O
COMBATE AO TERRORISMO
O
Antiterrorismo e o Contraterrorismo
Gen
Bda Res Álvaro de Souza Pinheiro
O
combate ao terrorismo é conduzido em duas grandes
vertentes: o antiterrorismo e o contraterrorismo. O antiterrorismo
compreende a condução das medidas de caráter
eminentemente defensivo que objetivam a redução
das vulnerabilidades aos atentados terroristas.
Já
o contraterrorismo compreende a condução
das medidas de caráter eminentemente ofensivo,
tendo como alvo as diversas organizações
terroristas em presença, a fim de prevenir, dissuadir,
ou retaliar atos terroristas.
As
atividades desenvolvidas pelos órgãos de
segurança nos aeroportos; as normas que regulam
o relacionamento entre passageiros e tripulações
nos vôos comerciais; a fiscalização
exercida pelos órgãos de controle de migração
e receita nos portos, aeroportos e fronteiras; a segurança
instalada na proteção aos serviços
públicos essenciais, bem como o patrulhamento das
principais vias de transporte e comunicações,
todas estão no contexto do antiterrorismo.
As
operações desencadeadas por elementos especializados
visando a captura de integrantes das organizações
terroristas, bem como aquelas efetuadas para liberar instalações
ou reféns que venham a cair sob o controle dessas
organizações, estão no contexto do
contraterrorismo.
A
condição indispensável para o êxito
é que o planejamento e a execução
das ações sejam baseados num sólido
e bem estruturado sistema de inteligência. A informação
precisa e oportuna, alicerçada numa análise
apropriada (resultado inclusive de um intercâmbio
adequado, pertinente e oportuno com as mais diversas agências
de inteligência internacionais) é o fundamento
básico de uma bem sucedida campanha de combate
ao terrorismo. A busca e a coleta multidisciplinares de
informações, envolvendo todas as áreas,
política, econômica, psicossocial, militar
e cientifico-tecnológica, são básicas
tanto na condução das operações
preventivas quanto nas repressivas.
Nesse
contexto, avulta a necessidade de uma plena integração
entre os órgãos voltados para a segurança
nacional e aqueles voltados para a segurança pública,
em todos os níveis, federal, estadual e municipal.
Há que se destacar que a experiência, cada
vez mais, tem demonstrado uma nítida preponderância
da inteligência humana sobre a de sinais e a de
imagens.
Entretanto,
combater o terrorismo tem se mostrado uma tarefa de crescente
complexidade, em função, sobretudo, do caráter
difuso e transnacional da atual ameaça terrorista.
O
que se observa, na atualidade, em muitos países,
é que significativa parcela da opinião pública,
não raro, tem demonstrado uma certa tendência
em visualizar com benevolência (quando não
simpatia) as ações terroristas de caráter
revolucionário. Quando os integrantes de uma determinada
organização realizam atividades caracterizadas
por níveis extremados de violência, inclusive
com baixas entre inocentes cidadãos comuns, desde
que se divulgue que as suas motivações foram
de ordem político-ideológica, isso por si
só, seria o suficiente para não mais enxergá-los
como hediondos assassinos frios e calculistas, mas, sim,
como heróicos combatentes que estão corajosamente
prontos a se imolar pelos mais nobres ideais de liberdade.
Uma
crescente antipatia, e até mesmo revolta, pelas
posições adotadas pela política de
relações exteriores do governo dos EUA tem
contribuído significativamente para que mesmo autoridades
governamentais manifestem o seu pretenso dilema, entre
considerar tais revolucionários como terroristas
ou como idealistas exemplares.
Por
outro lado,observa-se que, muito freqüentemente,
o noticiário internacional tem levado a opinião
pública de vários países a visualizar
as comunidades muçulmanas, de uma maneira geral,
como tremendamente perniciosas e, sobretudo, altamente
perigosas. Essa visão que, via de regra, origina-se
numa propaganda profundamente estereotipada, possibilita
o aparecimento, totalmente injustificado na maioria dos
casos, das mais torpes e covardes formas de preconceito.
Outro
aspecto que, não raro, a opinião pública
entende como altamente controvertido é o rigor
eventualmente verificado nas ações contraterroristas.
Nas
primeiras horas de 14 de outubro de 2001, um domingo,
um dos líderes do Hamas, Abdel Rahman Hamad, após
haver concluído as suas preces, colocou-se de pé
na cobertura de sua casa. Numa fração de
segundo, viu-se alvejado no peito por dois projéteis
que o mataram instantaneamente. Esta ação
executada por um atirador de escol israelense, foi o coroamento
de uma operação de inteligência de
alguns meses. Abdel Hamad era o coordenador das ações
envolvendo o emprego de terroristas suicidas de sua organização.
Eventos
como esse caracterizam um programa, identificado na mídia
internacional como "targeted killing" , conduzido
pelos órgãos de segurança israelenses,
extremamente relevante no contexto de sua campanha de
contraterrorismo. É importante ressaltar que as
autoridades israelenses jamais confirmaram a existência
de tal programa. As críticas a essa forma de conduzir
"a guerra contra o terror" têm se mostrado
bastante contundentes e originam-se em diferentes partes
do mundo, inclusive nos EUA (muito embora tenham arrefecido
nesse País, após o 11 de setembro).
Não
há dúvida de que procedimentos dessa natureza
contrariam ostensivamente qualquer política de
direitos humanos, bem como estão em confronto direto
com as leis internacionais. O dilema em questão
é como os órgãos de segurança
vão aproveitar de forma compensadora as raras oportunidades
de golpear decisivamente as organizações
terroristas que combatem, ao mesmo tempo em que evitem
que os líderes capturados venham a ser objeto de
ações terroristas futuras, que demandem
a sua libertação em troca por reféns?
Destaque-se
que as situações de resgate de reféns
são as mais críticas a serem enfrentadas
no contexto das operações contraterrorismo.
Estas não permitem outra opção que
não uma ação rápida e violenta,
baseada na surpresa e na ação de choque,
que não possibilite aos terroristas qualquer reação
contra os reféns. Não é por mero
diletantismo que as mais capacitadas unidades de Forças
Especiais do mundo adestram-se intensiva e o mais realisticamente
possível, num tipo de instalação
internacionalmente conhecida como "killing house",
visando estarem preparadas para eventos dessa natureza.
A
verdade é que tanto as operações
preventivas quanto as repressivas, freqüentemente
se deparam com complexas situações onde
está presente uma desconfortável ambigüidade
naquilo que se refere aos aspectos legais e morais. E
a realidade tem demonstrado que as decisões críticas
a serem tomadas devem estar nas mãos de autoridades
absolutamente conscientes de sua responsabilidade no que
se refere ao êxito ou ao fracasso do combate ao
terrorismo.