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Haiti:
um grande desafio
Gen
Augusto Heleno Ribeiro Pereira
Desculpas
adiam providências urgentes e obrigam
os militares a ações humanitárias que
fogem a sua alçada
Há 11 dias, passei o comando da força
militar da Missão da ONU para Estabilização
do Haiti (Minustah) ao general Urano Bacellar. Vivi, durante
15 meses, uma experiência fantástica, pessoal
e profissional. Comandei um efetivo de 6.250 militares "capacetes
azuis", reunindo contingentes de 13 países,
sete deles latino-americanos, e oficiais de Estado-maior
de 23 nações. Todos deram tudo de si para
cumprir cabalmente as missões recebidas.
A caótica realidade socioeconômica do país
levou-me a concluir, de imediato, que construir um ambiente
seguro e estável seria viável se combinássemos
segurança com projetos de infra-estrutura e desenvolvimento.
A doação de mais de US$ 1 bilhão, na
Conferência de Washington, em julho de 2004, fez-me
crer que canteiros de trabalho, tropas e polícia
desdobrar-se-iam, simultaneamente, pelas diversas regiões
do país.
Entretanto desculpas inconsistentes continuam adiando providências
urgentes no campo econômico e social, obrigando os
militares a realizar ações humanitárias
que fogem a sua alçada.
Várias vezes, expressei minha discordância
quanto à estratégia adotada pela "comunidade
internacional" em relação ao Haiti. Fazia
eco às manifestações de desapontamento
do embaixador chileno Juan Gabriel Valdés, representante
especial do secretário-geral da ONU e chefe da missão,
e dos governos de países latinos. O Brasil e a Espanha
ameaçaram, inclusive, retirar seus efetivos militares.
Até agora, pouquíssimo aconteceu de prático
e visível.
Deixei o Haiti convicto de que somente a geração
maciça de postos de trabalho melhorará as
condições de vida e criará uma esperança
de futuro para os jovens haitianos. Exigir uma segurança
impecável para aplicar recursos quando 80% da força
de trabalho não possui emprego formal e 70% do povo
sobrevive miseravelmente com uma refeição
diária soa utópico e até mesmo cruel.
Até agora, cabe quase que exclusivamente aos vetores
de segurança criar condições para o
cumprimento da resolução do Conselho de Segurança
da ONU. Um desses vetores, a Polícia Nacional do
Haiti (PNH), única força legal do país,
reconhecidamente destemida, enfrenta sérios problemas
de equipamento, pessoal e adestramento, além de ser
alvo de acusações freqüentes de envolvimento
em atos ilícitos. Por isso, operações
conjuntas, necessárias e inevitáveis, constituem,
sempre, fator de risco para os capacetes azuis.
Li e ouvi acusações contra a Minustah. Injustas
e precoces, esquecem que a instalação de uma
missão de paz advém de uma série crise
e da necessidade de evitar um mal maior. No caso do Haiti,
inegavelmente um grande desafio, até os pessimistas
de plantão reconhecem que, sem a intervenção
da ONU, teria explodido uma sangrenta guerra civil.
A Minustah, apenas em dezembro de 2004, atingiu um efetivo
próximo do previsto pelo mandato. Ainda assim, realiza
um profícuo trabalho. Há cinco meses, o interior
do Haiti encontra-se inteiramente calmo. Porto Príncipe,
capital do país, viveu, em maio e junho, um pico
de violência. O número de seqüestros cresceu,
e ações de gangues armadas contra estabelecimentos
comerciais e industriais ameaçaram a frágil
economia haitiana. Por coincidência, renovávamos,
à época, os contingentes responsáveis
pela segurança da cidade: Brasil, Jordânia,
Peru e Sri Lanka.
Graças à atuação conjunta de
militares, PNH e polícia internacional, controlamos
a situação, e a cidade retomou a tranqüilidade.
O terceiro contingente brasileiro, melhor treinado e valendo-se
da experiência dos anteriores, restabeleceu, apoiado
pela população, a lei e a ordem no bairro
crítico de Bel Air. Resta, ainda, uma única
área problema: a paupérrima e gigantesca favela
de Cité Soleil, com cerca de 300 mil habitantes,
isolada e subjugada a gangues que, diariamente, enfrentam,
à bala, as patrulhas de capacetes azuis.
A situação exigirá um trabalho duro,
persistente e demorado, incluindo ações de
governo, em uma solução compatível
com uma força de paz, sem o uso indiscriminado da
violência, como desejam alguns inescrupulosos.
As eleições acontecerão, com certeza.
Mais de 400 postos, espalhados em todo o país, já
acolheram mais de 2 milhões de inscritos, sem qualquer
incidente relevante. Como insiste o embaixador Valdés,
não serão eleições austríacas
nem suíças. Esperamos dos julgadores a mesma
tolerância demonstrada ao analisar pleitos efetuados,
recentemente, em outras zonas "quentes".
Penso que o futuro do Haiti depende, fundamentalmente, da
participação solidária dos países
latino-americanos. Nossa familiaridade com problemas semelhantes
poderá ajudar o futuro governo na busca de soluções
viáveis e duradouras.
Espero que o fantástico e sofrido povo haitiano,
pioneiro na conquista da sua independência, assuma
o papel que lhe cabe, esqueça as desavenças
do passado, aproveite a presença estrangeira (bem-intencionada
e financeiramente poderosa), escolha bem os seus futuros
governantes e se una em torno de um pacto de governabilidade,
capaz de restabelecer a democracia e o Estado de direito,
reconstruir o país e pavimentar um futuro melhor.
Augusto Heleno Ribeiro Pereira, 57, general-de-divisão
combatente do Exército brasileiro, foi comandante
militar da Missão das Nações Unidas
para Estabilização do Haiti (Minustah) de
junho de 2004 a setembro de 2005.
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