Ontem
e hoje, um papel para as Forças Armadas
Entrevista com o historiador José
Murilo de Carvalho
Beatriz Coelho Silva
RIO
- O papel das Forças Armadas no Brasil desperta controvérsias,
mas foi fundamental na história do País. O
historiador José Murilo de Carvalho se interessa
pelo assunto desde os anos 60, quando estudava sociologia
e política na Universidade Federal de Minas Gerais,
e acha que hoje sua função não está
definida, apesar dos militares estarem atentos aos acontecimentos.
Para esquentar o debate, ele acaba de lançar Forças
Armadas e Política no Brasil, reunião de textos
publicados na imprensa ou em livros, nos quais conta como
o Exército e a Marinha se tornaram importantes na
história republicana. E ainda indaga como e por que
desapareceram de cena política com o fim da ditadura.
Em
1964, Carvalho tinha 21 anos, conjugava a universidade com
a militância em grupos empenhados em transformações
sociais para o País. O golpe não o surpreendeu,
mas o rumo que tomou e a falta de reação contrária,
da população ou dos políticos, foram
um baque. Para lidar com a perplexidade, tornou-se um especialista.
"Todos falavam em golpe, mas não daquela natureza.
Então, estudar as Forças Armadas foi um exercício
pessoal para entender um choque que atingiu a minha geração.
Queria também esclarecer um fato que marcou a vida
do País", diz ele ao Estado. "Para entender
1964, fui para trás. Não fui para frente porque
aí começa um novo processo, com uma dinâmica
diferente, que exige distância para ser visto com
clareza."
O
livro é dividido em três partes, contando a
história das Forças Armadas na República,
sua participação nos governos e na Guerra
do Paraguai que, para ele, construiu a identidade brasileira
ainda no Império, e a 2ª Guerra Mundial. Em
textos escritos nos anos 70, anteriores à sua volta
da Universidade de Stanford, nos EUA, conta como se formaram
o Exército e a Marinha republicanos e segue até
o fim do Estado Novo, em 1945. A fartura de dados e o distanciamento
poderiam, em outras mãos, levar a um texto pouco
claro. Não é o caso pois, entre tabelas e
estatísticas, Carvalho mostra quem se tornava militar
na primeira metade do século 20 e trata de seus anseios
e ideais.
ARDOR
O
historiador mostra corpo, alma e emoção em
Fortuna e Virtù no Golpe de 1964, que revela a perplexidade
de sua geração, faz crítica e autocrítica
e tenta entender como e por que ideais tão ardentemente
acalentados acabaram em nada. Como aquela revolução
morreu na praia? É o texto mais recente, de 2004.
"Os outros tinham muito rigor, do ponto de vista histórico,
de pesquisa. Este é uma reflexão sobre o passado,
em outro estilo porque escrito para uma revista de literatura",
explica. "E não escrevo mais como antigamente,
quando estava sob o impacto de uma formação
acadêmica. Hoje meu texto é diferente, mas
a emoção está lá porque, se
para parte das pessoas hoje o golpe de 64 é história,
para mim é memória. Vivi aquilo, como toda
a minha geração."
Carvalho
reconhece que os estudiosos e os políticos evitam
discutir a função atual das Forças
Armadas e desconhecem como é o militar brasileiro
hoje. O historiador convive com eles, leciona política
na Escola Naval de Guerra. "A geração
das lutas políticas desapareceu, a nova tem outra
cabeça. A doutrinação, a luta contra
o comunismo, a guerrilha, nada disso faz sentido para eles.
Não querem atuar politicamente e sim lutar por um
Exército profissional", diz. O que não
é sinônimo de distanciamento. "Sentem-se
injustiçados com a imagem que a imprensa e os intelectuais
criam, embora saibam do prestígio que têm na
opinião pública. Um dos debates preferidos
é o lugar das Forças Armadas diante do enfraquecimento
do Estado-nação, origem dos exércitos
profissionais modernos."
Já
Executivo e Legislativo não pensam no assunto, critica
Carvalho. "O Congresso faz questão de ignorar,
numa covardia cívica. Por tradição,
o governo não mexe com os militares e os civis se
tornaram ignorantes deles. Os militares se queixam disso,
com razão", comenta, sem esconder dúvidas.
"O que cabe ao Exército num país periférico
como o Brasil? A briga com os países vizinhos é
mais comercial e, nos outros conflitos externos, o único
papel plausível são missões como a
do Haiti, tarefa mais policial. O narcotráfico é
uma ameaça, mas há uma divisão sobre
o papel do Exército e da Polícia Militar nesse
caso. Sobram os conflitos urbanos, mas sobre isso eles não
falam."
Daí
vem, para José Murilo de Carvalho, o silêncio
dos militares diante da atual crise, em que o Congresso
expõe suas mazelas e o governo federal se enfraquece
com denúncias de corrupção. "Em
história, a única coisa que sabemos é
que seremos surpreendidos. Podemos fazer diagnósticos,
não previsões. Os militares parecem tranqüilos,
mas quem garante que as circunstâncias não
os trarão de volta?" Mas ele acha que a pressão
não virá daí. "O problema mais
sério é a desigualdade social, o acirramento
da violência urbana e o descontrole das polícias
sobre as áreas carentes, as favelas. O tráfico
impede a politização da miséria urbana
que, se desaguar num MST urbano, cria um problema de segurança
sério."
As
Forças Armadas se preparam para enfrentá-lo?
"Parece óbvio que sim. Se não, por que
haveria grandes contingentes nas grandes cidades? A única
hipótese de aplicação das forças
militares nos grandes centros é nesse tipo de distúrbio
e essa é uma razão para todos discutirem qual
seu papel político", afirma. "Por tudo
isso, não cabe só às Forças
Armadas discutir seu papel. Essa é uma tarefa da
sociedade."
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