Programas
de Mísseis no Brasil
Eng.
Elizabeth Koslova
Engenheira,
especialista em
gerenciamento de projetos espaciais
No
inicio dos anos 80, a força aérea da África
do Sul colocava seu primeiro míssil doméstico
em serviço, o V3-Kukri, um pequeno AAM (Air Air
Missile) guiado por infravermelho bastante limitado em
sensibilidade e com apenas 4000m de alcance. Aquele míssil
cujo desenvolvimento fora iniciado em meados dos anos
70, pelo então Institute of defense Reserarch,
poderia seguramente ganhar o titulo de pior AAM do mundo
em produção na época.
Como
todo primeiro projeto nacional de míssil, o Kukri
sofria de um estigma de "primeira tentativa".
Seria assim também com a URSS quando em 1957 seu
primeiro AAM entrou em serviço, o AA-1 Alkaly,
míssil de concepção tecnológica
totalmente equivocada. Em 1958 o primeiro AAM (Air to
Air Missile ) da RAF entraria em serviço, o Firestreak,
projeto que dois anos antes da entrada em serviço
já geraria uma especificação de melhorias
que viria a se materializar na versão RedTop. Os
franceses concluíram seu primeiro projeto de AAM,
na forma do R-511, um míssil tão ineficiente,
que 5 anos depois passou por uma total revisão
de projeto e foi denominado R-530, um míssil destinado
a criar juntamente com o Mirage III uma solução
100% nacional de sistema de defesa área que livre
de restrições políticas conquistou
um farto mercado de exportação. Apesar de
presente no inventario da IAF (Israel Air Force) nas guerras
contra os árabes de1967 e 1973, e da FAA (Força
Aérea Argentina) em 1982, o R-530 tem apenas uma
vitória ar-ar, nas mãos da IAF em novembro
de 1966 contra um Mig-19 e sempre foi tido como um míssil
ineficiente.
Entender
o porque da dificuldade de se criar um primeiro míssil
eficiente, passa primeiro por entender um pouco da dinâmica
de projeto de mísseis táticos.
Uma
peculiaridade de um programa de míssil são
as células de capacitação. Um fabricante
de aeronaves para projetar um modelo civil, pode se dar
ao luxo de escolher entre dois ou três fabricantes
de turbinas, quatro fabricantes de avionica, subsistemas
hidráulicos etc... No final as suas escolhas formara
um produto estado da arte, que estará integrando
tecnologias diversas que competiram comercialmente entre
si para formar a nova aeronave.
Se
formos projetar um míssil tático, ou o veiculo
lançador de satélites, o processo é
um pouco diferente. A oferta comercial de tecnologias
para integrar o produto seria quase nula, salvo raros
acordos de políticos de cooperação.
O resultado é que dificuldades em células
tecnológicas podem gerar impactos no ciclo do programa
como um todo. Células de Propulsão, Óptica,
Eletrônica, Materiais, Aerodinâmica, precisam
caminhar dentro da mesma velocidade para não dilatar
o ciclo do programa.
Alem
do aspecto tecnológico que é ditado pela
capacitação de quem fabrica, outro ponto
ofensor da qualidade do programa é a visão
de quem especifica. Qual a expectativa da força
que ira operar o míssil, que qual a visão
de futuro que esta tem sobre a evolução
dos cenários que ira atuar.
Um
típico projeto de míssil tático tem
um ciclo de desenvolvimento entre estudos de inicio de
projeto e homologação de 100 meses. Espera-se
depois disto que ele tenha um ciclo de vida operacional
válida de pelo menos 120 meses. As implicações
desses 220 meses, é que entre o desenho do nosso
hipotético míssil ter sido congelado e ele
sair de serviço já se passariam praticamente
duas décadas. Logo lá no inicio do seu projeto
as necessidades ditadas pela especificação
teriam de ser baseadas em expectativas futuras de cenários
estratégicos. Resumindo: "Se projeta olhando
para frente". Bons desenvolvedores de mísseis
são via de regra forças com ótima
cultura de operacionalidade.
Quando
se esta desenvolvimento um míssil pela primeira
vez, se integra os resultados médios de cada célula
de capacitação para formar o míssil.
Míssil este que também não pode ser
projetado "olhando para frente" porque a qualidade
da especificação ainda é incipiente.
Este resultado gerado pela heterogeneidade de capacitação
tecnológica que não pode dilatar o ciclo
e pela fragilidade de especificação, pode
ser chamado de Kukri, Alkaly, Red Top, R-511, mísseis
pioneiros citados na introdução.
Voltando
ao míssil sul africano. O Kukri se iniciou quase
que ao mesmo tempo em que o Piranha no Brasil, porem quando
em outubro de 1998, o MAA-1 finalmente recebia seu certificado
de homologação, a Kentron exibia uma respeitável
gama de mísseis, com mais de 10 famílias
e 13 modelos, de engenhos ar-ar, ant. tanques, terra-ar
e ar-terra. Os programas começaram na mesma época
e hoje estão anos luz de distancia. Quais as razões
então para esta disparidade de qualidade entre
os dois programas?
Uma
retórica que tem se tornado repetitiva nas entrevistas
de alguns oficiais das nossas Forças Armadas, especialmente
da FAB, ao longo dos últimos 20 anos, tem sido
o boicote dos países ricos contra programas locais
de tecnologia aeroespacial. A África do Sul foi
escolhida para este perfil de comparação,
entre outros motivos, porque foi um dos países
que mais sofreram boicotes internacionais no período,
assim como boicotes desta natureza foram a mola propulsora
de programas de mísseis locais em Israel, Taiwan
e Irã.
Outro
argumento teria sido os crônicos cortes de orçamentos
sofridos pelas FA`s brasileiras ao longo do tempo. Este
argumento teria sido válido no caso do MAA-1 não
fossem algumas peculiaridades. A principal delas é
que o projeto custou US$29mi ao todo, algo como US$1,36mi
por ano desde o inicio até a homologação.
O MAA-1 custou em 22 anos menos que 3% da participação
brasileira no AMX em 10 anos. Bastaria ele ser prioritário
para que os recursos fossem garantidos.
Descontando
a retórica de falta de recursos e boicotes, então
o que poderia ter atrapalhado o programa? A resposta esta
um pouco alem do envelope operacional dos nossos planejadores
de programas de mísseis.
Um
primeiro ponto seria a fragilidade de especificação.
As FA`s brasileiras a exceção da Marinha,
são bastante carentes na visão estratégica
de sistemas de armas integrados. Isto se manifesta especialmente
em guerra eletrônica e sistemas de mísseis,
e é fruto de uma cultura de pouca operacionalidade
que persiste a décadas dentro destas forças.
A compra e as dificuldades de integração
do Python III, a escolha inadequada do MSS-1.2, são
exemplos tristes. A fragilidade de especificação
se torna potencialmente graves quando no modelo brasileiro
temos sobre os centros de pesquisas destas FA's, especialmente
sobre o CTA, a responsabilidade de formação
de capacitação tecnológica de qualquer
programa de míssil. Sem uma visão consistente
de aplicação estratégica de tecnologias,
toda a base de produção científica
destes centros, que é de boa qualidade, se perde
no tempo na medida que não converge para uma linha
comum de visão estratégica.
Outro
problema esta ligado a estruturação do braço
industrial de alguns programas. O MAA-1 passou por três
diferentes sub contratados durante a sua história:
DF Vasconcelos, Orbita e Mectron. As duas primeiras não
foram capaz de dar uma consistência ao programa.
Isto é aceitável até certo ponto,
afinal não se esperava que nenhuma delas tivesse
domínio pleno do processo. Mas o que justifica
3 mudanças ? Em programas de mísseis de
outros países, Denel (África do Sul), Rafael
(Israel), Matra (França), Mitsubishi (Japão),
entre outras, eram empresas incipientes, quando receberam
seus primeiros contratos. Nenhum programa de míssil
que entrou em operação até hoje mudou
de "Missile House" durante o desenvolvimento.
Antes
de questionar o porque estas empresas abandonaram estes
programas, é fundamental entender o porque receberam
o contrato. Se a resposta for algo no estilo "Porque
não tinha escolha", certamente elas não
poderiam ter recebido o programa nestas condições.
Uma
opção teria sido uma estratégia parecida
com a Indiana que na primeira metade dos anos 80 criou
um programa nacional de tecnologia de mísseis táticos,
que não objetivava em um primeiro momento a criação
de nenhum modelo especifico, mas o desenvolvimento de
todas as células de capacitação necessárias
para uma segunda fase de produção que hoje
já começa englobar modelos mais avançados
como AAM BVR (Beyond Visual Range ), SAM ( Surface Air
Missile )de médio alcance, mísseis antinavio
supersônicos.
Quando
em 1993 o MAA-1 foi passado à Mectron, algumas
distorções foram corrigidas. Havia, e isto
parece estar se provando verdadeiro, uma vontade para
o desenvolvimento de uma "Missile House" nacional.
O projeto já adiantado foi concluído 5 anos
depois.
Avaliar
a Mectron como braço industrial para o desenvolvimento
de mísseis apenas vai ser possível quando
o MAR (Míssil anti radiação) estiver
pronto, até lá fica a impressão de
um trabalho sério que esta sendo feito, porem ainda
longe de uma visão estratégica necessária
para um programa de mísseis de qualidade, visão
esta que em países como Israel, África do
Sul Índia, Taiwan e Irã já existe
ao longo das ultimas décadas.
O
MSS-1.2.
Se
você perguntar a algum engenheiro do programa MSS-1.2,
"É possível um míssil de maior
alcance?" A resposta vai ser. "Sim é
possível, o sistema de mira tem até 4500m
de alcance".
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Para
um melhor entendimento, vamos recapitular um pouco
sobre misseis antitanque.
Existem 3 classificações de misseis
antitanque:
Infantaria: alcance de até 2.200 m
e peso de 12 kg, para poder ser levado pelo infante
a pé. Ex Milan, Bill
Médios:
Coma alcance de até 4.500 m com peso até
20 kg. Ex TOW, HOT
Pesados: Com alcance de até 8.000
m para poderem ser disparadosfora do raio de ação
da AA preservando os caros helicópteros,
como o Apache. Ex Hellfire e Mokopa
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Na
classe de infantaria como o MSS-1.2 é hoje, com
até 2200m, todos os projetos são guiados
por cabo porque o peso que este sistema gera é
menor mantendo o míssil com um peso / alcance melhor.
Em mísseis maiores se pode usar outros sistemas
como o segmento de feixe que o MSS-1.2 usa porque se dilui
em uma célula mais pesada o peso fixo de alguns
sub sistemas ai a relação peso / alcance
melhora.
Existem outros mísseis como o MSS-1.2 com direcionamento
Beam Rider (seguidor de feixe) para uso em infantaria?
Sim existe, o TRIGAT é o outro míssil na
classe. Mas porque o TRIGAT e o MSS-1.2 são assim?
Basicamente no caso do existem duas versões do
TRIGAT, uma coisa até 2500m com cerca de 18Kg de
peso, (desempenho igual do MSS-1.2), e uma outra maior,
na faixa de 4000m para uso em helicópteros. No
caso o TIGER.
A idéia dos projetistas europeus era criar apenas
um míssil, mesmo que a versão de infantaria
fosse mais pesada, haveria economia no desenvolvimento,
produzindo o mesmo míssil em duas versões
mais ou menos 80% comum, haveria um ganho de escala, haveria
também uma capacidade anti-helicóptero no
caso da versão de maior alcance, isto daria ao
Tiger apenas um míssil nas funções
ar-ar e antitanque. É uma relação
de compromisso, aceitava-se gerar uma versão de
infantaria não muito ideal mas se ganhava em outros
campos de custos por exemplo.
Com o MSS-1.2 também houve os mesmos preceitos.
Um míssil menor de infantaria, um míssil
maior lançado de helicóptero com possibilidade
ar-ar. Se o pensamento que gerou o TRIGAT era dotar o
TIGER de um armamento de missão.
O mesmo se aplica do MAF, na Itália para o Mangusta.
Os italianos pisaram no freio por motivos econômicos
e dotaram o Mangusta com o TOW-2. No Brasil quando houve
a compra do MAF, fortemente empurrada pela Órbita
para o inexperiente EB, não houve a percepção
estratégica da situação.

Material institucional do MSS-1.2.
Que
percepção seria esta?
Basicamente
que o MAF, assim como o TRIGAT apenas se tornaria harmonioso
caso fosse fabricado em duas versões, para dotar
um helicóptero de ataque de um míssil. Fabricar
apenas a versão de infantaria seria uma fora de
colher o pior dos mundos, que seria uma versão
50% acima do peso, sem nenhum ganho em escala gerado pela
ausência de um irmão maior.
Alguém
pode argumentar? O que impede o EB de desenvolver uma
versão maior para helicópteros? Em teoria
nada, na pratica eu diria que o bom senso.
Primeiro
porque para concluir a primeira versão apenas no
Brasil já estamos indo para 15 anos de programa
e não temos nada em serviço ainda, se somarmos
o programa na Itália o MAF já tem cerca
de 20 anos. Em suma. Não demos nem o primeiro passo
ainda, o que dirá o segundo, estaríamos
criando um outro Piranha com seus 25 anos de desenvolvimento.
Outro
ponto é que o EB seja por motivos econômicos,
seja por motivos doutrinários, ou até por
desculpas doutrinarias de motivos econômicos nunca
teve planos consistentes de dotar os seus helicópteros
de mísseis antitanque, que no caso de plataformas
leves e econômicas como o Esquilo seriam mísseis
mais simples como o HOT.
A
tragédia da situação é que
um exército inexperiente e pobre compra um míssil
complexo, que apenas se torna compensador para o desenvolvimento
em duas versões, para tocar aos trancos e barrancos
seu primeiro programa de mísseis, sem a menor visão
estratégica das tecnologias que ele esta escolhendo.
Se
o exército da Itália faz uma opção
econômica para dotar um helicóptero especializado
de projeto local de um míssil importado, para evitar
o desenvolvimento mais longo e custoso de duas versões
do MAF. O TRIGAT foi diluído entre países
para seu desenvolvimento para armar novamente um helicóptero
de projeto especializado na qual se tolera uma versão
de infantaria não ideal exatamente para gerar demanda,
porque um exercito pobre e inexperiente vai comprar um
programa caro e complexo nestes moldes para gerar apenas
uma versão de infantaria, aquela que é a
"tolerável" para gerar demanda? Inexperiência
talvez.
Os
programas de mísseis brasileiros ao longo dos últimos
25 anos carecem de resultados. Depois de uma primeira
fase conturbada, por erros estratégicos por parte
das Forças Armadas quanto à escolha das
parcerias industriais, e a ausência de uma visão
estratégica de longo prazo, atualmente se inicia
uma nova fase com a real possibilidade da criação
de uma empresa player nacional no segmento.
Contribuem
para a melhoria das condições uma nova cultura
operacional que parece estar se formando na FAB para a
melhoria qualitativa dos meios de combate, bem como uma
visão focada em sistemas de armas que começa
a surgir com novos equipamentos em fase de incorporação.
No
campo de parcerias privadas, fica a sugestão que
a Mectron incorpore uma visão de benchmarket espelhada
em players do setor em países em desenvolvimento.
Outras empresas que nunca tiveram projetos consistentes
que nem ao estagio de vôo guiado chegaram, conseguem
hoje desfrutar de uma imagem de "Missile House"
melhor que a jovem empresa de São José dos
Campos.