COBERTURA ESPECIAL - Nuclear - Geopolítica

12 de Outubro, 2005 - 12:00 ( Brasília )

EUA evitam novo atrito com Chávez

Washington reage com cautela a interesse venezuelano em central nuclear argentina e lembra Tratado de Não-Proliferação



Paulo Sotero
Com Ariel Palacios, de Buenos Aires

 

O governo dos EUA evitou especular ontem sobre o eventual fornecimento de um reator nuclear pela Argentina à Venezuela, noticiado no fim de semana pela imprensa de Buenos Aires, mas recordou aos dois países suas responsabilidades como signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP). "Esperamos que qualquer atividade relacionada a programa nuclear civil seja plenamente consistente com as obrigações (dos dois países) no TNP e respeite todos os acordos de salvaguardas", afirmou o porta-voz do Departamento de Estado, Adam Ereli.

O tom comedido da declaração sugere que os EUA não contribuirão para que o assunto se transforme em mais um tema polêmico entre Washington e Caracas, a menos de um mês da realização de uma reunião de cúpula dos líderes do hemisfério, na Argentina. Na administração americana há a preocupação de evitar dar munição ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, para que ele transforme o evento em palco de uma confrontação com o presidente George W. Bush e deixe o líder americano - que está hoje enfraquecido em casa pela guerra do Iraque, pelo efeito Katrina e por escândalos de corrupção em seu governo e partido - numa situação embaraçosa.

O fato de a direita religiosa, que é a base do presidente americano, ter reaberto as baterias contra Chávez, no fim de semana, torna o assunto especialmente delicado para Bush. No domingo, o reverendo Pat Robertson, que recentemente chegou a defender publicamente o assassinato de Chávez, acusou Caracas de estar buscando cooperação nuclear com o Irã com o objetivo de desenvolver uma arma para usar contra os EUA. A acusação foi feita depois que o governo venezuelano deu um solitário voto em favor do Irã na votação de uma resolução da Agência Internacional de Energia Atômica que condenou o programa nuclear iraniano.

Em qualquer caso, o vazamento da notícia sobre a possível cooperação nuclear entre a Argentina e a Venezuela foi recebido com grande perplexidade nos meios oficiais e diplomáticos da capital americana. Diplomatas admitiram que, se os entendimentos anunciados forem mais do que retóricos, o governo brasileiro terá necessariamente de interessar-se por eles e pedir explicações à Argentina, pois os dois países têm uma política nuclear comum, consagrada em tratados de cooperação e mecanismos de verificação considerados exemplares pela comunidade internacional.

Nos dois países diretamente envolvidos, a possível venda do reator não deixa de criar polêmica. Na Venezuela, o governo Chávez está dividido sobre a compra. O vice-presidente José Vicente Rangel confirmou a intenção venezuelana de comprar o equipamento. O ministro da Energia, Rafael Ramírez, negou que esteja havendo negociação. Os partidos de oposição assinalaram que a compra será um gasto absurdo.

O governo do presidente Néstor Kirchner também está dividido sobre a possibilidade de a empresa estatal Invap vender um reator a um governo como o de Chávez, intensamente criticado pelos EUA.

A polêmica começou no domingo, quando o jornal portenho Clarín, o mais importante da Argentina, informou, citando fontes do governo argentino, que o governo venezuelano tinha entrado em contato com o argentino para adquirir um reator modelo Carem, de potência média, para ser instalado na região petrolífera do Rio Orinoco.

No dia seguinte, o chanceler argentino, Rafael Bielsa, confirmou as informações extra-oficiais e manifestou o interesse do país em vender o reator. Bielsa considerou que os EUA não se irritariam com o negócio, assinalando que nos últimos anos a Argentina vendeu reatores a vários países e a Casa Branca nunca fez objeções.

Mas, entre segunda e terça-feira, foram divulgadas declarações de Ramírez indicando que "não está ocorrendo negociação nenhuma" sobre a compra de um reator argentino. Segundo ele, as negociações existentes restringem-se a acordos de cooperação científica.

No entanto, Rangel, homem de confiança de Chávez, afirmou que o governo venezuelano pretende adquirir o reator. Rangel especificou que se trata de "uma operação da corporação estatal PDVSA e o Ministério da Ciência e Tecnologia". Ele previu que os partidos da oposição criticariam o plano de compra do reator e tentariam dar uma conotação "bélica" ao uso que Chávez lhe daria. O partido antichavista Copei considerou que o negócio equivaleria a "dilapidar" o dinheiro dos venezuelanos.

Uma pesquisa realizada ontem pelo site do jornal econômico argentino Infobase, tradicional crítico do governo Chávez, indicou que 49,3% dos internautas consideram que a Argentina deveria vender o reator à Venezuela, já que "é bom que o país exporte tecnologia nacional". Já 48,31% sustentam que a Argentina não deveria fazer isso, já que "nas mãos de Chávez poderia ser perigoso para a paz continental".