COBERTURA ESPECIAL - Nuclear - Inteligência

29 de Janeiro, 2006 - 12:00 ( Brasília )

MOSSAD - É inevitável um ataque nuclear terrorista


"É inevitável um ataque nuclear terrorista"
Efraim Halevy chefe da Mossad entre 1998 e 2002

Publicado no jornal Expresso Portugal

 

"Na questão palestiniana, a minha opinião é que o Hamas tem de fazer parte do acordo", afirma numa entrevista exclusiva - a primeira a um meio de informação estrangeiro - Efraim Halevy, 72 anos, ex-chefe da Mossad (serviços secretos israelitas) entre 1998 e 2002, número dois da organização nos cinco anos anteriores e agente secreto durante 40. Trabalhou com cinco primeiros-ministros. Pessimista, o ex-agente afirma: "Não é possível chegar ao fim do conflito israelo-palestiniano nos próximos anos. A profundidade do ódio e da frustração dos dois lados impede uma mudança repentina.

Expresso - Concorda com o Hamas que a única coisa possível é chegar a uma "hudna", ou seja, uma trégua durante alguns anos?

Efraim
- Sim. "Hudna" significa abandono das armas, um entendimento muito detalhado que nos leva ao desarmamento, como ocorreu em 1949. Nessa ocasião, houve um acordo de desarmamento com os países árabes - e chegaremos agora ao mesmo com os palestinianos. Nestes acordos não se chega a uma solução definitiva do problema. Isso é deixado para mais tarde, mas concordamos num "modus vivendi" por determinado tempo e depois vemos onde chegamos.

Expresso - A Mossad quer impedir que o Irão tenha uma bomba nuclear até 2009. A sobrevivência de Israel está em risco?

Efraim
- A ameaça é muito grave, mas não é uma ameaça à sobrevivência, porque Israel não pode ser exterminado. Discutimos e analisamos as intenções iranianas há mais de 15 anos. Se quatro ou cinco chefes da Mossad estão cientes desta ameaça, tal como os cinco chefes do Estado-Maior e cinco primeiros-ministros durante os últimos 15 anos, é de supor que não ficámos de braços cruzados. E creio, com base na informação que tenho, que podemos combater esta ameaça se compreendermos que é uma ameaça e nos prepararmos. Contamos com muitos meios desconhecidos e com um conhecido, o Jetz, o nosso míssil antimíssil.

Expresso - Autorizou operações de elevado risco para os seus agentes, bem como para civis inocentes. Alguma vez lhe tremeu a mão?

Efraim
- Creio que uma pessoa que está disposta a ser chefe da Mossad tem que transmitir segurança, tem que mostrar que há riscos, mas também que, se houver algum problema, fará tudo para resgatar as pessoas envolvidas nessa situação. Está terminantemente proibido tremer. Suponhamos que aconteceu alguma coisa e que um grupo foi descoberto, detido ou simplesmente desapareceu. Todos se sentam à volta de uma mesa, expressam todo o tipo de opiniões e, no final, reina o silêncio e todos olham numa só direcção: para o chefe da Mossad. E este decide o que se faz. É uma decisão pessoal, não se trata de um processo democrático. É certo que tive muitas noites de insónia, em que recebi chamadas às 4 da manhã para me informarem que determinada operação tivera êxito.

Expresso - Como se mobiliza um espião a trabalhar num país inimigo? Até que ponto os agentes se assemelham a James Bond?

Efraim
- Não conheço ninguém na Mossad que se pareça com o 007. Ninguém. Os agentes são escolhidos segundo os idiomas que falam e a capacidade de se moverem com discrição. Devem ser capazes de suportar situações de tensão, não só físicas mas também mentais, e de pensar rápido. É uma arte, não uma ciência exacta. Pode-se ensinar a uma pessoa como misturar cores, mas não se lhe pode ensinar a desenhar como Picasso. A Mossad é muito mais pequena do que as pessoas julgam. É muito eficiente, rápida e sabe adaptar-se a novas situações.

Expresso - Sobre o terrorismo convencional e não-convencional, diz que o pior ainda está para acontecer. A que se refere?

Efraim
- Encontramo-nos em plena terceira guerra mundial. Recentemente participei num encontro entre os veteranos da segurança israelita e dos serviços secretos norte-americanos. A opinião reinante era de que, para terminar a guerra contra o terrorismo fundamentalista islâmico, serão precisos pelo menos 25 anos. Temos que compreender que estamos a falar de uma maratona. O mundo não o compreende. Uma pessoa caminha pelas ruas de Telavive, Barcelona ou Buenos Aires e não tem a sensação de que há uma guerra. Uma guerra mundial? Não vê que há actos de violência, que há falta de alimentos, que o tráfico internacional se deteve, que o comércio internacional se deteriorou. Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, toda o mundo sentia que havia uma guerra. Hoje ninguém está consciente dela. De tempos a tempos há um ataque terrorista em Madrid, em Londres, em Nova Iorque, e depois tudo continua na mesma. Há um mês, a chefe dos serviços secretos britânicos revelou que os ingleses tinham descoberto 1600 pessoas, identificadas como "colaboradores com o terrorismo", em 200 grupos distintos. Explicou que, desde o atentado em Londres, foram evitadas cinco operações terroristas. Se uma delas tivesse sido bem-sucedida, teria causado a morte de centenas ou milhares de pessoas.

Se falamos de uma guerra de 25 anos, é impossível pretender que o mundo livre possa evitar todos os atentados. Alguns terão êxito e poderão combinar elementos não-convencionais - nucleares, biológicos ou químicos. Não tem que ser uma coisa muito sofisticada, não tem que ser o último invento da tecnologia nuclear, pode ser algo simples como uma bomba suja, que em vez de matar milhões apenas mataria dezenas de milhares. É preciso ter consciência disto. O número de agentes dos serviços britânicos cresceu 50% desde 2001 e será duplicado até 2008. Hoje, podem estar a ser planeados 10 atentados. Basta que um ou dois tenham êxito para ser dramático. Não devemos sentir-nos deprimidos nem ver tudo negro. Temos que compreender a realidade. Quando a compreendemos, podemos actuar.

Expresso - Se pudesse voltar atrás, o que mudaria na política israelita?

Efraim
- Em 1972, recebemos vários sinais do Egipto para um acordo intermédio. Dissemos que não. Foi um erro.



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