COBERTURA ESPECIAL - OTAN - Geopolítica

17 de Janeiro, 2017 - 11:00 ( Brasília )

Governo alemão rebate críticas de Trump

"Temos nosso destino em nossas mãos", diz Merkel sobre a UE. Vice-chanceler vê conexão entre intervenção americana no Iraque e crise dos refugiados. Ministro do Exterior afirma que declarações causam espanto e apreensão.

O governo da Alemanha rebateu nesta segunda-feira (16/03) as críticas feitas pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, à sua política de refugiados, bem como à OTAN e à União Europeia (UE).

"Acho que nós, europeus, temos nosso destino em nossas mãos. Continuarei me empenhando para que os 27 países-membros trabalhem juntos de forma intensa e orientados para o futuro", disse a chanceler federal Angela Merkel, durante uma entrevista em Berlim, após receber o premiê da Nova Zelândia, Bill English.

Em entrevista aos jornais alemão Bild e britânico The Times, o republicano disse que a OTAN estava obsoleta, elogiou a saída do Reino Unido da União Europeia e culpou a política de refugiados de Merkel pelo atentado em Berlim.

Em relação às críticas sobre sua política para refugiados, Merkel disse que o combate ao terrorismo é um desafio para todos. "Eu vou, mais uma vez, separar isso claramente da questão dos refugiados." Ela acrescentou que muitos sírios deixaram seu país por causa do terrorismo e não apenas por causa da guerra civil.

O ministro alemão do Exterior, Frank-Walter Steinmeier, disse que as declarações de Trump causaram espanto e apreensão, e não apenas em Bruxelas, onde fica a sede da OTAN. Steinmeier, que se encontrou em Bruxelas com o secretário-geral Jens Stoltenberg, disse que a aliança militar recebeu as declarações com preocupação. O ministro alemão acrescentou ainda que elas não condizem com a opinião do futuro secretário americano de Defesa, James Mattis.

Já o vice-chanceler Sigmar Gabriel afirmou que há uma conexão entre as intervenções americanas no Oriente Médio, especialmente no Iraque, e a crise dos refugiados, acrescentando que é a Europa que é obrigada a se confrontar com o fluxo migratório daí resultante, e não os Estados Unidos.

Unidade entre os europeus

O ministro do Exterior da França, Jean-Marc Ayrault, também destacou a união da União Europeia ao comentar as declarações do presidente eleito. "A melhor resposta à entrevista de Trump é a unidade dos europeus", disse Ayrault em Bruxelas. "A melhor maneira de defender a Europa, que é um convite que fazemos a Trump, é permanecermos unidos, formarmos um bloco, não esquecermos que a força dos europeus é sua unidade", disse Ayrault, ressaltando que espera, em breve, reunir-se com o futuro secretário de Estado americano para tratar de temas como as sanções a Moscou, a questão ucraniana, o acordo nuclear com o Irã e o acordo de Paris sobre as mudanças climáticas.

A presidente da Lituânia, Dalia Grybauskaite, disse esperara continuidade do futuro governo americano e pediu que Trump mantenha as obrigações financeiras dos EUA com a OTAN. "Desde a Segunda Guerra, a presença de tropas americanas é um pré-requisito para reconstruir o continente e garantir a paz e a segurança", destacou.

O ministro do Exterior da Dinamarca, Anders Samuelsen, aproveitou para criticar a forma como Trump tem usado as redes sociais para fazer anúncios políticos. "Passaremos [após a posse do presidente americano] da diplomacia do Twitter para a realidade, que é talvez mais difícil do que está acontecendo no Twitter", afirmou.

Não só críticas

Apesar de algumas críticas, as declarações de Trump foram bem recebidas no Reino Unido. O secretário britânico do Exterior, Boris Johnson, disse ter recebido com satisfação os comentários sobre a intenção de fechar acordos bilaterais com os EUA. "A vontade dos Estados Unidos de fechar um bom acordo de livre-comércio conosco é uma ótima notícia. Queremos isso logo", disse Johnson.

Trump tacha OTAN de "obsoleta" e preocupa líderes europeus

A cinco dias de tomar posse, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, provocou tensão nos meio diplomáticos internacionais ao criticar a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança de defesa ocidental criada durante a Guerra Fria. Em entrevista conjunta publicada neste domingo (15/01) pelo tabloide alemão Bild e o diário britânico The Times of London, o magnata também sugeriu uma reaproximação com a Rússia, além de traçar um prognóstico nada otimista para a União Europeia.

"Há tempos eu disse que a OTAN tinha problemas. Em primeiro lugar, está obsoleta, porque foi criada anos atrás. Em segundo, os países não estão pagando o que deveriam pagar", afirmou o republicano, referindo-se às contribuições que cabem a cada membro. Ele alega que apenas cinco países têm contribuído, enquanto os EUA respondem por 70% dos gastos do bloco.

As declarações de Trump repercutiram em solo europeu. Segundo o ministro alemão do Exterior, Frank-Walter Steinmeier, seus comentários foram recebidos com preocupação na OTAN. "Isso vai contra o que o secretário americano da Defesa disse recentemente em sua audiência em Washington, e teremos que analisar quais serão as consequências para a política americana."

Moscou, no entanto, demonstrou sintonia com o futuro presidente. Em coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, declarou que há tempos que a Rússia vem dizendo o mesmo.

Durante a entrevista, Trump também sugeriu uma reaproximação com o governo de Vladimir Putin, afetado por uma série de sanções durante a administração do democrata Barack Obama, em reação às intervenções russas na Crimeia e no leste da Ucrânia.

"Vamos ver se podemos fazer bons negócios com a Rússia", disse o republicano, sugerindo um acordo no qual os arsenais nucleares seriam reduzidos e as sanções contra Moscou, aliviadas, mas sem dar maiores detalhes. O Kremlin tampouco se pronunciou sobre um eventual acordo.

Política de refugiados

Trump também aproveitou a entrevista para condenar a política de refugiados da chanceler federal alemã, Angela Merkel. "Acho que ela cometeu um erro extremamente catastrófico em receber todos esses ilegais, você sabe, aceitando todas as pessoas de onde quer que elas venham. E ninguém sequer sabe de onde elas vêm. Então acho que ela cometeu um erro catastrófico, um erro muito ruim."

Em 2015, cerca de 1 milhão de migrantes, a maioria proveniente da Síria, entraram na Alemanha após Merkel abrir as fronteiras do país. Para o republicano, a Alemanha pôde obter uma "boa ideia" das consequências de tais medidas após o atentado terrorista que deixou 12 mortos num mercado de Natal em Berlim, na noite de 19 de dezembro.

Apesar das críticas a Merkel, Trump afirmou nutrir "um grande respeito" pela premiê alemã, e prometeu começar seu governo tendo como base a confiança na "líder fantástica" que ela é.

Brexit como "algo grande"

O chefe de Estado eleito também culpou a política de portas abertas da Alemanha pelo resultado do referendo que, em junho último, decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia. Para Trump, a chegada de refugiados em 2015 foi "a última gota que fez o barril transbordar", e outros países ainda deverão abandonar o bloco por causa da imigração. "Se eles não tivessem sido forçados a receber todos esses refugiados, tantos assim, com todos os problemas que isso implica, acho que não teria havido o Brexit."

"Eu acho que é muito duro", prosseguiu. "Os povos e os países querem ter sua própria identidade, e o Reino Unido queria sua própria identidade. Se os refugiados continuarem jorrando em diferentes partes da Europa [...] acho que será difícil manter a unidade, porque as pessoas estão zangadas com isso".

O presidente eleito prometeu, contudo, transformar o Brexit em "algo grande". "Vamos trabalhar bastante para que seja feito de forma rápida e do jeito correto. Bom para os dois lados", anunciou, acrescentando que deverá se reunir com a premiê britânica, Theresa May, assim que tomar posse.