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Histórico de evolução do projeto do MAA-1

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Defesanet 16 Julho 2002
Reeditada Dezembro 2005

Exclusivo Defesa @ Net

Programas de Mísseis no Brasil

Eng. Elizabeth Koslova
Engenheira, especialista em
gerenciamento de projetos espaciais

No inicio dos anos 80, a força aérea da África do Sul colocava seu primeiro míssil doméstico em serviço, o V3-Kukri, um pequeno AAM (Air Air Missile) guiado por infravermelho bastante limitado em sensibilidade e com apenas 4000m de alcance. Aquele míssil cujo desenvolvimento fora iniciado em meados dos anos 70, pelo então Institute of defense Reserarch, poderia seguramente ganhar o titulo de pior AAM do mundo em produção na época.

Como todo primeiro projeto nacional de míssil, o Kukri sofria de um estigma de "primeira tentativa". Seria assim também com a URSS quando em 1957 seu primeiro AAM entrou em serviço, o AA-1 Alkaly, míssil de concepção tecnológica totalmente equivocada. Em 1958 o primeiro AAM (Air to Air Missile ) da RAF entraria em serviço, o Firestreak, projeto que dois anos antes da entrada em serviço já geraria uma especificação de melhorias que viria a se materializar na versão RedTop. Os franceses concluíram seu primeiro projeto de AAM, na forma do R-511, um míssil tão ineficiente, que 5 anos depois passou por uma total revisão de projeto e foi denominado R-530, um míssil destinado a criar juntamente com o Mirage III uma solução 100% nacional de sistema de defesa área que livre de restrições políticas conquistou um farto mercado de exportação. Apesar de presente no inventario da IAF (Israel Air Force) nas guerras contra os árabes de1967 e 1973, e da FAA (Força Aérea Argentina) em 1982, o R-530 tem apenas uma vitória ar-ar, nas mãos da IAF em novembro de 1966 contra um Mig-19 e sempre foi tido como um míssil ineficiente.

Entender o porque da dificuldade de se criar um primeiro míssil eficiente, passa primeiro por entender um pouco da dinâmica de projeto de mísseis táticos.

Uma peculiaridade de um programa de míssil são as células de capacitação. Um fabricante de aeronaves para projetar um modelo civil, pode se dar ao luxo de escolher entre dois ou três fabricantes de turbinas, quatro fabricantes de avionica, subsistemas hidráulicos etc... No final as suas escolhas formara um produto estado da arte, que estará integrando tecnologias diversas que competiram comercialmente entre si para formar a nova aeronave.

Se formos projetar um míssil tático, ou o veiculo lançador de satélites, o processo é um pouco diferente. A oferta comercial de tecnologias para integrar o produto seria quase nula, salvo raros acordos de políticos de cooperação. O resultado é que dificuldades em células tecnológicas podem gerar impactos no ciclo do programa como um todo. Células de Propulsão, Óptica, Eletrônica, Materiais, Aerodinâmica, precisam caminhar dentro da mesma velocidade para não dilatar o ciclo do programa.

Alem do aspecto tecnológico que é ditado pela capacitação de quem fabrica, outro ponto ofensor da qualidade do programa é a visão de quem especifica. Qual a expectativa da força que ira operar o míssil, que qual a visão de futuro que esta tem sobre a evolução dos cenários que ira atuar.

Um típico projeto de míssil tático tem um ciclo de desenvolvimento entre estudos de inicio de projeto e homologação de 100 meses. Espera-se depois disto que ele tenha um ciclo de vida operacional válida de pelo menos 120 meses. As implicações desses 220 meses, é que entre o desenho do nosso hipotético míssil ter sido congelado e ele sair de serviço já se passariam praticamente duas décadas. Logo lá no inicio do seu projeto as necessidades ditadas pela especificação teriam de ser baseadas em expectativas futuras de cenários estratégicos. Resumindo: "Se projeta olhando para frente". Bons desenvolvedores de mísseis são via de regra forças com ótima cultura de operacionalidade.

Quando se esta desenvolvimento um míssil pela primeira vez, se integra os resultados médios de cada célula de capacitação para formar o míssil. Míssil este que também não pode ser projetado "olhando para frente" porque a qualidade da especificação ainda é incipiente. Este resultado gerado pela heterogeneidade de capacitação tecnológica que não pode dilatar o ciclo e pela fragilidade de especificação, pode ser chamado de Kukri, Alkaly, Red Top, R-511, mísseis pioneiros citados na introdução.

Voltando ao míssil sul africano. O Kukri se iniciou quase que ao mesmo tempo em que o Piranha no Brasil, porem quando em outubro de 1998, o MAA-1 finalmente recebia seu certificado de homologação, a Kentron exibia uma respeitável gama de mísseis, com mais de 10 famílias e 13 modelos, de engenhos ar-ar, ant. tanques, terra-ar e ar-terra. Os programas começaram na mesma época e hoje estão anos luz de distancia. Quais as razões então para esta disparidade de qualidade entre os dois programas?

Uma retórica que tem se tornado repetitiva nas entrevistas de alguns oficiais das nossas Forças Armadas, especialmente da FAB, ao longo dos últimos 20 anos, tem sido o boicote dos países ricos contra programas locais de tecnologia aeroespacial. A África do Sul foi escolhida para este perfil de comparação, entre outros motivos, porque foi um dos países que mais sofreram boicotes internacionais no período, assim como boicotes desta natureza foram a mola propulsora de programas de mísseis locais em Israel, Taiwan e Irã.

Outro argumento teria sido os crônicos cortes de orçamentos sofridos pelas FA`s brasileiras ao longo do tempo. Este argumento teria sido válido no caso do MAA-1 não fossem algumas peculiaridades. A principal delas é que o projeto custou US$29mi ao todo, algo como US$1,36mi por ano desde o inicio até a homologação. O MAA-1 custou em 22 anos menos que 3% da participação brasileira no AMX em 10 anos. Bastaria ele ser prioritário para que os recursos fossem garantidos.

Descontando a retórica de falta de recursos e boicotes, então o que poderia ter atrapalhado o programa? A resposta esta um pouco alem do envelope operacional dos nossos planejadores de programas de mísseis.

Um primeiro ponto seria a fragilidade de especificação. As FA`s brasileiras a exceção da Marinha, são bastante carentes na visão estratégica de sistemas de armas integrados. Isto se manifesta especialmente em guerra eletrônica e sistemas de mísseis, e é fruto de uma cultura de pouca operacionalidade que persiste a décadas dentro destas forças. A compra e as dificuldades de integração do Python III, a escolha inadequada do MSS-1.2, são exemplos tristes. A fragilidade de especificação se torna potencialmente graves quando no modelo brasileiro temos sobre os centros de pesquisas destas FA's, especialmente sobre o CTA, a responsabilidade de formação de capacitação tecnológica de qualquer programa de míssil. Sem uma visão consistente de aplicação estratégica de tecnologias, toda a base de produção científica destes centros, que é de boa qualidade, se perde no tempo na medida que não converge para uma linha comum de visão estratégica.

Outro problema esta ligado a estruturação do braço industrial de alguns programas. O MAA-1 passou por três diferentes sub contratados durante a sua história: DF Vasconcelos, Orbita e Mectron. As duas primeiras não foram capaz de dar uma consistência ao programa. Isto é aceitável até certo ponto, afinal não se esperava que nenhuma delas tivesse domínio pleno do processo. Mas o que justifica 3 mudanças ? Em programas de mísseis de outros países, Denel (África do Sul), Rafael (Israel), Matra (França), Mitsubishi (Japão), entre outras, eram empresas incipientes, quando receberam seus primeiros contratos. Nenhum programa de míssil que entrou em operação até hoje mudou de "Missile House" durante o desenvolvimento.

Antes de questionar o porque estas empresas abandonaram estes programas, é fundamental entender o porque receberam o contrato. Se a resposta for algo no estilo "Porque não tinha escolha", certamente elas não poderiam ter recebido o programa nestas condições.

Uma opção teria sido uma estratégia parecida com a Indiana que na primeira metade dos anos 80 criou um programa nacional de tecnologia de mísseis táticos, que não objetivava em um primeiro momento a criação de nenhum modelo especifico, mas o desenvolvimento de todas as células de capacitação necessárias para uma segunda fase de produção que hoje já começa englobar modelos mais avançados como AAM BVR (Beyond Visual Range ), SAM ( Surface Air Missile )de médio alcance, mísseis antinavio supersônicos.

Quando em 1993 o MAA-1 foi passado à Mectron, algumas distorções foram corrigidas. Havia, e isto parece estar se provando verdadeiro, uma vontade para o desenvolvimento de uma "Missile House" nacional. O projeto já adiantado foi concluído 5 anos depois.

Avaliar a Mectron como braço industrial para o desenvolvimento de mísseis apenas vai ser possível quando o MAR (Míssil anti radiação) estiver pronto, até lá fica a impressão de um trabalho sério que esta sendo feito, porem ainda longe de uma visão estratégica necessária para um programa de mísseis de qualidade, visão esta que em países como Israel, África do Sul Índia, Taiwan e Irã já existe ao longo das ultimas décadas.

O MSS-1.2.

Se você perguntar a algum engenheiro do programa MSS-1.2, "É possível um míssil de maior alcance?" A resposta vai ser. "Sim é possível, o sistema de mira tem até 4500m de alcance".

Para um melhor entendimento, vamos recapitular um pouco sobre misseis antitanque.

Existem 3 classificações de misseis antitanque:

Infantaria: alcance de até 2.200 m e peso de 12 kg, para poder ser levado pelo infante a pé. Ex Milan, Bill

Médios: Coma alcance de até 4.500 m com peso até 20 kg. Ex TOW, HOT

Pesados: Com alcance de até 8.000 m para poderem ser disparadosfora do raio de ação da AA preservando os caros helicópteros, como o Apache. Ex Hellfire e Mokopa

Na classe de infantaria como o MSS-1.2 é hoje, com até 2200m, todos os projetos são guiados por cabo porque o peso que este sistema gera é menor mantendo o míssil com um peso / alcance melhor. Em mísseis maiores se pode usar outros sistemas como o segmento de feixe que o MSS-1.2 usa porque se dilui em uma célula mais pesada o peso fixo de alguns sub sistemas ai a relação peso / alcance melhora.

Existem outros mísseis como o MSS-1.2 com direcionamento Beam Rider (seguidor de feixe) para uso em infantaria?

Sim existe, o TRIGAT é o outro míssil na classe. Mas porque o TRIGAT e o MSS-1.2 são assim?

Basicamente no caso do existem duas versões do TRIGAT, uma coisa até 2500m com cerca de 18Kg de peso, (desempenho igual do MSS-1.2), e uma outra maior, na faixa de 4000m para uso em helicópteros. No caso o TIGER.

A idéia dos projetistas europeus era criar apenas um míssil, mesmo que a versão de infantaria fosse mais pesada, haveria economia no desenvolvimento, produzindo o mesmo míssil em duas versões mais ou menos 80% comum, haveria um ganho de escala, haveria também uma capacidade anti-helicóptero no caso da versão de maior alcance, isto daria ao Tiger apenas um míssil nas funções ar-ar e antitanque. É uma relação de compromisso, aceitava-se gerar uma versão de infantaria não muito ideal mas se ganhava em outros campos de custos por exemplo.

Com o MSS-1.2 também houve os mesmos preceitos. Um míssil menor de infantaria, um míssil maior lançado de helicóptero com possibilidade ar-ar. Se o pensamento que gerou o TRIGAT era dotar o TIGER de um armamento de missão.

O mesmo se aplica do MAF, na Itália para o Mangusta. Os italianos pisaram no freio por motivos econômicos e dotaram o Mangusta com o TOW-2. No Brasil quando houve a compra do MAF, fortemente empurrada pela Órbita para o inexperiente EB, não houve a percepção estratégica da situação.




Material institucional do MSS-1.2.


Que percepção seria esta?

Basicamente que o MAF, assim como o TRIGAT apenas se tornaria harmonioso caso fosse fabricado em duas versões, para dotar um helicóptero de ataque de um míssil. Fabricar apenas a versão de infantaria seria uma fora de colher o pior dos mundos, que seria uma versão 50% acima do peso, sem nenhum ganho em escala gerado pela ausência de um irmão maior.

Alguém pode argumentar? O que impede o EB de desenvolver uma versão maior para helicópteros? Em teoria nada, na pratica eu diria que o bom senso.

Primeiro porque para concluir a primeira versão apenas no Brasil já estamos indo para 15 anos de programa e não temos nada em serviço ainda, se somarmos o programa na Itália o MAF já tem cerca de 20 anos. Em suma. Não demos nem o primeiro passo ainda, o que dirá o segundo, estaríamos criando um outro Piranha com seus 25 anos de desenvolvimento.

Outro ponto é que o EB seja por motivos econômicos, seja por motivos doutrinários, ou até por desculpas doutrinarias de motivos econômicos nunca teve planos consistentes de dotar os seus helicópteros de mísseis antitanque, que no caso de plataformas leves e econômicas como o Esquilo seriam mísseis mais simples como o HOT.

A tragédia da situação é que um exército inexperiente e pobre compra um míssil complexo, que apenas se torna compensador para o desenvolvimento em duas versões, para tocar aos trancos e barrancos seu primeiro programa de mísseis, sem a menor visão estratégica das tecnologias que ele esta escolhendo.

Se o exército da Itália faz uma opção econômica para dotar um helicóptero especializado de projeto local de um míssil importado, para evitar o desenvolvimento mais longo e custoso de duas versões do MAF. O TRIGAT foi diluído entre países para seu desenvolvimento para armar novamente um helicóptero de projeto especializado na qual se tolera uma versão de infantaria não ideal exatamente para gerar demanda, porque um exercito pobre e inexperiente vai comprar um programa caro e complexo nestes moldes para gerar apenas uma versão de infantaria, aquela que é a "tolerável" para gerar demanda? Inexperiência talvez.

Os programas de mísseis brasileiros ao longo dos últimos 25 anos carecem de resultados. Depois de uma primeira fase conturbada, por erros estratégicos por parte das Forças Armadas quanto à escolha das parcerias industriais, e a ausência de uma visão estratégica de longo prazo, atualmente se inicia uma nova fase com a real possibilidade da criação de uma empresa player nacional no segmento.

Contribuem para a melhoria das condições uma nova cultura operacional que parece estar se formando na FAB para a melhoria qualitativa dos meios de combate, bem como uma visão focada em sistemas de armas que começa a surgir com novos equipamentos em fase de incorporação.

No campo de parcerias privadas, fica a sugestão que a Mectron incorpore uma visão de benchmarket espelhada em players do setor em países em desenvolvimento. Outras empresas que nunca tiveram projetos consistentes que nem ao estagio de vôo guiado chegaram, conseguem hoje desfrutar de uma imagem de "Missile House" melhor que a jovem empresa de São José dos Campos.

Defesa @ Net

Sistemas de guia de Mísseis CLOS - Elizabeth Koslova - Básico para entender algumas das posições da autora nesse texto http://www.defesanet.com.br/noticia/clos/clos.htm

A Saga do míssil Sidewinder - A evolução do Míssil Sidewinder a origem dos mísseis ar-ar http://www.defesanet.com.br/noticia/sidewinder/sidewinder.htm

AMRAAM é fator de venda no Mercado Internacional - A importância comercial dos mísseis BVR http://www.defesanet.com.br/noticia/missiles.htm

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