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Da Marinha para as mãos do tráfico Maioria das bazucas achadas em favelas saiu do Corpo de Fuzileiros
Sérgio Ramalho
Bazucas são desviadas do Corpo de Fuzileiros Navais para traficantes. Os lança-rojões modelo AT-4 encontrados em favelas do Rio fazem parte de dois lotes vendidos à Marinha pela empresa sueca FFV Ordnance. Um levantamento da polícia mostra o crescente interesse de traficantes na compra do armamento. No mês passado, seis modelos AT-4 foram apreendidos, o dobro do número registrado em todo o ano de 2002.
Usados em treinamento por fuzileiros navais e forças especiais do Exército, os lança-rojões têm tubo descartável e capacidade apenas para um disparo. "Por sorte, todos os AT-4 apreendidos estavam descarregados", observa o especialista em armas Ronaldo Leão, que alerta para a escalada do tráfico em busca de armamento de guerra. "Um tiro de AR-15 pode ferir até dois policiais num carro, mas um disparo de um lança-rojão transforma tudo em cinzas. É uma arma anti-tanque", explica.
As investigações da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) e da Subsecretaria de Inteligência (SSI) confirmaram que 12 dos 14 lança-rojões AT-4 apreendidos entre 1999 e o mês passado pertencem às séries F 1328 - 905160/lote FFV 90.001 e AT-4 1191768 - 1739 5001 vendidas à Marinha, que também investiga o desvio do material do Centro de Reparos e Suprimentos Especiais da Marinha (Cresumar), em Parada de Lucas.
A suspeita de envolvimento de fuzileiros no desvio e venda dos AT-4 usados pelo tráfico foi reforçada com a prisão do sargento João Carlos Rodrigues Freitas. Há dois anos, o fuzileiro foi detido com um lança-rojão da série F 1328 905160/FFV 90.001. O cruzamento dos dados mostrou que a série é a mesma da maioria das armas apreendidas com traficantes.
Um dos responsáveis pela investigação, o delegado Carlos Antônio de Oliveira, da Drae, admite a preocupação da polícia com o interesse do tráfico na aquisição de armas de guerra. "Até o momento, não temos informações de que os traficantes tenham conseguido comprar um lança-rojão novo, mas as crescentes apreensões indicam que eles já conseguiram contato para comprar o armamento usado", conclui. O policial Rubeval França reconhece que "a sucata assusta".
CV tem a maior parte das armas
As investigações conjuntas da DRAE e da SSI constataram que 12 dos 14 lança-rojões encontrados pela polícia estavam em favelas dominadas pela facção criminosa Comando Vermelho (CV). Os AT-4 - desviados da Marinha - estariam sendo usados para inibir ataques de grupos rivais e intimidar moradores. "Imagine ficar na frente de um traficante armado com uma bazuca. Quem vai perguntar se ela está carregada ou não?", pergunta o diretor da Divisão de Fiscalização de Armas e Explosivos (DFAE), Luiz Carlos Santos.
O temor de que traficantes tenham acesso a bazucas carregadas é reforçado pela descoberta, em julho, de dois lança-rojões M72-A2 (fabricação americana) com munição no Morro do Adeus, dominado pela facção Terceiro Comando (TC). Para Ronaldo Leão, há uma corrida armamentista entre as facções que disputam território na venda de drogas no Rio de Janeiro.
As apreensões de seis AT-4 em janeiro - cinco no Jacarezinho e um na Cidade de Deus - impressionaram o chefe de Polícia Civil, Álvaro Lins, que cobrou agilidade nas investigações. Embora representantes dos setores de inteligência da Marinha e do Exército estejam colaborando nas investigações, o Comando Militar do Leste (CML) e o 1º Distrito Naval não se pronunciaram sobre o desvio das sucatas de lança-rojões AT-4.
ENTREVISTA 'Polícia nenhuma está preparada' Ronaldo Leão, especialista em estratégia, armamento e logística
O Dia--O que indicam as crescentes apreensões de lança-rojões? Ronaldo Leão--São um sinal claro de que as facções estão numa corrida armamentista. Agora querem armas de guerra.
O Dia--Mas e os fuzis? Ronaldo Leão -Não há comparação. Um AR-15 é uma arma semi-automática, atinge um por vez. Um disparo de AT-4 pode matar muitos ao mesmo tempo.
O Dia--A polícia está preparada para combater traficantes com bazucas? Ronaldo Leão--Polícia nenhuma está preparada para isso. E o pior: os hospitais e os médicos também não estão preparados para atender vítimas dessas armas. Na verdade, sobra pouco de alguém atingido por um disparo de lança-rojão.
O Dia--O assunto está sendo subestimado? Ronaldo Leão--Espero que não. As apreensões de AT-4 são sintomáticas. Há ainda casos de descoberta em favelas de projéteis de morteiro 60 mm, que têm grande poder de destruição.
O Dia--Como combater esse risco?
Ronaldo Leão--Com aperfeiçoamento da polícia, trabalho conjunto e aparelhamento. É preciso identificar e prender os potenciais fornecedores desse tipo de armamento para o tráfico.
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