www.defesanet.com.br

Notícias nas áreas de: Defesa, Estratégia, Inteligência e Tecnologia.

03 Março 2004

Página Dois

Fantasmas do Araguaia
Soldados descobertos por ÉPOCA mostram onde enterraram guerrilheiros
e o governo ordena escavações

LEANDRO LOYOLA

A lei mais sagrada nas matas do Araguaia era ''ver, ouvir e calar'', como ordenavam, logo de cara, os comandantes militares aos soldados que chegavam à região para combater a guerrilha do PCdoB. O mandamento foi seguido à risca. Trinta anos depois, o Brasil ainda sabe muito pouco sobre o que aconteceu naqueles confins amazônicos entre a noite de Natal de 1973 e o fim de 1974. Esse período marca a investida decisiva do Exército no extermínio do mais organizado foco de combate ao governo desde Canudos. Nenhum dos 35 guerrilheiros que restavam na área (eram mais de 70 dois anos antes) sobreviveu para contar sua versão da história. Os militares que participaram da chacina fecharam-se e a campanha do Araguaia sumiu dos documentos oficiais. Não apareceram nem cadáveres para que as famílias pudessem enterrar seus mortos. Até hoje, apenas um corpo foi identificado. Esse silêncio é rompido agora com o depoimento de quatro soldados que atuaram na repressão à guerrilha em Xambioá. Durante 11 dias eles contaram a ÉPOCA como guerrilheiros foram presos, mortos e enterrados. Mais do que isso: apontaram os locais onde corpos de pelo menos quatro jovens combatentes foram sepultados. Os depoimentos inéditos jogam um pouco de luz sobre esse período de sombras.

''É a primeira vez que militares que participaram do combate decidem colaborar'', diz Nilmário Miranda, secretário nacional dos Direitos Humanos, que esteve na área em Xambioá a convite de ÉPOCA e também ouviu os soldados. ''A área que eles apontaram como o local das covas era desconhecida e os depoimentos são consistentes.'' O lugar será isolado imediatamente pelo governo. Nesta semana chegam à região um grupo de antropólogos forenses argentinos liderado por Luiz Fondebrider (o homem que escavou e identificou os restos mortais de Che Guevara na Bolívia) e uma equipe brasileira com radares para fazer reconhecimento e começar a busca dos corpos. Também participarão membros da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos e representantes das famílias.

No ano passado, a Justiça Federal deu ganho de causa aos familiares dos desaparecidos e obrigou as Forças Armadas a revelar todos os seus arquivos sobre o Araguaia. Mas o governo federal recorreu da decisão, adiando a abertura dos segredos. Nos bastidores, no entanto, continuaram intensas negociações. Foi acertado um pacto com os militares: ninguém precisa entregar nomes de executores, nem contar como tudo aconteceu - basta que surjam informações seguras dos locais onde podem ser encontrados corpos, para resgatá-los e entregá-los às famílias. Uma comissão secreta formada por membros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica foi incumbida de revirar arquivos atrás de informações da guerrilha. O prazo para a entrega do material termina em 4 de abril.

Até hoje as Forças Armadas não assumem a luta do Araguaia. Foi a partir de 1966 que militantes do PCdoB começaram a chegar à região. O objetivo era instalar-se por ali e, com o tempo, cooptar a população para criar uma área autônoma no coração do Brasil. Alguns deles eram guerrilheiros treinados na China. A maioria, porém, era de estudantes universitários engajados na militância das cidades que se mudaram para o campo sem maior preparo.

Depois de duas campanhas em 1972 e 1973, quando alguns guerrilheiros foram presos e outros mortos, o Exército voltou com força no fim de 1973. Com a ajuda de agentes infiltrados, camponeses recrutados à força e mateiros ávidos por recompensas, a chacina começou. E teve rápido resultado: já no início de 1975, na mensagem anual ao Congresso, o presidente Ernesto Geisel comunicava que ''estava extinto o foco guerrilheiro de Xambioá''.

A história do Araguaia se divide em duas partes. Até o Natal de 1973 sabe-se do que aconteceu pelos depoimentos de sobreviventes. A segunda etapa inicia-se no Natal de 1973, quando o Exército destruiu um acampamento e demoliu a estrutura da guerrilha. Dispersos, os combatentes do PCdoB passaram a ser caçados como bichos pela selva. Todos foram mortos.

Os ex-soldados Raimundo Pereira, Josean Soares, Antônio Fonseca e Elias Oliveira estavam por lá e têm muito a contar. Com 18 anos, eles foram recrutados em Marabá para um serviço militar comum, mas foram jogados no centro da guerrilha. Mais precisamente numa base do Exército e da Aeronáutica em Xambioá, município às margens do Rio Araguaia, em Goiás (hoje a área pertence a Tocantins). Localizada fora da cidade, a base era um centro de comando e apoio. Ali os militares usavam barba e cabelos longos, vestiam roupas comuns e tratavam-se como ''doutor'', ''delegado'' ou ''detetive''. Eram homens de batalhões de infantaria e pára-quedistas de regiões de fronteira.

''Eu só sabia de guerrilha de ouvir falar. Quando fui para lá, chorava de medo de não voltar para casa'', diz o ex-soldado Elias Pereira. Em períodos de serviço que duravam até 70 dias seguidos, os recrutas viram como o Exército operava: tortura, execuções sumárias de militantes presos, enterros clandestinos, festas para comemorar capturas e recompensas por cabeças. Seus depoimentos revelam fatos até hoje desconhecidos. Contam com detalhes que alguns guerrilheiros passaram meses presos até ser mortos e apontam onde foram enterrados.

Até hoje os quatro sofrem com as lembranças. ''Eu não imaginava que alguém pudesse fazer aquelas coisas. Quem faz aquilo não sabe o que é Deus, não tem amor à mãe, aos filhos'', diz Josean Soares. Os quatro soldados caminharam rotineiramente ao redor do túmulo de Osvaldo Orlando da Costa, o mítico Osvaldão, e tiveram contato com outros seis guerrilheiros: Doca, Walkíria, Lia, Peri, Batista e Áurea.

Walkíria: a última guerrilheira
Prisioneira foi executada a tiros na beira da cova

Numa tarde de outubro de 1974, o rádio da base de Xambioá recebeu a mensagem de que uma patrulha havia capturado uma ''papamai'', código que identificava os guerrilheiros. A notícia foi recebida com festa: satisfeito, o comandante mandou servir vinho e uísque aos oficiais. Minutos depois, um helicóptero desceu na base trazendo uma moça maltrapilha, de bermuda jeans e camisa velha. O troféu, que renderia alguns milhares de cruzeiros, era Walkíria Afonso Costa, de 28 anos, ex-estudante de pedagogia da Universidade Federal de Minas Gerais e vice-presidente de Centro Acadêmico.

Depois de meses de caçada, a foto de Walkíria era uma das poucas que ainda não tinha um ''x'' em cima num quadro pregado na sala de comando da base, com os nomes dos guerrilheiros e respectivos valores de recompensa por prisão ou morte.

Filha de um bancário e criada em colégios católicos, Walkíria nunca havia sido presa antes. Tinha chegado à região em 1971, acompanhando o marido, Idalísio Soares Aranha Filho, também morto. Perdida na selva desde o Natal de 1973, transformara-se numa indigente. Pálida, a pele cheia de marcas de picadas, manca, ela andava descalça pela mata. Quando foi presa na casa de um camponês, aonde tinha ido pedir comida, tudo o que possuía era uma bolsinha com um revólver velho, um punhado de sal com farinha e uma cera para fazer fogo. No dia em que chegou à base militar, seu mau cheiro podia ser sentido de longe. Tomou banho, ganhou uma calça e camiseta branca. Um pedaço de corda de pára-quedas a mantinha amarrada a uma cama de campanha. ''Ela era bonita, tinha um cabelo castanho lisinho. Quase não falava: só pedia água'', conta o ex-soldado Josean Soares, que foi seu guarda em duas ocasiões.

Poucos dias depois, Josean e um colega já falecido foram encarregados de cavar uma cova atrás do refeitório da base. Abriram um buraco de pouco mais de 1 metro de profundidade, em terreno pedregoso. Às 18 horas, após a cerimônia da bandeira, ele e todos os colegas foram dispensados para farrear em Xambioá. ''O comandante mandou a gente ir para a cidade e voltar só depois da 1 hora da madrugada'', lembra Soares.

Era o dia da execução. No meio da noite, Walkíria foi levada para perto do buraco. Com uma espingarda de cano longo, um sargento pára-quedista conhecido na base como Tadeu deu o primeiro tiro, no pescoço. Walkíria caiu e ameaçou se levantar. Recebeu o segundo tiro. Mexeu-se de novo e levou o terceiro. Tudo mostra que ela foi a última guerrilheira a ser morta no Araguaia. Quando voltou da folga, horas depois, Josean foi verificar no cativeiro e não encontrou mais Walkíria presa. Dirigiu-se até a cova que abrira e a encontrou coberta de terra. Ao lado, brilhava uma poça de sangue fresco.

Trinta anos depois, quando estava com a equipe de reportagem de Época, Josean viu uma foto de Walkíria pela primeira vez. Estava na prefeitura de São Geraldo do Araguaia, num quadro em que aparecem as fotos de todos os guerrilheiros. Reconheceu-a na hora e estremeceu. ''Eu nunca pensei que alguém pudesse fazer um negócio assim com uma menina daquelas.''

Página Dois