COBERTURA ESPECIAL - OTAN - Geopolítica

21 de Março, 2017 - 10:30 ( Brasília )

Como a Alemanha contribui para a OTAN

Tuítes de Trump lançaram sombra sobre o real engajamento de Berlim na Aliança Atlântica. Estado-membro desde 1955, ela é hoje a segunda maior contribuinte financeira e participante ativa com pessoal e equipamento.

Os gastos com a segurança nacional se transformaram num pomo da discórdia na política da Alemanha, com os representantes das legendas da coalizão governamental – o Partido Social-Democrata (SPD) e a União Democrata Cristã (CDU) – defendendo posições antagônicas, já no clima das eleições gerais de setembro.

A chanceler federal Angela Merkel e ministra da Defesa Ursula von der Leyen, ambas da CDU, se comprometeram a elevar até 2024 o orçamento correspondente aos 2% do PIB propostos pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Em contrapartida, o ministro do Exterior e vice-chanceler federal Sigmar Gabriel, do SPD, diz duvidar que seja efetivo elevar os gastos no setor "dessa forma", sem levar em conta outros fatores determinantes na avaliação do orçamento militar.

Nesta segunda-feira (20/03), o deputado Norbert Röttgen, da CDU, atacou os comentários de Gabriel. Ao jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, declarou que os social-democratas, e mais ainda o ministro do Exterior, "não deveriam usar essa questão como tema de campanha eleitoral nacional, e sim ser responsáveis pela Alemanha".

A polarização em torno do tema defesa parte do ultimato do presidente americano, Donald Trump, para que os Estados-membros adotem o teto mínimo de 2% do Produto Interno Bruto para seus gastos militares. Se não o fizerem, Washington ameaça retirar seu comprometimento total com a aliança.

Após uma conferência dos ministros da Defesa dos países da OTAN em Bruxelas, em fevereiro, o secretário americano da Defesa, James Mattis, confirmou que seu país cumpriria suas responsabilidades, mas se as demais nações "não quiserem ver a América moderar seu engajamento por esta aliança, cada uma de suas capitais precisa mostrar apoio a nossa defesa comum".

Independente da tensão assim criada dentro da Aliança Atlântica, fato é que em 2014 os Estados-membros já haviam concordado em alcançar essa porcentagem até 2024, com base na promessa feita em 2006 de "se comprometer com um gasto mínimo de 2% de seu PIB para a defesa":

As tensões se reacenderam na sequência da visita da chanceler federal alemã, Angela Merkel, a Washington, quando Trump escreveu no Twitter que "a Alemanha deve vastas somas de dinheiro à OTAN, e tem que se pagar mais aos Estados Unidos pela poderosa, e muito cara, defesa que proporciona à Alemanha".

A ministra Ursula von der Leyen, que é a favor da meta dos 2%, divulgou um comunicado nesta segunda-feira, no sentido de que "não há qualquer conta em que estejam registrados débitos com a OTAN". Analistas confirmam que a aliança não funciona dessa forma, não tendo qualquer prerrogativa a verbas, para fins de defesa ou outros.

Maiores contribuintes

Segundo a OTAN, os gastos dos EUA com defesa correspondem a 72% das verbas dedicadas a esse fim no contexto da Aliança Atlântica.

"Isso não significa que os Estados Unidos cubram 72% dos custos envolvidos na operação da OTAN como organização, incluindo seu quartel-general em Bruxelas e seus comandos militares subordinados", declarou a organização.

"Mas significa, sim, que há um excesso de confiança da parte da aliança, como um todo, nos EUA como provedor de capacidades essenciais, por exemplo, no tocante a inteligência, vigilância e reconhecimento; reabastecimento aéreo; defesa balística de mísseis; e armamento eletrônico aéreo."

Enquanto Washington é o maior contribuinte "para os orçamentos e programas de financiamento comum", com 22%, Berlim vem em segundo lugar, arcando com quase 15% dos orçamentos civil e militar do programa de investimento em segurança da OTAN para 2016 e 2017.

Terceiro e quarto maiores contribuintes, a França e o Reino Unido são responsáveis, respectivamente, por 10,6% e 9,8% dos orçamentos e programas de custos partilhados.

 

Mais do que dinheiro

Mas os alemães fornecem mais do que recursos financeiros à aliança. "A Alemanha tem contribuído com cerca de 4.700 homens para operações em curso, para as quais a arquitetura de segurança da OTAN, a União Europeia, as Nações Unidas e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) formam o quadro", informa a quartel-general da OTAN.

Em fevereiro, 450 soldados e 30 tanques da Bundeswehr chegaram à Lituânia, como parte da presença reforçada da OTAN na região do Mar Báltico. Em 2016, no auge da crise dos refugiados, o país forneceu o principal navio de apoio para a missão da organização no Mar Egeu, com o fim de "conduzir reconhecimento, monitoramento e vigilância de travessias ilegais", nas águas territoriais gregas e turcas.

Berlim tem aproximadamente 980 soldados estacionados no Afeganistão, para a missão Apoio Resoluto, da OTAN, cujo escopo é "treinar, assessorar e assistir as forças de segurança e instituições afegãs", após o fim de uma década da missão da Isaf.

A Alemanha é, ainda, a segunda maior contribuinte da força da OTAN no Kosovo, KFOR, com 550 militares cuja tarefa é manter "um ambiente seguro" na região. A Alemanha Ocidental (RFA) se filiou oficialmente à Aliança Atlântica em 1955, integrando também a Alemanha Oriental em (RDA) em 1990, no decorrer da reunificação do país.

Ministra alemã defende comprometimento
internacional dos EUA

A ministra alemã da Defesa, Ursula von der Leyen, afirmou nesta sexta-feira (17/02), na abertura da Conferência de Segurança de Munique, que o mundo o mundo necessita que os Estados Unidos estejam comprometidos globalmente e conscientes de sua responsabilidade.

Von der Leyen se referiu à necessidade de unidade entre os países-membros da OTAN depois de o secretário de Defesa dos Estados Unidos, James Mattis, ter ameaçado nesta semana "moderar seu comprometimento" com a aliança caso os demais membros não elevem seus gastos com segurança.

A ministra afirmou que a Alemanha está ciente de que precisa elevar seus gastos com defesa. "As crises e conflitos têm aberto nossos olhos: quem quer segurança precisa de poder e capacidade. Quem quer segurança precisa de alianças confiáveis", ressaltou.

Mas, além de defender que os países-membros paguem mais, ela também deixou claro que pertencer à aliança requer não colocar em questão o artigo 5, que exige uma reação dos demais quando um aliado tem problemas.

Ao lado de Mattis na cerimônia de abertura da conferência, Von der Leyen declarou ainda que os valores da OTAN "não deixam nenhum espaço para tortura, obrigam a evitar que se façam vítimas civis e estabelecem que quem necessita recebe proteção".

A ministra alemã destacou que é preciso buscar uma nova relação da OTAN com a Rússia. Ela reconheceu a importância dos EUA na aliança e garantiu que os alemães estão conscientes de que devem investir de forma constante em segurança e assumir mais relevância no contexto europeu e transatlântico.

"Uma União Europeia estável e também uma OTAN coesa é algo que favorece os interesses dos Estados Unidos", afirmou. A UE participa de 17 missões civis e militares. A ministra reconheceu que é necessário melhorar o planejamento, a gestão conjunta das operações e o financiamento de projetos comuns de armamento.

Para Von der Leyen, são necessários esforços conjuntos contra os terroristas do grupo "Estado Islâmico" (EI), mas também precaução diante da crescente discriminação de muçulmanos. "Devemos ser cautelosos para não transformar essa luta num combate contra o islã e os muçulmanos, caso contrário corremos o risco de aprofundar as trincheiras onde a violência e o terrorismo crescem. É apropriado buscar parcerias com países muçulmanos e árabes", disse.


VEJA MAIS