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Defesanet: Quando começou o treinamento para a missão de paz no Haiti? Ten.Cel Izaias: Desde 1994, nosso batalhão(19º Batalhão de Infantaria Motorizado) está permanentemente preparado para executar missões de paz, pois cumpre um programa padrão de treinamento ligado ao Centro de Preparação e Emprego de Força de Paz do Comando de Operações Terrestres (COTER). São anualmente cerca de três meses para instrução de pessoal para este tipo de missão. Atinge desde Direito Internacional a idiomas, passando por primeiros socorros e instruções específicas de infantaria para uma tropa que vai operar na manutenção da paz. Essas instruções são: segurança de instalações, check-point, escolta de comboio, patrulhamento diurno e noturno, a pé, motorizado e mecanizado.
Em 2003, estive junto com oito oficiais em Buenos Aires realizando um exercício multinacional de Estado-Maior, onde estavam presentes representantes de quase todos os países da América do Sul e Estados Unidos. Lá gerenciávamos virtualmente operações com uso de força de paz. Em fevereiro desse ano, com o agravamento da situação no Haiti e a solicitação de tropas brasileiras, tivemos cerca de trinta dias para reunir todos os meios necessários de pessoal e material para completar um batalhão de 750 militares, que é o padrão da ONU.
Defesanet: Como foi a recepção quando o Batalhão chegou a Porto Príncipe? Ten.Cel Izaias: Os haitianos gostam muito dos brasileiros, embora muitos não saibam nem onde se situa o Brasil. Essa empatia é por causa do futebol e devido à formação multiracial de nossa sociedade. Embora os nossos soldados não falassem o francês, não tinham dificuldade em se comunicar. Lá, muitas pessoas falavam o espanhol, pois no país vizinho, a República Dominicana, essa é a língua oficial. Nós brasileiros fomos com o coração puro, com vontade de ajudar o povo haitiano, e eles perceberam isso e nos receberam muito bem. Quando tivemos o jogo pela paz, entre as seleções do Brasil e Haiti, as pessoas foram ao delírio. Ficaram maravilhadas com a boa vontade do brasileiro em trazer uma coisa nova para uma missão de força de paz, que era justamente o desejo e a emoção em querer resolver o problema além dos meios já utilizados. O brasileiro também é carismático. Houve uma intensa difusão de nossa cultura no país, já se pode até ouvir músicas em português no rádio.
Defesanet: Quais são as principais necessidades dos haitianos? Ten.Cel Izaias: O povo haitiano é muito necessitado. Possui um problema sério de infra-estrutura. Não tem água potável para toda a população. A energia é racionada e existe uma deficiência na coleta de lixo. Tudo isso é agravado pelas intempéries. Anualmente o país é assolado por cerca de seis furacões. Nós tivemos oportunidade de vivenciar um, em Gonaives, que fica à cerca de 140 km ao norte de Porto Príncipe. Mandamos um pelotão de trinta homens para fazer a segurança da base e auxiliar no resgate às vítimas.
Defesanet: Como eram as ações sociais realizadas pela Brigada Haiti? Ten.Cel Izaias: As ações sociais que nós fazemos são as chamadas ACISO (Ações Cívico Sociais), que consistem na distribuição de cestas básicas em determinados locais e períodos do dia. Realizávamos em torno de três ações semanais, sejam em escolas, creches ou áreas onde a população é mais carente.
Como foi trabalhar com contingentes de outros países? Ten.Cel Izaias: Inicialmente, a integração foi grande no nosso próprio Ministério da Defesa, porquê Exército e Marinha trabalhavam próximos, desfrutando das mesmas idéias e compreendendo como a outra força atua. Tínhamos também próximos as forças do Sri Lanka e Guatemala. As aeronaves que voávamos eram chilenas e argentinas. O hospital era argentino, onde levamos alguns militares do batalhão e sentimos o profissionalismo deles. Realmente foi uma experiência nova e gratificante o convívio com forças armadas estrangeiras. Era unânime a certeza de que nós não deixamos nada a desejar em relação aos outros exércitos. Estamos extremamente preparados. Uma coisa que fomos destaque foi na segurança do porto da Capital. Foi visível o aumento do número de navios que atracavam depois que as tropas brasileiras tomaram a área. Montamos um check-point na saída do porto e comprovamos o aumento no trânsito de veículos.
Defesanet: Os argentinos e chilenos foram para o Haiti com um enfoque de imposição da paz. Como foi a relação com eles? Ten.Cel Izaias: O nosso convívio com eles foi em Porto Príncipe. Eles atuavam operando helicópteros. Mandamos um pelotão para Gonaives, onde funcionava uma guarnição argentina. Aparentemente nossa relação foi muito boa. Naquele momento de calamidade, o mais importante é a união e cooperação, e isso foi uma característica da MINUSTAH.
Defesanet: Como foi lidar com a saudade da família e a distância do Brasil? Ten.Cel Izaias: Essa, a gente sabia que ia ser difícil. Mas com a tecnologia de hoje todos tinham acesso a computadores conectados na internet, e dispunham de cartões da HAITEL que é a companhia telefônica haitiana.
No final da missão, após a quarta mudança de base, a EMBRATEL instalou um link que possibilitava a ligação Haiti - Brasil como se fosse uma chamada local, e todos os militares do batalhão tinham direito há 10 minutos por dia, para falar com sua família. Isso diminuía a tensão e a saudade, além de tranqüilizar a família, já que chegavam muitas informações desconexas sobre a situação no país.
Defesanet: As informações sobre a situação no Haiti eram escassas, o que deixava os familiares ansiosos. Como foi trabalhar com isso? Ten.Cel Izaias: Para minimizar essa ansiedade, a cada quinze dias havia um vôo da Força Aérea Brasileira de suprimento, onde iam e vinham as cartas dos familiares e soldados. Era muito gratificante saber como estava nossa família, saber que nosso batalhão estava operando normalmente, tendo um Major no comando e quase vinte oficiais, cumprindo todas as determinações do comando da 8ª Brigada de Infantaria Motorizada, (Pelotas-RS). Isso tudo nos deixava mais tranqüilo.
Defesanet: Como era o dia-dia dos militares no Haiti? Ten.Cel Izaias: Muito parecido com a rotina diária de um quartel. Às 6:30h da manhã tínhamos a Alvorada, que era executada por um corneteiro que levamos daqui. Após eram realizadas as formaturas, início do expediente, almoço, retorno ao serviço, ao fim da tarde fazíamos educação física e à noite uma reunião sobre o resultado das patrulhas e atividades do dia. Isso era posteriormente reportado ao comando da Brigada Haiti.
Defesanet: Quando foi o momento de maior tensão? Ten.Cel Izaias: Foi justamente entre o final de setembro e o início de outubro, quando os partidários do ex-presidente Jean Bertrand Aristide começaram a se organizar, provocando distúrbios na cidade como forma de mostrar a insatisfação com o governo provisório, e o desejo do retorno de Aristide ao poder.
A área de Bel Air fazia parte de nossa alçada. Uma região pobre que concentra a maioria dos seguidores do ex-presidente. No começo de outubro fizemos uma operação de cerco em apoio Polícia Nacional Haitiana, que tinha o objetivo de acalmar os ânimos dos insurgentes. Nesse momento recebemos tiros e um soldado nosso foi ferido no pé. Foi um momento de muita tensão porque realmente a gente percebeu que poderiam acontecer coisas mais graves.
Defesanet: Chegaram a ter um confronto direto? Ten.Cel Izaias: Não houve um confronto direto, porque num combate urbano você não consegue enxergar bem as pessoas do outro lado, que escondem nas janelas e trocam muito de posição. Mas o cerco era para que a PNH fizesse o confronto direto, como determina a resolução 1542 da ONU, que prevê que as tropas da MINUSTAH devem criar as melhores condições para implantar no Haiti um ambiente seguro e estável. Nessa operação foram presos mais de oitenta suspeitos, alguns deles com prováveis ligações com as gangues.
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