04 Novembro 2003
A Defesa em Crise
O setor industrial fabricante de materiais de emprego
militar do Brasil enfrenta um grave período de dificuldades
COSME DEGENAR DRUMOND
Diretor Redação Teconologia & Defesa
Uma boa parte do moderno conforto material que a humanidade usufrui certamente tem relação direta com a evolução tecnológica verificada nos campos da Defesa, Aeronáutico e Espacial. Nessa ordem de antiguidade esses três setores desenvolveram a partir da Segunda Guerra Mundial conhecimentos multidisciplinares que assimilados por outros setores de trabalho resultaram em extraordinários benefícios materiais para a sociedade civil. É o caso, por exemplo, da informática civil, do GPS (Global Positioning System) e do espetacular avanço presente nos automóveis de hoje, mais seguros e mais confortáveis.
As inovações geradas por esses três setores formam um vasto elenco de contribuições - o cristal líquido, o aço especial, os materiais compostos, a energia nuclear. A difusão de dispositivos informatizados, a eletrônica embarcada, a miniaturização de componentes eletrônicos, as máquinas de controle computadorizado, os sistemas de desenho, a engenharia e manufatura por computador (CAD/CAE/CAM), são outros exemplos notáveis nessa interação. A medicina também conseguiu erradicar doenças até então consideradas incuráveis a partir dos conhecimentos surgidos das atividades aeroespaciais e de defesa.
É claro que tudo isso não explica a guerra, nem deve servir de desculpa para a defesa dos conflitos armados. Mas, tudo isso é fato. Cada vez mais o mundo se beneficia de tecnologias originalmente criadas para atender aos requisitos militares.
Considerados estratégicos em qualquer nação moderna, esses setores apresentam uma característica muito própria para se desenvolverem: a participação concreta do Estado, pelo emprego que é dado a seus produtos, em grande parte, destinados às instituições militares e forças de segurança. Com essa meta no Japão, na União Européia e nos Estados Unidos, a política governamental é utilizada de forma intensiva e generalizada, como instrumento de compra, de apoio e promoção de suas indústrias.
Nos Estados Unidos os gastos militares têm como objetivo estimular a atividade de P&D, a inovação e a difusão de novas tecnologias, seja através da contratação das atividades ou para assegurar demanda futura para os novos produtos e processos. O Buy American Act assegura mercado para a produção nativa e veda a aquisição de produtos estrangeiros sempre que eles possam ser fabricados no país, inclusive exigindo a fabricação sob licença. O Small Business Act beneficia o conjunto de produtores locais (as pequenas e médias empresas, especialmente), conferindo-lhes acesso privilegiado e compensando sua menor competitividade.
Nem sempre o que funciona bem nos Estados Unidos é praticado no resto do mundo por uma série de razões. Mas, não custa citar algumas práticas vigentes na grande nação do norte nessas áreas específicas.
O Departamento de Defesa norte-americano responde por cerca de dois terços dos gastos do governo federal com atividades de P&D. Mais do que isso, uma parte dos investimentos é usada na contratação de atividades científicas e tecnológicas, diretamente junto às empresas. Orçamentos de defesa são alocados para a NASA, cujas pesquisas incrementam um volume significativo das atividades militares. Desse modo, as entidades convertem-se em agências do governo, exercendo papel crucial na mobilização de instrumentos de política tecnológica e industrial em setores-chave, como em eletrônica, novos materiais, computação, aeronáutica e espaço, facilitando os esforços das empresas e das corporações que atuam nesses setores. Os projetos militares são programados para atender, sobretudo, ao crescimento nacional.
A França representa o ponto extremo (pelo menos tem sido assim), advogando total independência no caso da demanda de sua produção de uso militar. Outros países com indústrias incipientes, como a Finlândia, Suíça e Turquia, exigem contrapartidas comerciais correspondentes para as compras que contratam no exterior. O Japão, em todas as suas aquisições de produtos de defesa (basicamente de origem norte-americana) adotou a fabricação sob licença, mesmo no caso de compras em escala reduzida, graças à sua condição econômica, com a meta de agregar capacitação e tecnologia para desenvolvimentos futuros.
Um estudo recente, relativo a 50 aglomerados de inovações introduzidas em diferentes países nas últimas cinco décadas, indica que pelo menos em 50% dos casos a política de compras dos governos proporcionou efeitos significativos. Do ponto de vista de política industrial, a importância dos gastos militares decorre não tanto de seu peso no total das compras governamentais, mas, antes de tudo, de sua natureza. Isto porque uma parcela expressiva dos gastos está associada a programas complexos, de longo prazo, que compreendem a contratação de pesquisa e o desenvolvimento de produtos, a produção efetiva e o fornecimento perene dos equipamentos desenvolvidos. Como política de incentivos, a Europa suporta de diversas maneiras a Airbus Industries. O Canadá e a Suécia usam formas criativas de financiamento de desenvolvimento de produtos civis, enquanto o Japão concede subsídios e empréstimos alavancados pelo MITI para participação de sua indústria em programas de parceria de risco. Um exemplo dessa dinâmica é o motor CF-34 General Electric que equipa os novos jatos comerciais da Embraer(EMB170-190) e possui 30% de participação de companhias japonesas.
Na área espacial, no caso específico de satélites de telecomunicações, hoje objeto de uso por muitas empresas privadas, há também elevada aquisição governamental com a participação efetiva da indústria de defesa, o que alcança nos Estados Unidos um volume de 70% dos investimentos. No período pós-Afeganistão e pré-conflito do Iraque, o conceito "network-centered" de aplicação militar alavancou significativamente a tecnologia espacial, com resultados muito nítidos nas comunicações e no controle do espaço aéreo nacional. Não se consegue mais ver o satélite dissociado do cotidiano da sociedade moderna.
Como demonstração do suporte fornecido pelos países desenvolvidos, os valores dos investimentos federais nos setores de Defesa, Aeronáutico e Espacial vão de alguns bilhões de dólares norte-americanos, no caso da Alemanha, França, Japão e Reino Unido, a dezenas de bilhões de dólares no caso norte-americano, segundo dados da OECD (Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento). Na parte espacial, a Itália e a Índia investem anualmente US$ 600 milhões e US$ 250 milhões, respectivamente (o Brasil gasta US$ 50 milhões).
Esse esforço de investimento tem como meta a aquisição de Poder com domínio tecnológico completo, desde a concepção até a operacionalidade dos meios técnicos. Considerando que os produtos dos setores de Defesa e Aeroespacial, pela evolução tecnológica exigida, não se acham disponíveis "na prateleira" (são baseados em especificações e requisitos), é fundamental garantir seu completo desenvolvimento. O país que não tem auto-suficiência tecnológica adquire seus materiais no exterior e neste caso paga pela execução do incremento tecnológico no outro país e ajuda dessa forma a consolidar o Poder externo, contribuindo para gerar empregos qualificados e abrir novos mercados fora de suas fronteiras. Aliás, em termos de geração de empregos, estudos publicados pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos indicam que uma exportação de US$1 bilhão na área aeroespacial gera 15.000 empregos. Esta foi a principal razão que levou o governo norte-americano a colocar um enorme esforço para ganhar o bilionário contrato do Projeto SIVAM no Brasil.
Por todos os aspectos demonstrados, as nações com pretensão de predomínio econômico e político aplicam políticas protecionistas e de concessão de incentivos para seus setores estratégicos. Ciência e Tecnologia se desenvolvem atreladas ao parque industrial e o país que não tiver capacidade, ou interesse, de absorver a inteligência de seus próprios recursos humanos assistirá tal desperdício migrar para as nações desenvolvidas.
REALIDADE BRASILEIRA
Com a visão de futuro, poucas décadas atrás, o governo brasileiro concebeu e executou ações continuadas e coerentes nesses campos específicos. Conseqüentemente, o Brasil revelou a maior e mais estruturada indústria aeroespacial do continente e uma fantástica capacidade técnico-industrial no setor de defesa. No mesmo período, foram incentivadas no país as atividades espaciais. O Brasil passou então a exportar para mais de 35 nações uma variedade de produtos de uso militar, desde aviões e veículos blindados sobre rodas a sofisticados sistemas de artilharia para saturação de área, e forneceu foguetes para pesquisas científicas na atmosfera.
A Embraer firmou-se na década de 1970 e no período seguinte experimentou um crescimento tecnológico notável que colocaria o Brasil como um dos dois maiores exportadores de jatos regionais do mundo. Pela excelência dos produtos que desenvolve a atividade aeronáutica é hoje o único setor de alta tecnologia no país a ter marcas reconhecidas no mercado internacional, segundo o critério adotado pela OCDE. O Brasil integra um pequeno grupo de países (cinco apenas) que tem o domínio do avião alerta radar, enquanto alguns países desenvolvidos abastecem-se nos Estados Unidos.
No instante em que o setor aeronáutico brasileiro iniciava essa trajetória, as primeiras antenas parabólicas, a inteligência geográfica em defesa, os vetores científicos, os materiais compostos para exploração de petróleo na plataforma continental e outras avançadas tecnologias nasciam no país alavancadas pelo Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE). Recentemente, o Projeto SIVAM possibilitou a sofisticação tecnológica dos aviões brasileiros inteligentes e de uso militar. Em todas essas etapas, o envolvimento direto do governo foi fundamental, embora as exportações do setor resultassem, em boa parte, de iniciativas desenvolvidas pelas empresas de forma individual.
Contudo, nos últimos anos essa grata revelação tecnológica sofreu um declínio acentuado, com conseqüência mais dramática no campo de defesa, decorrente da diminuição dos orçamentos para investimentos. O país passou então a atender suas necessidades militares por meio de compras no exterior, estimuladas pelo financiamento externo. Sem capacidade orçamentária para investir no parque setorial, o Brasil importou até mesmo produtos usados. Ainda assim, as importações não foram suficientes para livrar as Forças Armadas da obsolescência material. A Força Aérea Brasileira, por exemplo, entrou em processo de colapso operacional, justamente no setor em que o país ostenta a quarta maior indústria do planeta.
Com a problemática orçamentária, muitos programas tecnológicos estagnaram, inclusive no setor espacial, outra atividade estratégica para um país de dimensão continental, população elevada e expressão econômica nada desprezível, dependente de produtos e serviços espaciais para sua maior integração e desenvolvimento. O PNAE não foi tratado com a devida prioridade, talvez por não ter sido considerado um "programa estruturante". Com o atraso do cronograma original (ensaios muito distantes um do outro, principalmente), o esperado desenvolvimento nessa área não se consolidou no prazo previsto, sobretudo, na área de foguetes espaciais. Um aspecto visível nesse campo é a obsolescência tecnológica que acontece como num toque de mágica. Daí a necessidade vital de sua execução permanente, em velocidade cada vez maior.
A falta de investimentos acarreta a perda da capacitação tecnológica, a eliminação de empregos qualificados e a queda da posição brasileira no mercado mundial. A alta carga tributária incidente sobre os produtos e serviços nessas áreas é outro agravante. Um único míssil de uma certa indústria brasileira custa, segundo informação do setor, 37% a mais do que o mesmo sistema de arma disponível no mercado externo. Daí os produtos externos passam a ser mais atraentes em preço e o governo brasileiro opta por importá-los, atraído novamente pela facilidade do financiamento externo.
O setor de defesa não tem merecido um tratamento condizente com sua importância e projeção, no nível em que se verifica lá fora, principalmente quanto a financiamento, apoio à exportação e promoção externa, ainda que no passado o país tenha colhido destaque internacional nessa área. Com o atraso sofrido, as nações que antes se achavam a reboque do Brasil nesse campo ostentam hoje posições de vanguarda e são fornecedores inclusive das Forças Armadas brasileiras; souberam aproveitar a queda dos investimentos públicos no país e o pouco interesse político do governo brasileiro de reconhecer e estimular a contribuição dos programas militares no processo tecnológico nacional.
Aquelas mesmas nações oferecem financiamentos atraentes para seus produtos. E continuam exercendo influência. Em agosto último, uma reunião de representantes do governo analisou uma proposta sul-africana para produção de um míssil de combate de nova geração para a FAB (a ofertante quer vender em seguida um míssil BVR de médio alcance). Na mesma ocasião o Ministério da Justiça recebeu uma oferta de financiamento externo para comprar materiais de defesa na Europa. Segundo fontes do setor, o desenvolvimento do míssil oferecido teria custo de cerca de R$ 70 milhões; os materiais oferecidos à Polícia Federal superariam US$ 1 bilhão. Enquanto essas ofertas são analisadas a indústria de defesa brasileira não é consultada e tem que assistir o bonde passar.
Autoridades brasileiras com poder de influência, inclusive da área militar, conhecem bem as instalações de indústrias estrangeiras, em especial dos Estados Unidos e Europa. Grupos de parlamentares também costumam visitar as feiras internacionais, onde são cortejados pelas multinacionais com interesse no mercado brasileiro. Entretanto, muitos deles não sabem, por exemplo, que o Brasil está desenvolvendo um complexo programa de míssil anti-radiação no mesmo alto nível do que é desenvolvido lá fora, a pouco mais de 1.000 km de distância de Brasília. Enquanto um produto dessa categoria tecnológica tem custo de desenvolvimento estimado no exterior em mais de US$ 1 bilhão, o mesmo armamento está sendo feito no Brasil com pouco menos de inacreditáveis US$ 100 mil e com resultados que têm animado os técnicos e engenheiros envolvidos no processo.
Entretanto, a despeito da falta de percepção das autoridades pela coisa nacional, a indústria aeroespacial tem exibido resultados positivos em seus balanços econômicos e financeiros de natureza industrial, comercial e estratégica. No setor de defesa não tem havido essa correspondência, até mesmo pela perda de domínio que as indústrias sofreram no mercado nacional, ainda que a Constituição Federal considere que "o mercado interno integra o patrimônio nacional e será incentivado de modo a viabilizar o desenvolvimento cultural e sócio-econômico, o bem-estar da população e a autonomia tecnológica do País, nos termos da lei federal".
Um dos fatores que mais limitam uma progressão efetiva nessa área é o fato de que as pesquisas de ponta em termos de tecnologia, materiais e processos ligados à produção têm origem entre os militares. Apesar de todo o esforço no passado para promover uma base tecnológica no país, o fato é que grande parte das pesquisas de ponta no setor vem sendo feita fora do Brasil, embora outro documento oficial incentive o contrário - a Lei Complementar NΊ 97, de 09 de junho de 1999, que na parte relativa à Política de Defesa Nacional menciona: "É essencial o fortalecimento equilibrado da capacitação nacional no campo da defesa, com envolvimento dos setores industrial, universitário e técnico-científico. O desenvolvimento científico e tecnológico é fundamental para a obtenção de maior autonomia estratégica e de melhor capacitação operacional das Forças Armadas".
A antiga visão estratégica, voltada a capacitar o Brasil em projeto e produção de avançados sistemas de defesa, não teve continuidade. Se tivesse sido preservada com igual intensidade de convicção política a partir dos anos 90, o país possivelmente teria mantido pelo menos sua posição de liderança tecnológica e industrial nesse campo entre os países ditos emergentes. A exemplo dos norte-americanos que "farejaram" o potencial do avião ainda no curso do nascimento desse invento, os oficiais da aeronáutica militar brasileira também tiveram a capacidade de antecipar o futuro ao apostar no desenvolvimento de uma indústria aeronáutica no país. Além do tino estratégico, ao agirem assim eles demonstraram estar em plena consonância com uma das grandes contradições da humanidade: o fato de que boa parte do progresso tecnológico é conseqüência direta de soluções voltadas para atender às necessidades militares.
O avião é um exemplo por excelência dessa afirmativa: certamente os irmãos Wright não teriam encontrado financiamento para produzir este invento primordial sem o interesse despertado entre os oficiais do Exército pelo aeroplano. É notável que numa época em que a maior parte da energia motriz das forças armadas dependia da tração animal, os oficiais norte-americanos tenham tido a visão imediata das possíveis aplicações militares do novo invento e o governo se tenha disposto a investir dinheiro vivo nele.
CORTANDO NA CARNE
A crise na defesa nacional é grave. Não há soberania sem base industrial autóctone. A crise é mais séria por causa da dispersão dos recursos humanos especializados, a perda de muito deles, a solução de continuidade em P&D, a falta de incentivo à C&T e, finalmente, por estar causando o escoamento de uma arquitetura tecnológica que exigiu muito tempo e dinheiro para se concretizar. O governo não soube, ou não quis, azeitar o segmento industrial no interesse do país, uma situação que não é de hoje, diga-se de passagem. O Acordo Militar Brasil-Estados Unidos (1952-1970) foi o primeiro grande golpe na indústria setorial. Nem mesmo durante o regime militar houve preocupação oficial em aglutinar o setor. Naquela fase turbulenta da política nacional, os fabricantes de materiais de defesa do Brasil trabalhavam o mercado mundial de forma autônoma, cada um por si, sem o gerenciamento de Brasília. Se uma empresa de defesa dirige-se ao BNDES para pleitear financiamento que possa ajudar a expandir suas instalações, ela bate com a cara na porta e deixa com isso de gerar empregos, tecnologias e produtos. Para montar um armarinho o tratamento já é diferente.
Nos últimos anos, o governo tem gastado pequenas fortunas para promover algumas incipientes indústrias de base tecnológica do setor em eventos internacionais, quando no Brasil essas mesmas empresas reclamam que suas linhas de produção estão ociosas. Não seria mais produtivo investir primeiro nelas e otimizar a produção para depois, sim, buscar-se o mercado externo? É muito comum encontrar em feiras internacionais grupos de pequenas e médias indústrias estrangeiras promovendo seus produtos e tecnologias. Essas indústrias também exibem claramente nesses eventos uma produtiva interação com seus respectivos governos.
Mas as críticas não devem ser dirigidas unicamente ao governo pela atual situação de penúria da indústria de materiais de defesa do Brasil. O próprio setor tem deficiências visíveis; embora possuam uma capacitação altamente qualificada, elas não advogam com firmeza seus interesses e quando um grande programa nacional é lançado cada empresa puxa a brasa para sua sardinha. Há exemplos nessa direção registrados pelo segmento aeroespacial. No passado, houve casos de indústrias de defesa que se engajaram em projetos tecnológicos que acabaram se revelando sorvedouros de verbas públicas; os produtos que aprontaram jamais entraram em serviço operacional, ou porque tinham peso excessivo ou apresentavam bitola incompatível com o padrão rodoviário do país. Os exemplos formam uma lista extensa de materiais que fracassaram depois de consumir milionárias verbas públicas em seus desenvolvimentos, inclusive na área aeroespacial.
A idéia de que o governo pretende estimular os setores produtivos e voltá-los para a exportação não passa de conversa fiada no que tange à indústria bélica. O setor ainda é considerado uma herança maligna do regime militar. Talvez por isso não tem assento assegurado no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Curiosamente, de certa maneira isto foi previsto em 1986, durante uma festa de aniversário de um notório embaixador, em Brasília. Na ocasião, as indústrias de defesa contribuíam com valores de expressão na balança comercial do país. Um grupo de empresários conversava num canto da festa quando uma alta autoridade da República veio saudá-los. Ao ouvir a conversa sobre o potencial que as indústrias de defesa ostentavam, a autoridade deu um banho de água fria no grupo: "Não se enganem! O setor de vocês nada representa politicamente no Brasil!".
Outra lacuna no setor pode ser constatada folheando-se as publicações brasileiras que cobrem suas atividades. Com raras exceções as empresas não se preocupam em difundir na mídia seus portfólios e priorizam apenas o chamado marketing direto para promover os produtos. Além disso, a grande maioria nega para a imprensa até mesmo dados básicos sobre seus produtos, alegando compromisso de confidencialidade com o cliente militar. Conseqüentemente, muitas notícias sobre o setor acabam sendo veiculadas na imprensa de forma equivocada, como recentemente ocorreu em artigo de uma publicação semanal, ajudando assim a desgastar ainda mais a já combalida imagem do setor. Contrariamente, as indústrias estrangeiras abrem seus dados e informações e lançam campanhas publicitárias que reforçam o marketing direto. Há caso de material de defesa estrangeiro muito mais conhecido no Brasil do que o similar nacional.
A indústria de defesa do Brasil tem, hoje, pouca participação na balança comercial do país, ao contrário do que ocorria no passado, notadamente em 1987, ano de maior expressão setorial. Atualmente, cerca de US$500 milhões são exportados pelo setor, incluindo-se a venda dos produtos militares da Embraer. Mas o potencial tecnológico-industrial nesse segmento é vasto e pode atender plenamente às necessidades materiais das Forças Armadas, desde que, para isso, o governo federal participe efetivamente desse esforço. Sem isso, as reuniões da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa (ABIMDE), que congrega o setor, continuarão repercutindo pouco. Aliás, uma medida que poderia ser adotada pela entidade seria convidar para membros integrantes de seu Conselho representantes dos Ministérios da Defesa, das Relações Exteriores, da Indústria e Comércio e das Forças Armadas, e das Comissões de Defesa do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. Pelo menos isto seria um oportuno termômetro para medir o tamanho do interesse oficial pelo setor.
Nos Estados Unidos e na Europa, a interação das autoridades com a indústria local é permanente. Além disso, chefes de governo não economizam esforços para usar o cargo supremo que exercem e influenciar negócios de interesse de suas indústrias de defesa. No Brasil, contudo, isto é outra coisa incomum. A última ajuda de que se tem notícia, de um presidente brasileiro que se esforçou para usar sua influência em benefício do setor ocorreu há 12 anos atrás, por ocasião da decisão contrária ao MBT Osório, na Arábia Saudita, e de uma concorrência do governo uruguaio para compra de aviões de treinamento militar. Os resultados não foram os esperados, mas o presidente tentou. Talvez por saber que o Brasil também sofre a influência de outros países toda vez que abre grandes concorrências para aquisição de produtos militares.
As indústrias de materiais de defesa e de sistemas aeroespaciais não são a solução para todos os problemas brasileiros, mas seguramente se constituem em forte ingrediente para o crescimento nacional. Devido a sua natureza intensa de geração de inovações que irradiam, reaquecer o setor industrial significa gerar novas tecnologias e produtos, através da interação entre empresas, universidades e centros de pesquisas, e elevação do nível de qualidade dos recursos humanos nele envolvidos. Nesse aspecto, a industria internacional poderia oferecer contribuições valiosas ao setor brasileiro através de programas de offset consistentes, respeitando-se a prioridade nacional, como, aliás, ocorre em seus países de origem. Nunca é demais desenvolver tecnologias.
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As dificuldades reclamadas pelo setor de Defesa nacional No mercado interno 1.Recursos das Forças Armadas para investimentos a cada ano mais reduzidos; 2.Excesso de carga tributária sobre materiais de defesa, alcançando até 42%, o que faz diminuir a capacidade de compra das Forças Armadas, já que os impostos são incluídos nos preços dos materiais; 3.Diferença de tratamento entre as empresas estrangeiras e brasileiras (as estrangeiras são isentas de impostos no Brasil); 4.Liberação de recursos financeiros pelo governo, para aquisição pelas Forças Armadas, somente no final de cada ano, o que dificulta às empresas atenderem as encomendas; 5.Falta de programas de fornecimento de materiais de longo prazo (plurianuais), que possam proporcionar planejamentos de produção às empresas nacionais; 6.Ausência de financiamentos por instituições financeiras nacionais, para desenvolvimento e produção de materiais de defesa; 7.Existência desnecessária de compras de materiais no exterior, o que concorre para a saída da moeda brasileira e desprestígio da indústria nacional, dificultando a criação de novos empregos; 8.Falta de divulgação, com antecedência, dos programas de aquisição das Forças Armadas; 9.Não existência de convênios tecnológicos entre a indústria e centros de excelência militares, para desenvolvimento de novos sistemas de defesa. 4.Liberação de recursos financeiros pelo governo, para aquisição pelas Forças Armadas, somente no final de cada ano, o que dificulta às empresas atenderem as encomendas; 5.Falta de programas de fornecimento de materiais de longo prazo (plurianuais), que possam proporcionar planejamentos de produção às empresas nacionais; 6.Ausência de financiamentos por instituições financeiras nacionais, para desenvolvimento e produção de materiais de defesa; 7.Existência desnecessária de compras de materiais no exterior, o que concorre para a saída da moeda brasileira e desprestígio da indústria nacional, dificultando a criação de novos empregos; 8.Falta de divulgação, com antecedência, dos programas de aquisição das Forças Armadas; 9.Não existência de convênios tecnológicos entre a indústria e centros de excelência militares, para desenvolvimento de novos sistemas de defesa. O que falta para uma melhor participação do setor no mercado internacional 1.Missões comerciais em países potencialmente compradores de materiais de defesa; 2.Apoio para divulgação de produtos no exterior, através das embaixadas e seus adidos; 3.Apoio governamental para participação em feiras internacionais; 4.Fornecimento de garantia bancária, por instituições financeiras do governo, para a execução de contratos firmados no exterior; 5.Programa de financiamentos para a compra de componentes necessários à execução dos contratos firmados; 6.Benefícios fiscais para a exportação, no mesmo nível do que ocorre em outros países; 7.Cláusula de compensação financeira (Offset); 8.Participação efetiva em programas de Offset. Fontes: AIAB/ABIMDE |
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Entrevista com o presidente da ABIMDE ( Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa) Tecnologia & Defesa É grave a situação na indústria bélica brasileira? Coronel Roberto de Carvalho Eu acredito que seja uma época de maior dificuldade no setor, a mais grave de todas. T&D Em que áreas o setor industrial de defesa pode oferecer independência material ao país? Carvalho A nossa capacidade tecnológica é muito grande, podendo cobrir todos os campos em que as Forças Armadas possam apresentar necessidades. Não vejo justificativa para se buscar soluções de curto prazo no exterior, quando podemos fazer tudo aqui, gerando tecnologias, economizando recursos e produzindo empregos. T&D Que medida mais urgente o governo deveria adotar para otimizar o setor industrial? Carvalho Liberar recursos para investimentos pelas Forças Armadas, de forma a criar faturamentos imediatos para as empresas através de encomendas de materiais. T&D Que contribuição as empresas podem oferecer para corresponder ao apoio oficial? Carvalho Manter-se em condições de responder de imediato, com qualidade, às necessidades das Forças Armadas, quando apresentadas, e ajudar no esforço de exportação do país. T&D As Forças Armadas perderam a capacidade política de eleger e decidir suas prioridades? Carvalho Infelizmente, elas tiveram que se resignar e se adequar às condições que este governo e o anterior determinaram, reduzindo tremendamente os recursos financeiros necessários, o que vem diminuindo sensivelmente a capacidade operacional das Forças Armadas, a par de cada vez mais ver seus equipamentos ficarem obsoletos. Atualmente, as prioridades do governo para distribuição de recursos estão voltadas para a área social, deixando os outros setores à míngua. É só fazer uma análise do orçamento apresentado no Congresso para 2004. T&D O senhor gostaria de acrescentar algo? Carvalho Eu gostaria de dizer que precisamos também procurar soluções de médio e de longo prazo para permitir a sobrevivência de nosso setor e sua competição frente aos concorrentes estrangeiros. Temos também que tomar cuidado com essa lei de Desarmamento, para que não venha prejudicar ainda mais o setor industrial.
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