COBERTURA ESPECIAL - Nuclear - Geopolítica

22 de Setembro, 2015 - 19:00 ( Brasília )

Papa Francisco se posiciona em favor do fim dos arsenais nucleares


Por Joe Cirincione e Tom Collina – Texto do Defense One

Tradução, adaptação e edição – Nicholle Murmel

O Papa Francisco está operando uma mudança crucial na doutrina da Igreja no que se refere à aceitação das armas atômicas, e alguns não vão gostar.

A Igreja Católica defendeu durante muito tempo que esses armamentos deviam ser eliminados da face da Terra.

O Papa João XXIII, agora canonizado, escreveu em 1963: “armas nucleares precisam ser banidas. É preciso chegar a um consenso geral acerca de um programa adequado de desmantelamento”. A Igreja e a Associação de Bispos Católicos dos Estados Unidos trabalharam ativamente em apio ao controle desses armamentos, assim como a formulação de acordos de desarmamento, incluíndo o acordo firmado com o Irã este ano, o novo tratado START assinado em 2010 entre EUA e Rússia e o tratado de 1996 banindo testes.

Quando Francisco discursar em Nova York, ainda esta semana, ele provavelmente levará esse posicionamento da Igreja para o próximo nível. Ele pode declarar que a posse de qualquer arma atômica é imoral. Ninguém deveria ter esse tipo de arsenal, em momento algum e por nenhum motivo.

Até então, a Igreja Católica abominava o caráter desumano dessas armas que atingem indiscriminadamente civis inocentes e os exterminam em massa. Mas – até agora – a instituição reconhecia uma necessidade de os Estados terem esses instrumentos para deterem ataques uns dos outros.

Mas isso vai mudar.  

Em uma mensagem enviada em dezembro de 2014 para uma conferência sobre os impactos humanitários das armas atômicas, o Pontífice escreveu: “A dissuasão nuclear e a ameaça de aniquilação mútua não podem ser base para uma ética de fraternidade e coexistência pacífica entre opovos e nações”.

Na semana passada, a Igreja foi ainda mais direta: ao ler um comunicado da Santa Sé, o porta-voz de Francisco declarou:

Os arsenais atômicos do mundo diminuíram muito desde o auge da Guerra Fria, mas continuam sendo excessivos. Além disso, as lógicas estratégicas ambíguas que justificam a manutenção e mesmo reforço desses arsenais ainda inchados são moralmente problemáticas.

Dissuasão nuclear não pode ser a base para a coexistência pacífica entre povos e nações no século 21, uma vez que esse [esse poder] é incapaz de responder de forma ampla e adequada aos desafios da segurança em nosso tempo. Além do mais, há o risco de um uso que poderia ter consequências humanitárias severas.

Em vez de ser um passo em direção ao desarmamento atômico, a dissuasão por meio dessas armas se tornou um fim em si mesmo, e um risco que compromete os esforços de não-proliferação e anula progressos reais no rumo de um mundo livre de armas nucleares.

Caso ainda houvesse alguma dúvida do posicionamento do Papa Francisco, um comunicado divulgado pelo Vaticano também em Dezembro de 2014 afirma:

Por fim, é preciso admitir que a simples podde de armas atômicas, mesmo que para fins de dissuasão, é moralmente problemática. Se por um lado cresce o consenso de que qualquer uso dessas armas é radicalmente incoerente com as demandas da dignidade humana, no passado a Igreja, mesmo assim, expressava uma aceitação provisória desses aresenais para dissuasão, sob a condição de que se tratavam de um passo rumo ao desarmamento progressivo. Essa condição não foi preenchid – muito pelo contrário. Na ausência de progresso nesse sentido e sem passos concretos rumo a uma paz mais segura e genuína, o status das armas atômicas perdeu muito de sua legitimidade.

Esperem que o Papa Francisco seja mais direto esta semana em Nova York, já que ele discursará para uma sessão conjunta do Congresso americano e da Assembleia da ONU. Essa postura não vai agradar às aguias pró-nuclear do Congresso e ao governo americano – um resforço avaliado em um trilhão de dólares para o arsenal atômico dos EUA já está em andamento. Alguns parlamentares pedem por novas armas com novas missões, e lideranças do governo continuam a insistir na importância das bombas.

Ao defender o orçamento nuclear na semana passada, o secretário de Defesa americano, Ash Carter, declarou que “dissuasão nuclear é essencial... É o alicerce, o fundamento, precisa permanecer saudável e todos sabemos que precisamos de investimentos adicionais, tanto na Marinha e, mais importante, na Força Aérea”.

O Pontífice, por outro lado, argumenta que “gastar em armas atômicas desperdiça a riqueza das nações”. Enquanto Washington parece presa em paradigmas da Guerra Fria, o Vaticano parece ter uma análise estratégica mais moderna, apontando que armas nucleares não respondem a nenhuma das ameaças reais aos Estados e à Humanidade.

O presidente Barack Obama, pessoalmente, tem uma posturma mais próxima à de Francisco. Em 2009 ele declarou: “eu afirmo claramente e com convicção o compromisso da América em buscar a paz e segurança de um mundo sem armas atômicas”. Mas Obama se afastou dessa meta ao permitir que os programas de aquisição e modernização do Pentágono continuem a passos largos como se a Guerra Fria já não tivesse acabado.

Como diria o Papa, nunca é tarde para a salvação. E Francisco pode ser pacaz de oferecer mais do que orientação espiritual e estratégica. A Igreja Católica dos EUA, através de seus bispos e paróquias, pode falar diretamente com um quarto da população que segue o Catolicismo, com 130 deputados católicos, cerca de 25 senadores e com o primeiro vice-presidente católico na história do país.

Com esse apoio e pouco mais de um ano de mandato restando, Obama ainda tem tempo de colocar seu barco político na rota divina.