
30 Janeiro 2003
FX, a oferta do dia
Mais uma proposta de caça pode estar a caminho da Força Aérea Brasileira
( Especial para Defesanet)
COSME DEGENAR DRUMOND
O articulista é Diretor de Redação da
Revista Tecnologia & Defesa
A oferta não é nova, remonta ao momento em que o brigadeiro Carlos Baptista, então Comandante da Aeronáutica, anunciou uma solução paliativa para a Força Aérea Brasileira/FAB (leasing do Kfir), enquanto não se tivesse a definição do FX. Na ocasião, o Comando da Aeronáutica recebeu do embaixador da África do Sul no Brasil, Mbuelo Rakwena, uma carta na qual a indústria de defesa sul-africana registrava o interesse de também participar do quinhão brasileiro, oferecendo seu caça ATLAS Cheetah. A oferta falava em leasing mas não entusiasmou o brigadeiro; a ficha técnica do jato militar era rala demais. A proposta foi descartada.
Na cerimônia de posse de Luiz Ignacio Lula da Silva, o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, reacendeu o assunto. A idéia, agora, seria vender um punhado de jatos de combate para o Brasil, ou trocar por produto brasileiro, um negócio estimado em cerca de US$70 milhões. O embaixador Rakwena voltou ao cenário e o assunto foi parar no Comando Geral do Ar. Para um executivo com interesse na proposta (sua empresa intermediaria a venda do armamento), a oferta é "coisa de governo para governo", lastreada na afinidade existente entre o Partido dos Trabalhadores e o Congresso Nacional Sul-Africano. A proposta oficial estaria sendo preparada, contendo, como atrativos, um ano de Suporte Logístico pela Contratada (CLS) e pacote de 20 mísseis de combate.
O Comando da Aeronáutica não tem conhecimento da proposta, segundo informa um brigadeiro de quatro estrelas. "O que existiu, ano passado, foi uma carta oferecendo um leasing que não evoluiu". A mesma fonte diz que não há interesse da FAB pelo caça do país dos 11 idiomas, por se tratar de "um equipamento tão antigo quanto o próprio Mirage III", que, aliás, começa a deixar o serviço ativo este ano. Na quinta-feira passada, 23 de janeiro, um representante da indústria de defesa de Pretória esteve no Parque de Material Aeronáutico de São Paulo, para uma sondagem de apoio logístico e manutenção, recebendo uma resposta sem grande expectativa: "Estamos preparados para executar qualquer serviço que possa ser útil à Força Aérea Brasileira".

O Cheetah é descendente direto do jato Kfir, modelo C-2. Surgiu do processo de repotencialização do caça israelense, em 1984, com o objetivo de proporcionar à Força Aérea da África do Sul maior capacidade de dissuasão e de combate às ameaças potenciais ao país. Sob embargo comercial, sem condição de adquirir armamento no mercado internacional, o governo da África do Sul contratou uma de suas indústrias, a ATLAS Corporation, para atualizar o caça. Em julho de 1986, o primeiro exemplar modificado ficou pronto, batizado de Cheetah (Guepardo).
As reformas contaram com a ajuda de Israel, embora isto não seja oficialmente reconhecido. Foram introduzidas mudanças na célula do avião e adotados novos sensores e aviônica. O motor original (ATAR 9B) foi trocado por outro, mais moderno (ATAR 9K50). A instalação de sistema de reabastecimento em vôo ampliou o raio de ação do caça, que também ganhou nariz novo para alojar um radar ELTA. O caça recebeu head-up-display e conceito HOTAS (Hands on Throttle and Stick), que diminui a carga de trabalho do piloto. O armamento ar-ar são canhões internos DEFA 30mm e mísseis Darter infravermelhos. Para ataque ao solo, pilones adicionais levam bombas convencionais e inteligentes. Com superfícies canard e strakes no nariz, cerca de 50% da estrutura foi trocada, aumentando a vida útil do avião, com previsão de emprego até 2010, no máximo.
As alterações proporcionaram maior capacidade de combate em relação ao modelo original. Porém, na atualidade, o desempenho do jato militar já não é grande coisa. Um especialista militar, ex-piloto de caça, afirma que o Cheetah tem limitações de uso do motor (problemas de estol de compressor e apagamento do motor, especialmente a grandes ângulos de ataque), sua manutenção é complicada (semelhante a do motor do Mirage III, bem conhecida na FAB), e o custo de revisão geral de mais de US$ 1,2 milhão. A vida útil remanescente é mínima, o suporte de célula e de motor é incerto (o ofertante não é o fabricante original e dependerá de estoque limitado, ou de outros fornecedores), o núcleo aviônico é de geração de 1985, o sistema de navegação usa plataforma convencional INU (Inertial Navigation Unit), não usa armamento BVR (Beyond Visual Range) e o radar de controle de tiro é tão obsoleto quanto o do Mirage III, com tecnologia de software não mais suportada e sem condição de modificação ou melhoramento.
Com o fim do embargo comercial, a Força Aérea da África do Sul está se renovando com aeronaves novas e avançadas, tendo já definido o seu FX. A partir de 1998, iniciou um esforço setorial para vender o componente militar antigo no mercado internacional. São equipamentos de vários tipos, armazenados na Base Aérea de Waterkloof, incluindo aviões de transporte, de treinamento militar e de ataque leve, helicópteros, etc. No inventário, encontram-se 15 Cheetah e 21 Mirage F1, além de peças sobressalentes e armamentos. O preço de cada aeronave varia de US$300 mil a US$1 milhão, dependendo da condição do motor. Só em suprimentos aeronáuticos, para diversos aviões, são cerca de 300 milhões de dólares, em materiais estocado em Waterkloof. Aproveitando a queima do estoque, a Força Aérea do Chile comprou apenas sobressalentes para os seus caças Pantera.
A promoção sul-africana não tem angariado sucesso, mas existem previsões na indústria de que em 2003 e 2004 as vendas acontecerão para forças aéreas com orçamentos apertados e sem sofisticação de planejamento estratégico. Dois anos atrás, o Brasil adquiriu da Marinha dos Estados Unidos, por quase oito milhões de dólares, carcaças de P-3 Orion, para serem reformadas a um custo superior a US$300 milhões. O mercado externo está cheio de material aeronáutico usado e barato. Para descarregar o inventário, livrar-se do gasto da preservação inútil e angariar receita, a prática comercial é comum. A Força Aérea Brasileira, no entanto, carece de tecnologias novas, modernas, que possam resgatá-la da obsolescência em que já se encontra.
O primeiro oferecimento do Cheetah ao Comando da Aeronáutica nasceu no rastro do moribundo FX, um projeto que visa dotar o Brasil de um caça moderno, adequado para os desafios da operação militar nos próximos 30 anos. A Força Aérea Brasileira tem um passado rico em glórias, realizações e conquistas. Comprar produtos desgastados pelo tempo e quase obsoletos não é compatível com a grandeza histórica da FAB e o papel que dela se espera no futuro.
NOTA DO AUTOR: No dia 27 de janeiro, tentamos ouvir o embaixador Mbuelo Rakwena. Seus assessores informaram que o diplomata estava em almoço (13h40min), não se achava na embaixada (14h45min) e se encontrava recebendo uma visita (15h55min). Ficaram de devolver os telefonemas. No dia seguinte, um assessor, Alcântara Júnior, telefonou para dizer que o embaixador falaria sobre o assunto. Marcada a entrevista para o dia 29, a Embaixada não retornou o telefonema.
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