Energia
e Defesa - 1
Prof. Fernando G. Sampaio, Reitor da
Escola Superior de Geopolítica e Estratégia
Esge@defesanet.com.br
Está definitivamente configurado o gasoduto boliviano
e com isto, as nossas Forças Armadas, a nossa Diplomacia
e o nosso Planejamento Estratégico adquirem nova
dimensão.
É
que o abastecimento de gás pode ser cortado a qualquer
momento, de forma fácil e por grande período
de tempo, principalmente se houver uma sabotagem seletiva
que se desdobre ao longo da linha, em locais pré-determinados
de maneira aparentemente aleatória para os órgão
de segurança, mas muito bem planejado pelo atacante.
Que
significado tem isto? Em primeiro lugar,é mais
um peso para a defesa nacional, mais um ponto vital que
tem que ser pensado e defendido, para proteger os interesses
nacionais.
E como poderíamos defender algo tão vulnerável?
Só
atuando dentro do território boliviano, com acordo
específico e prévio, para criação
de alguma força de intervenção rápida,
de ordem de alguns batalhões, um misto de tropas
de elite bolivianas e nossas, que formassem uma, digamos,
meia-brigada, que seria aerotransportada.
Sendo
a Bolívia um país muito mais pobre do que
o Brasil, temos que considerar desde já, a alocação
de meios de transporte, tanto aviões como helicópteros
dimensionados para poder atender, também, as necessidades
bolivianas.
O
mesmo se aplicará a toda a cadeia logística
necessária para uma operação desta
envergadura, que terá que ser planejada com muita
antecedência, num quadro continental que abriga,
ainda, muito de instabilidade, quer nas Guianas, quer
na Colômbia, Venezuela e Peru e, sempre na Bolívia.
Pelas
suas características de zona de junção
continental, de centro geográfico da América
do Sul, com seu terreno movimentado e árido, com
uma população indígena que fala o
aimará ou outros dialetos amerígenos, a
Bolívia é uma região com dificuldades
para o transporte, comunicações e abastecimento
em geral, agravados pelo clima e pelas peculiares condições
ambientais da grande altitude .
Tudo
deve ser pensado, a começar pela necessidade de
possuir intérpretes, tanto para o espanhol como
para a língua indígena, que também
é oficial ali, o que aponta para um intenso planejamento
que deve ser efetuado para atender a uma possível
emergência.
E
a emergência pode vir. E São Paulo e o restante
do nosso parque industrial não pode parar. Parque
industrial este que se afirma a cada dia, como a região
industrial de todo o continente.
A
interrupção do abastecimento de gás,
por este gasoduto ou por outros gasodutos em outras regiões,
bem como linhas de transmissão de energia elétrica,
que já se planejam, seria um desastre paralisando
a produção industrial em São Paulo,
Rio de Janeiro e Minas Gerais, com reflexos sobre todo
o restante do País.
É
verdade que uma parte do gasoduto poderá ser lacrada
e o abastecimento se faria pelos nossos campos de gás
na Bacia de Campos, mas isso só em detrimento da
interrupção ou drástica diminuição
das necessidades de outras regiões, como por exemplo,
o ramal para o sul.
Temos,
portanto, um quadro imenso para nosso planejamento estratégico
e para estudos táticos-operacionais, de como enfrentar
uma crise desta natureza, pois ela pode vir a suceder.
A
nossa diplomacia terá que intervir, desde já,
para aplainar o caminho para algo que até hoje
nós não fizemos, porque não existia
a necessidade: a criação de um comando bi-nacional
com o país vizinho e, depois com outros, para delimitar
as questões de operações nos territórios
de ambos os países,os custos operacionais, as necessidades
de financiamento, os prejuízos a instalações
de particulares, a questão da morte de civis, tribunais,
indenizações e muitos outros detalhes.
Nosso
recente e ainda não plenamente articulado Ministério
da Defesa, criado em tão boa hora, terá
que pensar não só nos dados efetivos do
problema, o planejamento do tamanho, armamento, equipamento,
custos, fluxogramas de deslocamento-temporal, mas também
na questão delicada do comando, tanto o alto-comando
da operação como o comando no terreno e
serão oficiais de todas as armas e serviços
e de dois países.
Nunca
se efetuou algo desta natureza, repetimos, porque isto
não era necessário, mas o Brasil e a América
do Sul estão sofrendo um processo de transfomação,
lenta mas seguramente, que gera novos cenários.
Parte
desta transformação é o processo
de transvazamento de nossas fronteiras, até aqui
vistas como distantes, mortas, inacessíveis, por
força do vazio demográfico que impera no
centro do continente mas, também pelo descuido
histórico de todos os governos quanto a estas fronteiras
sem conflitos.
Mas
a realidade, daqui para a frente, será muito diferente
e ela deve ser ponderada com muito cuidado, pois em sua
base está algo de imensa importância para
todos os envolvidos e, principalmente para o Brasil: a
união econômica, com a transferência
de fatores da produção no campo energético,
de um país para outro.
A
defesa nacional ultrapassa, assim, nesta questão,
aquilo a que estávamos acostumados a pensar, pois
antes vivíamos sob o signo do nacionalismo e da
auto-suficiência, de costa, como se dizia, uns para
os outros, voltados, respectivamente para os litorais
do Atlântico e do Pacífico.
Agora não, o interior do continente se mostra como
a grande fronteira, a área de expansão,
a zona dos futuros contatos e das trocas comerciais.
Assim,
o emprego de forças armadas, pela primeira vez,
terá um significado de proteção a
bens naturais estratégico, que precisam fluir para
manter a economia nacional funcionando.
E, provavelmente, precisam fluir, igualmente, para manter
a economia e a estabilidade dos parceiros vizinhos.
As
forças armadas adquirem, assim, um papel-chave
tanto nas relações internacionais, dentro
da América do Sul, como o papel essencial d assegurar
a proteção a bens naturais estratégicos,
que precisam fluir para manter a economia nacional funcionando.
Para
quem questiona a necessidade de mantermos o aparato de
forças armadas, eis a resposta clara e decisiva.
A necessidade de utilizar forças armadas não
desaparece, no mundo Globalizado, mesmo no quadro de formação
de um Mercosul ampliado, que termine por abranger todo
o continente.
Pelo
contrário serão as forças armadas
que terão o papel-chave para assegurar o bom desempenho
da indústria, no caso remoto, mas possível,
de ações terroristas contra os gasodutos
e, no futuro, contra linhas de alta tensão e, mesmo
grandes pontes, viadutos e vias férreas e rodoviárias,
os meios de ligação inter-continental, que
transportarão imensa riqueza desde o Brasil para
outros países e vice-versa.
E
deve-se considerar que tais ações de terrorismo
podem se dar dentro do quadro de instabilidade político
institucional dentro dos países vizinhos, como
ação direta contra os governos locais, só
se refletindo sobre nós de forma indireta, por
não sermos os diretamente visados.
Mas,
ainda assim, seriamos atingidos ou seja poderemos ser
arrastados para uma participação nos conflitos
dos outros.
Assim
como, agora, a confederação das nacionalidade
indígenas do Equador deu origem à derrubada
do Presidente em Quito, nada nos impede a pensar de que
grupos indígenas da Bolívia não venham
a reivindicar questões de direitos sobre o gás
produzido no território boliviano ou que transite
no dito território.
Tais
quadros de afirmações de nações
indígenas, como de resto das nacionalidades em
geral, é uma reação visível
a homogeneização decorrente da Globalização,
que traz em seu bojo, o aumento de concentração
de riqueza em áreas dinâmicas, como o nosso
parque industrial centrado em São Paulo e uma mais
visível pobreza, nas áreas periféricas
deprimidas.
Ações
regressivas, ao estilo da "república"
de Chiapas podem estar em gestação, ainda
mais que a transferência de gás e energia
elétrica não é algo provisório,
como pensam alguns, mas uma realidade que está
sendo montada para ficar.
A
Furnas Centrais Elétricas assinou ao início
de dezembro do ano passado um acordo de parceria com a
ICE Ingenieros da Bolívia e a argentina-americana
Pan American Energy, que ainda inclui a japonesa Nissho
Iwai e a americana Cobee Energy Development, para a instalação
de uma linha de transmissão de energia elétrico
com 2,3 mil quilômetros, que trará energia
elétrica diretamente da Bolívia para São
Paulo. Estão previstos fornecimentos da ordem de
2,8 MW, com início de operações para
2004.
Já
em La Paz, o presidente da Yacimientos Petroliferos Bolivianos,
Dr Carlos Salinas Estenssoro, declarava, ao final de novembro
do ano passado, ao assinar acordos de expansão
com a Pan Americana Energy, que o saldo da produção
boliviana-peruana de gás será, em 2010,
da ordem de 268 bilhões de metros cúbicos
de gás. "O destino natural deste gás
é o Brasil, país com grande potencial de
expansão" afirmava e ainda dizia mais: "creio
que em dez anos, quando falarmos de produção
nacional estaremos falando de produção da
América do Sul."
Os
planos revelados por Estenssoro, revelam que no prazo
de uma década os gasodutos interligarão,
também a Colômbia e a Venezuela. Ou seja,
regiões de crônica instabilidade e que constituem
verdadeiro pesadelo, quando se pensa em intervenção
estabilizadora.
Tais
cenários, tais hipóteses, tais perspectivas
apontam já, para a importância de um Ministério
da Defesa operante, para a necessidade de repensarmos
nossa indústria de material bélico, incluindo
aeronáutica e Marinha e na necessidade de integração
das forças armadas de forma operacional, em operações
conjuntas, pois conflitos como este, que teorizamos, vão
requerer alto grau de preparação não
só do Brasil, mas de todos os nossos vizinho-parceiros-aliados.
ESGE - Junho 2000