COBERTURA ESPECIAL - OTAN - Defesa

02 de Maio, 2018 - 15:00 ( Brasília )

"Boa ocasião para Europa reduzir gastos militares"

Relatório indica que o mundo investe cada vez mais em aparato armamentista, com destaque para EUA, China e Oriente Médio. No entanto, Rússia vai na contramão. Especialista do Sipri aconselha europeus a fazerem o mesmo.

O recém publicado relatório do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri) confirma um aumento de gastos militares em nível global. Apesar de discrepâncias regionais, é patente a tendência de investir mais em armas, assim como o papel de destaque de players como os Estados Unidos, a China e países do Oriente Médio.

Em entrevista à DW, Pieter Wezeman, pesquisador-chefe do programa de estudos Transferência Armamentista e Gastos Militares do Sipri, analisa os números contidos no relatório.

Em relação ao surpreendente recuo nos gastos armamentistas da Rússia, ele questiona se não teria chegado "o momento apropriado para [os europeus] igualmente imporem limites aos próprios gastos militares, e assim demonstrar a disposição a resolver o conflito [com os russos] por outros meios".

DW: Em seu relatório sobre os gastos militares mundiais em 2017, o Sipri constatou um pequeno incremento: foram investidos 1,739 trilhão de dólares para fins militares, 1,1% a mais do que em 2016. Isso é muito ou pouco?

Pieter Wezeman: Considerando as imprecisões estatísticas e o fato de que os dados nunca são absolutamente confiáveis, pode-se dizer que se trata de um acréscimo mínimo. Mas também está claro que os gastos militares globais se mantiveram num nível bem alto. Vemos diferenças bastante significativas, no nível regional...

... por exemplo, na China: lá os gastos cresceram 5,6%, totalizando 228 bilhões de dólares.

Sim. Mas isso está alinhado com os incrementos observados nos últimos 20 anos, em que o orçamento militar tem acompanhado o crescimento do PIB. Não se trata de uma dinâmica especialmente dramática. No entanto, a China tem o segundo maior investimento militar de todo o mundo. Está bem atrás do maior investidor, os Estados Unidos, mas também muito à frente dos países nas posições seguintes.

O que se pode deduzir, a partir daí, sobre as ambições políticas chinesas?

A China é, justamente, um país muito grande, com uma economia muito grande. Ela não quer só ser uma superpotência na região, mas também em âmbito global, tem grandes aspirações, que também se refletem nos gastos militares.

Os EUA igualmente apresentaram gastos mais altos. Eles investem mais em sua força militar do que todos os sete países seguintes no ranking do relatório, juntos. O que isso significa?

O presidente americano, Donald Trump, já impôs um orçamento militar maior, mesmo enfrentando considerável oposição, pois há nos EUA vozes influentes que exigem uma redução dos gastos. Mas, por enquanto, Trump se impôs. Também nos próximos anos se deve contar com gastos mais elevados.

Os gastos no Oriente Médio são especialmente altos: lá estão sete dos dez Estados onde é mais alta a relação entre os investimentos armamentistas e o Produto Interno Bruto. Entre eles estão Omã, Arábia Saudita e Kuwait, mas também Jordânia, Israel e Líbano. Como vê a tendência militar na região?

A Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar estão dispostos a alocar parcelas bem significativas de seu PIB nos orçamentos militares nacionais. Na Arábia Saudita são mais de 10%. Isso expressa de forma muito exata como esses países veem a própria posição na região.

No caso saudita, a cifra também reflete o quanto o país está de olho em seu principal concorrente, o Irã. As guerras na Síria e no Iêmen mostram, além disso, que esses países não só elevam seus gastos, como também estão prontos a empregar essas armas para alcançar suas metas.

O Irã, em contrapartida, investe somas relativamente pequenas no aparato militar. Entretanto isso pode mudar: o Irã está, de fato, pretendendo elevar seus gastos, mas sua atual situação econômica não o permite.

O continente africano acusa um recuo mínimo, de 0,5%. Como se explica isso?

Há motivos bem diversos. Por exemplo, Angola reduziu seus gastos. Isso se deve aos preços baixos do petróleo, que, é claro, também afetam o país. O mesmo se aplica a alguns outros países africanos que dependem do faturamento com o petróleo.

No entanto, os gastos militares também aumentaram em outros países da África, como por exemplo no Sudão. Os combates entre as tropas governamentais e os rebeldes se intensificaram. Isso também se expressa nitidamente nos gastos militares de Angola e outros. No total, porém, há grandes diferenças de um país para outro.

Na Europa Central, os investimentos militares tiveram incremento de 12%; na Europa Ocidental, de 1,7%. Isso está relacionado à sensação de ameaça pela Rússia?

Os Estados europeus reagem dessa maneira a desdobramentos percebidos como ameaçadores, sobretudo a situação na Ucrânia. De fato, nos últimos dez anos a Rússia elevou substancialmente seus gastos militares. Assim, as nações europeias se veem, por sua vez, forçadas a aumentar seus gastos – a Polônia, por exemplo. Também a Otan, afinal, aumentou seu contingente militar na região.

Contudo é preciso enfatizar que a Rússia não manteve o aumento de seus gastos militares, até mesmo os refreou, em comparação com os anos 2016-2017. É preciso levar esses números mais em consideração quando agora se fala na Europa de reforçar os gastos com defesa. Estaria até mesmo na hora de se perguntar se agora não chegou o momento apropriado para igualmente impor limites aos próprios gastos militares, demonstrando, assim, que se está disposto a resolver o conflito por outros meios.