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Defesanet. 11 Fevereiro 2003

O Dia Edições 09/10 Fev 2003

Defesanet--Para uma avaliação do potencial de destruição do AT4 Carl Gustaf veja artigo www.defesanet.com.br/noticia/carlgustaf

Da Marinha para as mãos do tráfico
Maioria das bazucas achadas em favelas saiu do Corpo de Fuzileiros

Sérgio Ramalho


Bazucas são desviadas do Corpo de Fuzileiros Navais para traficantes. Os lança-rojões modelo AT-4 encontrados em favelas do Rio fazem parte de dois lotes vendidos à Marinha pela empresa sueca FFV Ordnance. Um levantamento da polícia mostra o crescente interesse de traficantes na compra do armamento. No mês passado, seis modelos AT-4 foram apreendidos, o dobro do número registrado em todo o ano de 2002.

Usados em treinamento por fuzileiros navais e forças especiais do Exército, os lança-rojões têm tubo descartável e capacidade apenas para um disparo. "Por sorte, todos os AT-4 apreendidos estavam descarregados", observa o especialista em armas Ronaldo Leão, que alerta para a escalada do tráfico em busca de armamento de guerra. "Um tiro de AR-15 pode ferir até dois policiais num carro, mas um disparo de um lança-rojão transforma tudo em cinzas. É uma arma anti-tanque", explica.

As investigações da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) e da Subsecretaria de Inteligência (SSI) confirmaram que 12 dos 14 lança-rojões AT-4 apreendidos entre 1999 e o mês passado pertencem às séries F 1328 - 905160/lote FFV 90.001 e AT-4 1191768 - 1739 5001 vendidas à Marinha, que também investiga o desvio do material do Centro de Reparos e Suprimentos Especiais da Marinha (Cresumar), em Parada de Lucas.

A suspeita de envolvimento de fuzileiros no desvio e venda dos AT-4 usados pelo tráfico foi reforçada com a prisão do sargento João Carlos Rodrigues Freitas. Há dois anos, o fuzileiro foi detido com um lança-rojão da série F 1328 905160/FFV 90.001. O cruzamento dos dados mostrou que a série é a mesma da maioria das armas apreendidas com traficantes.

Um dos responsáveis pela investigação, o delegado Carlos Antônio de Oliveira, da Drae, admite a preocupação da polícia com o interesse do tráfico na aquisição de armas de guerra. "Até o momento, não temos informações de que os traficantes tenham conseguido comprar um lança-rojão novo, mas as crescentes apreensões indicam que eles já conseguiram contato para comprar o armamento usado", conclui. O policial Rubeval França reconhece que "a sucata assusta".

CV tem a maior parte das armas

As investigações conjuntas da DRAE e da SSI constataram que 12 dos 14 lança-rojões encontrados pela polícia estavam em favelas dominadas pela facção criminosa Comando Vermelho (CV). Os AT-4 - desviados da Marinha - estariam sendo usados para inibir ataques de grupos rivais e intimidar moradores. "Imagine ficar na frente de um traficante armado com uma bazuca. Quem vai perguntar se ela está carregada ou não?", pergunta o diretor da Divisão de Fiscalização de Armas e Explosivos (DFAE), Luiz Carlos Santos.


O temor de que traficantes tenham acesso a bazucas carregadas é reforçado pela descoberta, em julho, de dois lança-rojões M72-A2 (fabricação americana) com munição no Morro do Adeus, dominado pela facção Terceiro Comando (TC). Para Ronaldo Leão, há uma corrida armamentista entre as facções que disputam território na venda de drogas no Rio de Janeiro.

As apreensões de seis AT-4 em janeiro - cinco no Jacarezinho e um na Cidade de Deus - impressionaram o chefe de Polícia Civil, Álvaro Lins, que cobrou agilidade nas investigações. Embora representantes dos setores de inteligência da Marinha e do Exército estejam colaborando nas investigações, o Comando Militar do Leste (CML) e o 1º Distrito Naval não se pronunciaram sobre o desvio das sucatas de lança-rojões AT-4.


ENTREVISTA
'Polícia nenhuma está preparada'
Ronaldo Leão, especialista em estratégia, armamento e logística

O Dia--O que indicam as crescentes apreensões de lança-rojões?
Ronaldo Leão--São um sinal claro de que as facções estão numa corrida armamentista. Agora querem armas de guerra.

O Dia--Mas e os fuzis?
Ronaldo Leão -Não há comparação. Um AR-15 é uma arma semi-automática, atinge um por vez. Um disparo de AT-4 pode matar muitos ao mesmo tempo.

O Dia--A polícia está preparada para combater traficantes com bazucas?
Ronaldo Leão--Polícia nenhuma está preparada para isso. E o pior: os hospitais e os médicos também não estão preparados para atender vítimas dessas armas. Na verdade, sobra pouco de alguém atingido por um disparo de lança-rojão.

O Dia--O assunto está sendo subestimado?
Ronaldo Leão--Espero que não. As apreensões de AT-4 são sintomáticas. Há ainda casos de descoberta em favelas de projéteis de morteiro 60 mm, que têm grande poder de destruição.

O Dia--Como combater esse risco?

Ronaldo Leão--Com aperfeiçoamento da polícia, trabalho conjunto e aparelhamento. É preciso identificar e prender os potenciais fornecedores desse tipo de armamento para  o tráfico.

O DIA 10 FEV 2003 Fuzileiro naval suspeito de desvio de bazucas vai depor

Preso com um lança-rojão AT-4 em casa, o sargento fuzileiro naval João Carlos Rodrigues de Freitas, 35 anos, é suspeito de participação no esquema responsável pelo desvio de bazucas do Corpo de Fuzileiros Navais. A arma encontrada na residência do militar pertence à mesma série - número F1328 905160/FFV90.001, vendida à Marinha pela empresa sueca FFV Ordnance - de outros oito lança-rojões apreendidos pela polícia em áreas dominadas pela facção criminosa Comando Vermelho (CV).

O delegado Carlos Antônio de Oliveira, da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (DRAE), pretende ouvir o depoimento do sargento fuzileiro, denunciado na Justiça Militar pelo desvio da bazuca. Carlos Oliveira não descarta a hipótese de o militar ser um dos elos de ligação do esquema de desvio de armas militares para o tráfico.

Conforme o
DIA noticiou ontem, uma investigação conjunta da DRAE e da Subsecretaria de Segurança e Inteligência (SSI) constatou que 12 dos 14 lança-rojões encontrados em favelas do Rio, de 1999 a janeiro, pertenciam a dois lotes vendidos pela FFV Ordnance à Marinha.

Embora a Marinha não se pronuncie sobre o assunto, integrantes do Centro de Inteligência - o antigo Cenimar - têm participado de reuniões na Secretaria de Segurança Pública. Há suspeitas de que parte das AT-4 apreendidas com o tráfico tenha sido desviada do Centro de Reparos e Suprimentos Especiais da Marinha (Cresumar), em Parada de Lucas. No local, são armazenados os lança-rojões usados em treinamento por fuzileiros navais. Com tubo descartável, o armamento, em tese, não poderia ser reaproveitado.

A polícia, no entanto, está preocupada com o crescente interesse de traficantes na compra de armas de guerra, capazes de promover destruição coletiva. Em janeiro, seis AT-4 foram apreendidos - o dobro do número registrado em todo o ano de 2002. Cinco das armas estavam na Favela do Jacarezinho, na Zona Norte, e uma na Cidade de Deus, em Jacarepaguá.
As investigações apontam ainda indícios de desvio de material bélico do Exército, que também compra lança-rojões AT-4 da empresa FFV Ordnance para treinamento de forças especiais.

O sargento Freitas foi preso em fevereiro de 2000. O número de série do lança-rojão é o mesmo da maioria do armamento apreendido com traficantes.

O policial Rubeval França empunha bazuca apreendida com traficantes, que não se contentam mais com fuzis

Lança-rojão AT-4
Peso: 6,7 quilos. Calibre: 84 mm
Emprego: antitanque
Alcance eficaz: 300 metros
Fabricante: FFV Ordnance - Suécia

M72-A2 - Fabricado nos Estados Unidos, o lança-rojão calibre 66 milímetros pesa 1,8 quilo e tem precisão para atingir e destruir um alvo a 200 metros