TECNOLOGIA ISRAELENSE

AVIÕES KFIR NA AMÉRICA DO SUL

 

Expedito Carlos Stephani Bastos, Pesquisador de Assuntos Militares do Centro de Pesquisas Sociais da UFJF, Coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora.

Roberto Portella Bertazzo, Pesquisador de Assuntos Aeronáuticos do Núcleo de Estudos Estratégicos do Instituto Histórico e Geográfico de Juiz de Fora, Membro da Associação Latino-Americana de Historiadores Aeronáuticos.

 

 

O KFIR (filhote de leão) surgiu como uma solução israelense para suprir as deficiências dos seus MIRAGE III e IAI NESHER, sendo este último uma cópia do Mirage V fabricada em Israel sem licença do fabricante francês.

A família KFIR foi originada a partir do modelo C-1, que basicamente se diferenciava do Mirage francês original apenas por ter sido substituída a turbina Atar por uma General Electric J-79, a qual dava ao avião um empuxo superior de 30%. A adoção desta turbina exigiu a instalação de uma entrada de ar adicional sobre a fuselagem e nas versões seguintes foram ainda acrescentados aletas canard que melhoraram em muito seu desempenho aerodinâmico.

Em 1976 foi apresentada a versão KFIR C-2 que teve sua aviônica original substituída por equipamentos israelenses e foi agregada a esta o radar ELTA M-200 1B, permitindo uma sensível melhora para o combate aéreo.

Após seu sucesso inicial, em 1983 surge o KFIR C-7 que incorporava novas tecnologias, como controle HOTAS, capacidade de emprego de armamento mais sofisticado, sonda de reabastecimento em vôo, além de dois pontos adicionais para armamentos fixados embaixo das tomadas de ar.

No final dos anos 90 surge o KFIR C-10, também conhecido como KFIR 2000, o qual beneficiou-se muito do abortado programa LAVI, principalmente na parte de aviônicos, bom design da cabine e a adoção do novo radar ELTA EL/M-2032, otimizado para missões ar-ar e ar-solo, o que sem dúvida marca a grande diferença entre o modelo C-7 e C-10. (foto 1)

A seção dianteira do KFIR C-10 ou 2000, desde as tomadas de ar são completamente novas, pois com a instalação deste novo radar na proa, toda a cabine foi modernizada, sedo totalmente digital. A diferença mais visível externamente é que o pará-brisa antes divido em três partes, agora é totalmente inteiriço, numa única peça transparente, dando desta forma um aspecto bem moderno ao aparelho. (foto 2 e 3)

A construção da estrutura do KFIR foi feita de forma a nunca sofrer problemas de fadiga, pois a IAI ( Israel Aircraft Industries), seu fabricante, afirma neste item que ele é superior aos F-15 e F-16, em razão dos requisitos técnicos obtidos durante o processo de desenho deste caça. Sua célula possui limite para 8000 horas de vôo, e os que estão sendo oferecidos para venda ou leasing, estão na casa das 5000 horas. Possui ainda diversos opcionais para cada um dos clientes, como por exemplo um dos itens opcionais é a sonda de abastecimento em vôo, que teve seu sistema analógico substituído por um digital no item controle de temperatura.

Normalmente ele é armado com dois mísseis Python 4(Rafael), embora outros possam ser adaptados nos locais dos tanques externos suplementares de combustível, facilitando desta forma usá-lo como um interceptador. Para as missões ar-solo possui um sistema de navegação e designador de alvos Rafael Litening, podendo ainda dispor de equipamentos para sua autoproteção, dependendo unicamente da vontade dos clientes. Pode ainda em outra configuração levar 6.085kg de bombas, além é claro de possuir dois canhões de 30mm.

O custo de manutenção dos motores custa a metade do que se gastaria com as turbinas francesas, sua rival mais próxima, sendo que foram fabricadas algo em torno de 18000 turbinas J-79 e que 3000 ainda estão em uso hoje, prevendo-se um apoio logístico para os próximos 10 a 15 anos, segundo os vendedores.

Na América do Sul, o primeiro operador destes aviões, foi o Equador, que assinou um contrato em 21 de maio de 1981 para a aquisição de 10 KFIR C-2 e 02 TC-2 biplace, recebendo o primeiro C-2 em 31 de março de 1982, com a matrícula FAE-905. (foto 4, 5, 6 e 6a)

Vale ressaltar que apenas os Estados Unidos operavam KFIR C-1 fora de Israel, sendo estes usados pela Marinha e Fuzileiros Navais nos esquadrões agressores. Não foram comprados, mas sim arrendados através de leasing.

Os KFIR Equatorianos foram então baseados em Taura e formaram o esquadrão 2113. Em fevereiro de 1995 a tensão resultante entre o Equador e o Peru desencadeou um conflito armado (Guerra do Cenepa), sendo que sete aviões supersônicos de ambos os lados travaram combates aéreos, resultando na perda de três aviões, sendo dois Sukoi Su-22 e um A-37 da Força Aérea Peruana(FAP), os dois primeiros abatidos por Mirage F-1 e o último pelo Kfir C-2 matrícula 905, pilotado pelo Capitão Maurício Mata que o abateu com um míssil ar-ar. (foto 7 e 7a)

Nos seus vinte anos de operações a Força Aérea Equatoriana perdeu quatro Kfir, sendo dois por impacto de aves, um por pane no motor e um em tentativa de decolagem, mas nenhum em combate.

Em 1998, visando a substituição destes aviões perdidos e a atualização dos remanescentes, a Força Aérea Equatoriana firmou um novo contrato com a IAI para a aquisição de quatro KFIR-2000 ou C-10, designados CE e a modernização dos demais C-2 em CE, já estando alguns em operação.(foto 8 e 9)

A Força Aérea da Colômbia (FAC), adquire 10 Kfir C-7 e dois TC-7 biplace, tornando-se o segundo país do continente a operar este tipo de avião, em 1988. Eles já foram empregados em combate realizando missões de ataque ao solo contra grupos terroristas que atuam no país e aproveitando esta compra atualizaram seus Mirage V com o apoio Israelense. (foto 10 e 11)

O Brasil com a recente aquisição de 12 KFIR C-10 torna-se o terceiro país sulamericano a adquirir, mesmo que através de leasing, por tempo determinado, estes aviões, pois alguns pilotos brasileiros já voaram Kfir TC-2 no Equador, efetuando desta forma uma avaliação antes da assinatura do contrato com a IAI.

Estes aviões apenas irão prolongar a agonia da Força Aérea Brasileira, juntamente com os 15 F-5 recentemente adquiridos da Suiça e que somados aos demais irão ser modernizados por empresas Israelenses, não sendo de forma alguma solução para a atual crise em que vive as Forças Armadas Brasileiras.

Isto pode ser um golpe mortal no programa FX que previa uma nova família de aviões para equipar e modernizar a FAB, com a desativação dos Mirage III EBR. Infelizmente é ano eleitoral e nenhum dos candidatos têm noção da importância de se manter e modernizar as Forças Armadas, destacando a Força Aérea que chegou a um limite preocupante, nunca visto em sua história desde sua criação em 1941, como fruto das mudanças ocorridas em decorrência da Segunda Guerra Mundial, aliás onde tivemos nosso único batismo de fogo.

Nota Defesanet:

1- O Comando da Aeronáutica emitiu nota oficial mencionando o leasing dos aviões Kfir C10, como uma solução temporária até a introdução dos aviões a serem escolhidos no Processo de Seleção do FX.

Ver nota www.defesanet.com.br/noticia/kfir

2- Veja uma análise econômica do leasing por G. Poggio:

www.defesanet.com.br/noticia/kfiranalise

LEGENDA E CRÉDITO DAS FOTOS

Foto 1: Propaganda veiculada em revistas brasileiras, mostrando o Kfir 2000 ou C-10, designado CE no Equador. Notar o número 914 na cauda, na versão Israelense, que é o mesmo FAE-914 da Força Aérea Equatoriana. (IAI)

Foto 2: Detalhe da nova seção dianteira da fuselagem do Kfir CE ou C-10 ou 2000 da Força Aérea Equatoriana. Notar a nova frente do canopi, totalmente inteiriça. (Roberto Bertazzo)

Foto 3: Interior do cockpit do Kfir 2000. (IAI)

Foto 4 e 5: Duas vistas do Kfir C-2 da Força Aérea do Equador em Quito, 1996. (Roberto Bertazzo)

Foto 6: Kfir TC-2 de treinamento da Força Aérea do Equador em Guayaquil, 1997. (Alfredo Jurado)

Foto 6a: Kfir TC-2 da Força Aérea Equatoriana sendo manutenido por mecânicos em uma base aérea. (Força Aérea Equatoriana)

Foto 7: Kfir C-2 da Força Aérea do Equador, sendo este o avião do Cap. Maurício Mata, que se encontra à frente, com a marcação de derrube do A-37 peruano, ocorrida em fevereiro de 1995 no conflito do Cenepa. (Roberto Bertazzo)

Foto 7a: Rara foto mostrando no meio da floresta amazônica um Sukoi 22 da Força Aérea Peruana abatido em combate aéreo ocorrido em 12 de fevereiro de 1995. Notar que o avião caiu praticamente inteiro abatido por um míssil ar-ar disparado pelo Mirage F-1 do Cap. Uscátegui da Força Aérea do Equador. (Força Aérea Equatoriana)

Foto 8 e 9: Duas vistas do Kfir CE da Força Aérea do Equador em outubro de 1999. (Roberto Bertazo)

Foto 10: Á equerda um Kfir C-7 e á direita um Mirage V em vôo de formação da Força Aérea da Colômbia. (Força Aérea Colombiana)

Foto 11: Kfir TC-7 de treinamento da Força Aérea da Colômbia. (Força Aérea Colombiana)