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Defesanet 18 Agosto 2006
Último Segundo 17 Agosto 2006

Exército garante: Brasil tem tropas prontas
para integrar missão de paz no Líbano


Tahiane Stochero,
repórter Último Segundo


As tropas do Brasil estão prontas para participarem da missão de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Líbano, garante o comandante do Exército brasileiro, general Francisco Roberto de Albuquerque. Contudo, o envio de tropas é uma decisão política, que deve ser aprovada pelo Congresso Nacional - o que, segundo militares e especialistas ouvidos pelo Último Segundo, é quase impossível de ocorrer com rapidez em um ano eleitoral.

Em entrevista exclusiva nesta terça, durante a formatura de 2,8 mil soldados em Taubaté (SP), Albuquerque afirmou que “a credibilidade do Exército brasileiro é tão grande no mundo” que o comandante das Forças Armadas dos Estados Unidos lhe disse há alguns meses que as tropas brasileiras são “excelentes” e que “estão prontas para atuarem em qualquer país”. “O homem brasileiro defende soberania, participa de Garantia da Lei e da Ordem (forma pela qual o Exército atuou em favelas do Rio de Janeiro e poderia ser utilizada em São Paulo no combate a facções criminosas) e participa de missão de paz. É um homem multidisciplinar e pronto para qualquer missão a ser cumprida”, garante ele.

Ele lembra que o Brasil participa atualmente de missões de paz em nove países do mundo, incluindo tropas no Haiti (desde 2004), Timor Leste e observadores em Darfur (Sudão), onde há três anos disputas entre milícias e rebeldes já deixaram mais de 300 mil mortos e 2 milhões de deslocados e refugiados, segundo ONGs internacionais.

De acordo com o Centro de Comunicação Social do Exército (Cecomsex), poderia vir a integrar o contingente brasileiro para o Líbano o 19º Batalhão de Infantaria Motorizado de São Leopoldo (RS) que tem permanentemente cerca de 1,2 mil homens direcionados para este tipo de ação. Albuquerque não soube afirmar quanto tempo os militares precisariam para a preparação das tropas antes do envio ao Oriente. O site do Exército diz serem necessários três meses para este fim.

O comandante do Exército defendeu também, em discurso aos soldados, que eles “não são soldados de birô, não são soldados só de formatura, são soldados de ação, resultado e vontade, soldados que querem morrer pelo Brasil e têm de estar prontos para qualquer tipo de ação”.

Apesar do Exército afirmar que está em condições de atuar no Líbano, o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou na terça-feira a jornalistas na capital libanesa que o Brasil “não deve participar por enquanto” da Força Provisória das Nações Unidas para o Líbano (Finul), que, de acordo com a resolução 1.701 do órgão, deve contar com 15 mil homens e buscará garantir o cessar-fogo efetivo entre Israel e o Hezbollah.

O diplomata e assessor de imprensa do Itamaraty José Luis Vieira afirma que o órgão ainda “não recebeu uma consulta formal”, por parte do Department of Peacekeeping Operations (DPKO) da ONU, sobre se o Brasil tem intenção de mandar forças para a missão. Ele, entretanto, não soube dizer se há interesse do Brasil em participar.

“Surpreso” com a possibilidade do Brasil enviar tropas para o Líbano, Gunther Rudzit, coordenador da graduação e de pós-graduação do curso de relações internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), doutor em ciência política e ex-assessor do ministério da Defesa entre 2001 e 2002, questiona o alto custo de uma missão como esta para a sociedade e a falta de uma justificativa para isso. “Será que realmente temos homens preparados para enviar para uma região de conflito? Isso só se justifica pela busca desenfreada de um assento no Conselho de Segurança da ONU”, afirma ele.

Se a intenção do Brasil é conquistar um assento no Conselho de Segurança, o envio de tropas ao Líbano se justifica. Essa é a visão de Charles Pennaforte, mestre em geografia pela Universidade de Havana e diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (Cenegri), com sede no Rio de Janeiro. Segundo ele, a lógica do governo Luiz Inácio Lula da Silva “é ampliar a inserção brasileira no contexto internacional” e, por isso, “o Brasil deve participar de tudo, buscando projeção”.

Ele lembra, entretanto, que o órgão da ONU foi criado após a 2º Guerra Mundial e permanece imutável desde então. Pennaforte entende que, se o possível envio não trouxer conseqüências positivas para o País e sim, perdas humanas, “os cidadãos vão questionar o desgaste político e financeiro da ação e o porquê disso”.

Nelson Düring, especialista em assuntos militares e editor do site Defesanet, define como “horrível” uma possível participação do Brasil na missão. Segundo ele, o País teria um alto preço a pagar pela dificuldade estratégica e por não possuir aparelhos compatíveis com o clima e o terreno do local.

Para que o Brasil possa participar de uma missão de paz, segundo a Constituição, a missão não deve ser de imposição (sem a autorização do governo e atingindo a soberania do país), mas sim de manutenção da paz. Além disso, seria necessário que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se dirigisse à Comissão de Defesa Nacional do Senado buscando explicar os motivos pelos quais seriam relevantes para o Brasil participar. Em seguida, o envio de tropas e seu suporte orçamentário têm de ser aprovados pelo Congresso.

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