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Movimentos sociais condenam governo Lula
O Globo 07 Dez 05
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Dirceu
versus Lula
O Globo 28 Dez 05
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Defesanet
28 Dezembro 2005
O Globo 28 Dezembro 2005
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Soy
loco por ti, América
Merval Pereira
Colunista Político de O Globo
A
antecipação do pagamento da dívida
ao FMI, que o presidente Lula apresenta como uma espécie
de libertação do país de uma suposta
dominação externa, tem valor meramente simbólico
para as contas do país, mas faz parte de uma estratégia
de política externa que está descrita em
um paper de julho de 2004 do secretário-geral do
Itamaraty, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães.
Quando
o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, anunciou
que também anteciparia o pagamento ao Fundo, disse
que aquela era uma estratégia do Mercosul, combinada
com o presidente Lula. Que ontem repetiu pela enésima
vez nos últimos dias que, com a medida, mostramos
que somos donos do nosso nariz.
A
decisão, simbólica para o Brasil, é
claramente ideológica para a Argentina, que não
tinha condições econômicas de fazer
a bravata. Mas a decisão conjunta dos dois países
é uma inflexão política do Mercosul,
que passaria a ser um instrumento de afirmação
da região frente aos Estados Unidos.
De
fato, no documento O papel político internacional
do Mercosul, Pinheiro Guimarães diz que o
Mercosul (e a Argentina e o Brasil) enfrentam três
desafios de curto prazo no processo de articulação
de um papel político autônomo no sistema
mundial multipolar em gestação:
a)
resistir a uma absorção na economia e no
bloco político norte-americanos, que está
avançando rapidamente, de maneira disfarçada,
por meio das negociações da Alca e dos TLCs
e da dolarização gradual;
b)
enfrentar uma possível intervenção
militar externa na Colômbia e eventualmente em toda
a região amazônica;
c)
recuperar o controle sobre suas políticas econômicas,
doméstica e externa, no momento sob controle do
FMI (e da OMC).
Segundo
o embaixador, a construção paciente,
persistente e gradual da união política
da América do Sul e uma recusa firme
e serena de políticas que submetam a região
aos interesses estratégicos dos Estados Unidos
tem que ser o objetivo da nossa política externa,
e o Mercosul é um instrumento essencial para
atingir esse objetivo.
Pinheiro
Guimarães ressalta que Mercosul significa
Brasil e Argentina, da mesma forma que União Européia
significa Alemanha e França e Nafta significa Estados
Unidos e Canadá. E sem uma cooperação
próxima entre Brasil e Argentina, a ação
política coordenada do Mercosul e, mais ainda,
uma ação política comum na América
do Sul, seriam uma total impossibilidade.
O
embaixador faz críticas à falta de coordenação
política do Mercosul e diz que é possível
concluir que os esforços de coordenação
política dos países do Mercosul têm
sido mais bem-sucedidos com relação a dois
tópicos de especial interesse para os objetivos
da política dos Estados Unidos na região:
o desarmamento dos países da região e a
manutenção de regimes formalmente democráticos,
transparentes e abertos à influência externa,
nos planos político e econômico.
Ele
diz que a chamada cláusula democrática
do Mercosul é um desvio do tradicional princípio
sul-americano da não-intervenção
em assuntos internos e pode gerar, no futuro, questões
delicadas no momento de sua implementação,
com sua aplicação seletiva e manipulada
por pressões externas.
Pinheiro
Guimarães afirma em seu documento que é
preciso redefinir uma visão conjunta do mundo
e do papel da América do Sul nesse mundo. Brasil,
Argentina e Mercosul precisam enfrentar o fato de que
o sistema real é mais um sistema de natureza conflitiva,
altamente competitiva e violenta, com uma forte e crescente
concentração e cristalização
de poder.
É
dentro dessa perspectiva que deve ser analisada a recente
entrada da Venezuela de Chávez como membro pleno
do Mercosul, a convite de Lula e Kirchner, e a possibilidade
de a Bolívia de Evo Morales vir a ter o mesmo status.
O
ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa,
um dos negociadores do processo de integração
do Mercosul, hoje diretor de comércio exterior
da Federação das Indústrias de São
Paulo (Fiesp), ressalta que um dos desafios centrais do
Mercosul é sua institucionalização.
Para fortalecer o poder de barganha do bloco em negociações
internacionais, o projeto precisa incluir uma política
comercial comum. Como ficam este projeto político
e a política comercial comum no Mercosul com a
Venezuela?
O
embaixador Rubens Barbosa desconfia que será um
Mercosul mais distante da Alca, e mais próximo
do que chama de populismo radical. O papel
do Brasil ganhará destaque, na medida em que Lula
representa uma esquerda democrática
na região que terá, no decorrer dos próximos
meses nada menos que 12 eleições em países
como Chile, Nicarágua, Peru, Colômbia, Venezuela,
México e Brasil. A tendência é que
a região continue sua inclinação
política para a esquerda, com governos profundamente
antiamericanos, na definição do professor
Francisco Carlos Teixeira, da UFRJ.
Já
para o professor Nelson Franco Jobim, do Centro de Estudos
das Américas da Universidade Cândido Mendes,
as eleições serão decisivas para
o futuro próximo da região, que ficou para
trás da Ásia e da Europa Oriental em crescimento
econômico. Isto gera um ressentimento antiglobalização,
anticapitalista e antiliberal. Cerca de 40% dos latino-americanos
vivem na miséria.
Com
tamanha frustração social e relativa estagnação
econômica os índices de crescimento
da América Latina estão muito abaixo dos
da Ásia e da Europa Oriental - a tendência
do eleitorado é votar na esquerda, concorda Jobim.
Mas ele acha que apesar da estridência cada vez
maior do presidente da Venezuela, Hugo Chávez,
a maior tendência é de continuidade do que
a revista inglesa The Economist chama de Consenso
pós-Washington, uma combinação
de estabilidade macroeconômica com aumento dos gastos
sociais.
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