COBERTURA ESPECIAL - Nuclear - Geopolítica

22 de Outubro, 2018 - 11:00 ( Brasília )

Rússia ameaça retaliar se EUA se retirarem de tratado nuclear

Após Trump anunciar saída de pacto dos tempos da Guerra Fria, acusando Moscou de violá-lo, ministro russo classifica passo de "muito perigoso". Ministro do Exterior alemão também critica anúncio americano.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que seu país vai se retirar de um tratado de armas nucleares firmado com a Rússia nos tempos da Guerra Fria, fazendo com que Moscou ameaçasse neste domingo (21/10) adotar medidas de retaliação.

O Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF) – negociado em 1987 pelo então presidente americano, Ronald Reagan, e pelo líder soviético Mikhail Gorbachev – determinou a eliminação de mísseis nucleares e convencionais de curto alcance por ambos os países.

Foi o primeiro acordo para reduzir os arsenais nucleares e que levou à eliminação em 1991 de todos os mísseis balísticos e de cruzeiro de médio e curto alcance de ambas as potências, um passo essencial para pôr fim às tensões da Guerra Fria.

Trump alegou que a Rússia violou o pacto. "A Rússia infelizmente não honrou o tratado, então nós vamos encerrar o acordo e vamos nos retirar", disse o presidente a repórteres durante um comício em Nevada neste sábado. "Eles vêm violando o pacto há vários anos. Não sei por que o presidente [Barack] Obama não negociou ou se retirou [do acordo].

"O vice-ministro do Exterior russo, Serguei Ryabkov, afirmou neste domingo que uma retirada unilateral dos EUA do tratado seria "muito perigosa". Segundo ele, não restaria à Rússia outra opção senão retaliar com medidas de "natureza técnico-militar".

De acordo com agências de notícias russas, Ryabkov afirmou que o governo Trump está usando o tratado para chantagear o Kremlin, colocando a segurança global em risco numa tentativa de alcançar "supremacia total" na esfera militar. Ryabkov disse que Moscou vem cumprindo o tratado "de modo estrito" e alegou que Washington é quem está violando o acordo.

A imprensa americana havia antecipado que o assessor de segurança nacional de Trump, John Bolton, pressionou o presidente para sair do acordo, argumentando que a Rússia o violou. Bolton partiu neste sábado para Moscou, onde deve se reunir com altos funcionários do governo de Vladimir Putin. "Não vamos deixar que eles violem um acordo nuclear e façam armas e não nos permitam fazê-las", afirmou o assessor de segurança nacional.

Autoridades americanas reclamam do lançamento de mísseis do tipo 9M729 por Moscou, os quais Washington afirma que são capazes de percorrer mais de 500 quilômetros.

O tratado INF baniu mísseis capazes de percorrer distâncias ente 500 e 5.500 quilômetros. Em declarações divulgadas pelo jornal Financial Times, o ministro da Defesa britânico, Gavin Williamson, afirmou que Londres apoia Washington de maneira "resoluta" quanto à questão, e que o Kremlin está zombando do acordo.

Trump afirma que os EUA vão apostar nesse tipo de armas ao menos que a Rússia e a China concordem em parar de desenvolvê-las. A China não é signatária do tratado INF e, portanto, pode fabricar livremente armas nucleares de médio alcance.

As tensões entre Estados Unidos e Rússia vêm aumentando em meio a uma série de acusações que Moscou interferiu nas eleições presidenciais americanas de 2016. Os dois países também divergem quanto ao apoio do Kremlin ao governo sírio na guerra civil do país e quanto ao papel russo no conflito na Ucrânia.

Críticas alemãs O governo alemão criticou duramente o anúncio do presidente americano de retirar seu país do tratado de armas nucleares INF, afirmando que o acordo seria um instrumento importante para o controle de armamentos. O ministro alemão do Exterior, Heiko Maas, declarou neste domingo que os planos de Trump seriam "lamentáveis".

Maas afirmou que "pedimos também aos EUA para repensar as consequências." Segundo o ministro alemão, já há 30 anos, o INF é "um importante pilar de nossa arquitetura europeia de segurança" e que uma saída dos EUA do pacto de armas nucleares colocaria a Europa e a Alemanha diante de "questões difíceis", já que o tratado é de "elevada importância".

Tratado entre EUA e Rússia deve ser renegociado

Há pelo menos quatro anos que os Estados Unidos sabem que a Rússia tem violado o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), que proíbe mísseis nucleares terrestres capazes de percorrer distâncias entre 500 e 5.500 quilômetros. Os russos transformaram um sistema de mísseis aprovado, o Iskander, num proibido, o SSC-8.

Diante de tais acusações do Ocidente, os russos reagem da forma que sempre fizeram: primeiramente negam que os novos sistemas sejam proibidos pelo acordo, depois apontam o dedo para o outro lado, por exemplo afirmando que a OTAN está fazendo o mesmo com seu sistema de defesa antimísseis na Romênia.

Segundo os russos, embora se afirme que tal sistema esteja direcionado contra armas iranianas, ele poderia ser usado como sistema de ataque contra a Rússia, e Moscou teria que reagir a isso.

Com em tantas outras vezes, há algo de verdade em ambas as versões. A única pergunta que resta é como lidar com isso. Como se sabe, Donald Trump não é uma pessoa de nuances. Ele só consegue fazer uma coisa: gritar e ameaçar. O orgulho dos russos, por outro lado, exige que eles respondam também gritando.

Trump quer marcar pontos entre seus eleitores pouco antes das eleições de meio de mandato, e Putin tem que revidar para não parecer um covarde diante de seus compatriotas.

Essa fanfarronice entre dois machos alfa está levando o mundo de volta ao início dos anos 1980, época da grande corrida armamentista entre a OTAN e o Pacto de Varsóvia. O tratado INF, de 1987, foi na ocasião um marco porque apontava uma saída para a espiral armamentista.

Naquela época, eu era um estudante universitário. Para mim, a destruição dos mísseis Pershing II, pelo lado ocidental, e SS 20, pelo Leste, foi um passo importante para a paz e a reconciliação. E eu não gostaria de voltar ao início da década de 1980.

No entanto, encontrar uma saída seria algo relativamente fácil: em vez de rescindir o acordo, a OTAN e a Rússia deveriam se reunir, como fizeram no passado, e deliberar sobre como o tratado poderia ser salvo. Muitos vão agora se mostrar pessimistas e dizer que falta confiança mútua: os russos anexaram a Crimeia e atacaram o leste da Ucrânia – como se pode confiar neles?

Pelo lado da Rússia, vai-se dizer "como se pode confiar na OTAN?", considerando que a aliança ocidental está realizando as maiores manobras desde o fim da Guerra Fria na Escandinávia e está estacionando cada vez mais soldados e armas na sua fronteira oriental?

Por outro lado, em 1987, a confiança mútua entre Rússia e Ocidente não era particularmente forte. Mesmo assim, tornou-se o mundo mais seguro diminuindo o número de armas. Hoje isso também é possível. Então sentem à mesa e negociem!