Dez
Desafios da Defesa Nacional
Cristovam
Buarque
Senador pelo PT( DF)
O
problema da Defesa Nacional tem sido visto sobretudo como
assunto de segurança militar. De fato, as Forças
Armadas são o principal instrumento da defesa de
cada país. Mas não é apenas delas
que depende a defesa de uma nação.
Por
essa razão, quero concentrar minha apresentação
sobre outros nove vetores atuais de nossa insegurança,
embora iniciando com uma consideração inicial
sobre o aspecto militar.
1.
Vetor Militar a primeira decisão sobre
a defesa de um país é a opção
entre dispor ou não de um quadro de Forças
Armadas. Há raros países que optaram por
não ter sua Defesa Nacional baseada em Forças
Armadas próprias, como é o caso da Costa
Rica.
A
Defesa Nacional fica dependendo de acordos internacionais
que assegurem as fronteiras contra ameaças, e a
segurança interna com forças policiais.
Essa alternativa é rara, e própria de países
pequenos.
Não
pode ser o caso do Brasil. Com 7.400 km de litoral, tendo
no mar uma das mais importantes fontes de riqueza, especialmente
8,8% da produção e 90% das reservas brasileiras
conhecidas de petróleo, e com o quarto maior espaço
aéreo de todo o mundo; fronteiras com dez países;
ocupando quase toda a extensão do Atlântico
Sul; a maior reserva florestal e hídrica do planeta,
os dois recursos mais importantes para o futuro; contendo
em seu território a quase totalidade da Amazônia,
área que será a mais cobiçada do
planeta no futuro, superada atualmente apenas pelas reservas
de petróleo, é óbvio que a defesa
do Brasil precisa de um forte sistema militar.
Mas
a impressão é de que o Brasil ainda não
fez a opção de ter Forças Armadas.
O tratamento dado às três armas, no que se
refere à dimensão de pessoal e equipamentos,
em quantidade, qualidade e modernidade, não corresponde
às necessidades de um país com as dimensões
e o potencial do Brasil.
A
Defesa Nacional exige uma clara opção brasileira
pela construção de Forças Armadas
fortes e modernas. Mas isso não bastará
para garanti-la. A falta de opção por Forças
Armadas bem armadas é apenas um dos vetores que
ameaçam a Defesa Nacional. Pelo menos outros nove
vetores são sinais de risco à nossa segurança.
2.
Vetor cultural está em marcha no mundo
um processo de internacionalização cultural,
que transcenderá as nações. Esse
processo de espalhamento das culturas nacionais sobre
as demais é um enriquecimento da humanidade.
Mas
na forma em que está ocorrendo, a internacionalização
cultural provoca duas deformações: a destruição
de culturas nacionais e a imposição sobre
todo o mundo da cultura de uma única nação
e suas semelhantes a nação européia-norte-americana.
Com
essa cultura, chegam hoje valores internacionais que abalam
valores nacionais. A população de nosso
país começa a perder suas raízes,
a pensar sem apego às suas heranças específicas;
as lideranças políticas começam a
evitar e até a ridicularizar a explicitação
do nacionalismo, como se este fosse um conceito antiquado.
Alguns
países já adotaram a moeda norte-americana,
colocando nas suas cédulas as imagens de líderes
que nada dizem respeito à sua história.
Outros, de forma mais aceita, unem suas histórias
à história vizinha e constroem moedas internacionais.
Esse é apenas um exemplo.
A
imposição cultural tende a diluir cada país
em uma espécie de norte-americanização,
uma americoglobalização com os mesmos
padrões de consumo, as mesmas preferências
estéticas que, mais do que ameaçar
a Defesa Nacional, a tornaria obsoleta, desnecessária.
Sem
medo do enriquecimento da convivência cultural internacional,
a Defesa Nacional exige o fortalecimento da cultura nacional,
tanto quanto das Forças Armadas. De nada vai adiantar
ter Forças Armadas fortes para defender uma nação
se o povo pensar como se fosse estrangeiro.
A
ocupação subjetiva do espírito nacional
é tão ameaçadora à segurança
nacional quanto uma ocupação objetiva territorial.
Com a diferença de que esta última é
visível, reversível, ao passo que a outra
é invisível, permanente.
A
proteção da nação não
deve nem pode ser feita pelo obscurantismo do isolamento
contra as culturas internacionais. A cultura precisa ser
ao mesmo tempo aberta e protegida: o caminho é
a educação básica.
3.
Vetor educação não há
uma ciência suficientemente desenvolvida se não
houver uma boa educação básica. O
Brasil está cada vez menos seguro no mundo, por
causa da baixa educação do seu povo.
Cada
vez que deixamos uma pessoa analfabeta, perdemos um potencial
fundamental da construção do principal recurso
do futuro: a ciência e a tecnologia.
Não
teremos uma ciência e tecnologia plenamente desenvolvida
enquanto jogarmos fora boa parte do nosso potencial intelectual
porque não demos escolas a ele. Sem uma boa educação
não teremos um país soberano.
No
mundo de hoje, um povo sem educação é
um povo indefeso. Como ter um sistema nacional de defesa
em um país como o Brasil, onde 52% das crianças
chegam aos dez anos de idade sem saber ler, apenas um
terço terminam o ensino médio, e no máximo
10% deles concluem um ensino médio de qualidade?
Com
um quadro desses, o Brasil é obviamente um país
indefeso, qualquer que seja a qualidade de suas Forças
Armadas. O mais grave é que escondemos esse problema
comemorando nossos avanços, que são menores
do que os avanços de outros países.
Concorremos
conosco e estamos ficando para trás. No atual ritmo
de evolução do Brasil e de outros países,
a educação de nosso povo está, na
média, atrás não só da Argentina,
Chile, Uruguai, como já é tradição,
mas também do México e, em breve, da Venezuela
e da Colômbia.
A
construção de uma educação
básica forte, que consolide nossos valores culturais
desde a primeira infância até o ensino superior,
é o caminho para a construção da
Defesa Nacional.
4.
Vetor ciência e tecnologia o Brasil não
está dando a atenção que deveria,
do ponto de vista da segurança nacional, à
criação de uma base científica e
tecnológica com a competência e com a dinâmica
que o mundo moderno demanda. Estamos ficando para trás.
Hoje,
evoluímos na ciência e na tecnologia de uma
maneira mais lenta do que todos os demais países
de porte médio, equivalentes ao Brasil.
Estamos
ficando atrás de países que investiram na
educação básica, e a partir daí
investem pesadamente na área de ciência e
tecnologia. Tudo isso está relacionado à
segurança nacional, trata-se de defender o País.
5.
Vetor apartação não é
possível ter um país soberano onde parte
da população é excluída. No
Brasil de hoje, 70 milhões são excluídos
do mínimo essencial, e sentem-se e são tratados
como habitantes de um outro país, diferente daquela
parcela rica.
O
Brasil é um país não apenas com desigualdade
social, mas com um corte social, uma apartação.
A exclusão social impede o país de desenvolver
plenamente seu potencial de defesa, e mesmo de justificar
a defesa. Não havia como defender a África
do Sul quando sua população negra se sentia
estrangeira.
Que
país soberano é possível construir
com 70 milhões de excluídos? Imagine um
país em guerra com 70 milhões de excluídos
pobres que não conseguem comer o suficiente, que
não têm o menor grau de educação.
O
quadro de pobreza do Brasil é uma limitação
à garantia da nossa Defesa e da nossa soberania.
As melhores e mais competentes Forças Armadas não
vão conseguir garantir a segurança de um
país que tem 70 milhões de pobres no limite
da miséria.
A
luta pela erradicação da pobreza no Brasil
é uma condição necessária
para a superação do quadro de profunda deficiência
da nossa Defesa Nacional, no mínimo tão
importante quanto equipar as Forças Armadas.
A
solução dessa apartação, com
o acesso de todos os brasileiros a bens e serviços
essenciais, é uma condição fundamental
para a garantia da defesa e da soberania das nações.
Isso
é possível, não por meio do crescimento
econômico, mas de políticas públicas
que permitam a superação do quadro de apartação
da população que vive na pobreza.
6.
Vetor pobreza além de ter uma parcela
extremamente pobre, excluída, apartada, o que inviabiliza
a nação e impede sua defesa consistente
é a pobreza média da sociedade brasileira.
Um
país com os recursos naturais, humanos e financeiros
do Brasil não tem justificativa para estar em 86º
lugar na escala mundial de renda per capita.
A
retomada do crescimento econômico é uma condição
fundamental para a Defesa Nacional, não apenas
porque decorrerá da adoção dessa
medida o fortalecimento das Forças Armadas e a
realização dos programas sociais, mas também
porque é uma condição necessária
para a construção da infra-estrutura, sem
a qual a defesa fica impedida.
7.
Vetor desigualdade além da apartação
e da pobreza, a desigualdade entre as camadas da população
brasileira também é um vetor que desestabiliza
a segurança nacional.
Em
nome da Defesa Nacional, o Brasil precisa de um projeto
para, em alguns anos, acabar com a desigualdade que existe
hoje. Igualmente grave é a desigualdade regional.
É
inaceitável que existam cidades brasileiras com
R$ 1.300 de renda mensal per capita e outras com apenas
R$ 56.
8.
Vetor cidades as grandes cidades do Brasil
têm se transformado em verdadeiros campos de batalha.
Não é necessário ter um grau muito
grande de informação para perceber que temos
milícias armadas atuando nos grandes centros.
Não
há como reduzir o tamanho dessas cidades mandando
de volta os descendentes dos que vieram do campo. E infelizmente
ainda não temos clareza do que fazer para transformar
as dez maiores cidades brasileiras em locais que promovam
e não que ameacem a Defesa Nacional.
9.
Vetor reservas naturais costumamos tratar
o meio ambiente como um problema de militância dos
verdes. No entanto, não podemos deixar
de considerar a importância de recursos naturais
estratégicos como a água que bebemos ou
o oxigênio que respiramos.
Temos
um problema sério na utilização de
nossos recursos naturais e não nos preocupamos
com nossas reservas para a Defesa Nacional. Ainda menos
no que se refere a recursos esgotáveis, como é
o caso do petróleo.
Do
ponto de vista econômico, é um fato comemorável
a auto-suficiência do petróleo, mas no atual
ritmo de consumo de nossas reservas, representa uma ameaça
à nossa defesa, se considerarmos o risco do esgotamento
dentro de poucas décadas, se mantido o mesmo nível
de exploração.
O
Brasil não está cuidando desses recursos
dentro de uma estratégia de longo prazo. Assim,
estamos criando uma ameaça à soberania nacional.
10.
Vetor corrupção há um
processo de corrupção generalizada no Brasil
e isso ameaça nossa segurança. Mas existem
dois tipos de corrupção: aquela do comportamento
de quem se apropria do dinheiro público, a corrupção
nas prioridades das políticas públicas,
pelo uso equivocado do dinheiro para atender a interesses
sem função social.
Fazer
uma obra desnecessária, mesmo que não haja
roubo, é tão corrupto quanto se apropriar
do dinheiro daquela obra. Fazer uma ponte para beneficiar
uma parcela privilegiada da população, deixando
de fazer uma escola é corrupção;
é corrupção da prioridade da política,
embora não seja corrupção do comportamento
do político.
A
defesa nacional exige Forças Armadas competentes,
e também um programa amplo, consistente, que enfrente
os vetores atuais da nossa insegurança.