfraquece com denúncias de corrupção. "Em história, a única coisa que sabemos é que seremos surpreendidos. Podemos fazer diagnósticos, não previsões. Os militares parecem tranqüilos, mas quem garante que as circunstâncias não os trarão de volta?" Mas ele acha que a pressão não virá daí. "O problema mais sério é a desigualdade social, o acirramento da violência urbana e o descontrole das polícias sobre as áreas carentes, as favelas. O tráfico impede a politização da miséria urbana que, se desaguar num MST urbano, cria um problema de segurança sério."

As Forças Armadas se preparam para enfrentá-lo? "Parece óbvio que sim. Se não, por que haveria grandes contingentes nas grandes cidades? A única hipótese de aplicação das forças militares nos grandes centros é nesse tipo de distúrbio e essa é uma razão para todos discutirem qual seu papel político", afirma. "Por tudo isso, não cabe só às Forças Armadas discutir seu papel. Essa é uma tarefa da sociedade."

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