Entrevista
com o
Tenente-Brigadeiro-do-Ar Luiz Carlos da Silva Bueno,
Comandante da Aeronáutica
Em
visita que realizou ao Torneio de Aviação
de Caça, no dia 1º de outubro último,
o Comandante da Aeronáutica concedeu uma entrevista
coletiva à imprensa local e especializada. Estiveram
também presentes à coletiva o Tenente-Brigadeiro-do-Ar
José Carlos Pereira, Comandante do Comando Geral
do Ar (COMGAR); Major-Brigadeiro-do-Ar Cezar Ney Britto
de Mello, Comandante do Quinto Comando Aéreo Regional
(V COMAR); Brigadeiro-do-Ar João Manoel Sandim
de Rezende, Comandante da Terceira Força Aérea
(III FAe); e o Coronel-Aviador Paulo Henrique Russo, Comandante
da Base Aérea de Canoas ( BACO).
Defesanet
- Comandante, como está a retomada do Projeto F-X?
Brig. Bueno
- A retomada foi iniciativa do próprio Presidente.
No começo do ano, quando o Presidente teve que
retardar o processo, ele disse que dentro de um ano retomaria
o processo de escolha. Para isto, ele recomendou que o
processo fosse retomado no dia 1º de outubro. De
modo que poderão concorrer ao programa as empresas
que participavam do processo. O que é necessário
é uma atualização das ofertas. Por
que eu falo no plural, ofertas? Porque não é
só a aeronave que as companhias oferecem. Normalmente
essas compras no exterior têm o que nós chamamos
de "Offset", ou seja, a contrapartida no valor
igual ao valor da encomenda. Esse processo está
estimado em torno de 700 milhões de dólares.
As contrapartidas oferecidas pelos próprios quatro
ofertantes são muito superiores a esse valor. Sobre
o recebimento das aeronaves, isso vai depender de cada
tipo de avião que será escolhido e do cronograma
de entrega do seu fabricante.
Defesanet - Nas propostas reatualizadas poderá
haver inclusão de melhorias tecnológicas?
Brig.
Bueno
- A aviação é ponta de lança
de qualquer processo tecnológico. Então,
é de se supor, é esperado, é desejado,
que as novas tecnologias que estão sendo incorporadas
aos produtos sejam ofertadas. E também há
uma variação possível da capacidade
de negócios e da capacidade de comércio.
Os países podem ofertar propostas comerciais e
de transferência de tecnologia, um sem número
de ofertas atualizadas, de acordo com o interesse do ofertante.
Isso só pode trazer benefício para quem
vai receber as ofertas, ou seja, para o Brasil.
Defesanet - Na atualização das propostas,
poderá haver modificação do projeto
original?
Brig.
Bueno:
O senhor deve estar se referindo à oferta. O valor
continua o mesmo. Se o ofertante der uma oferta mais cara
ele vai perder na concorrência. A gente abriu a
oportunidade para o ofertante acrescentar valores de desenvolvimento,
de conhecimento e de comércio. O preço estipulado,
o existente, este não tem sido alterado. O objetivo
é exatamente o país comprador adquirir o
melhor produto pelo menor preço e com a maior qualidade
possível de desenvolvimento tecnológico
ou da oferta comercial.
Defesanet
- Não há previsão no orçamento
do ano que vem para a compra dos caças. Como será
resolvida essa questão?
Brig. Bueno:
O orçamento e o Plano Plurianual (PPA) estão
sendo votados no Congresso. E foi percebido isso, mas
é uma questão política. Dentro das
próprias Comissões do Congresso há
a possibilidade de se fazer emendas. Mas como o senhor
sabe, é um processo político. Politicamente,
cabe aos interessados fazer suas propostas e dentro da
maior transparência possível o Congresso
vai outorgar ou colocar valores. Agora, o processo de
financiamento do F-X será um processo de financiamento
total. E um processo de financiamento, para ser aprovado
leva em média dois anos. Procurando acelerar o
máximo possível, ele só se tornará
realmente efetivo em 2006. O contrato pode ser assinado
no próximo ano, após a decisão e
aí se entra na área de discussão
e de aprovação do financiamento. São
22 passos que são dados dentro dos mais variados
órgãos da parte econômica, inclusive
com a aprovação no final de todos estes
vinte e dois passos. Os dois últimos passos serão
dados na Câmara e no Senado, para aprovação
pelo Congresso. Então, essa previsão é
politicamente viável, porque o governo, e quando
eu falo governo refiro-me ao executivo e ao legislativo,
podem fazer as modificações necessárias
para que não haja nenhum empecilho.
Defesanet - Então não há necessidade
de previsão no orçamento do ano que vem
para o F-X?
Brig.
Bueno -
Não. E pode-se apresentar uma emenda dentro do
planejamento plurianual para 2004, 2005, 2006, 2007, e,
assim, sucessivamente. Porque é uma questão
política e a aprovação do projeto
de lei de planejamento também é político.
Hoje, realmente, não precisamos de um tostão,
pois não vai ter avião nenhum chegando no
ano que vem, e normalmente há um tempo de carência
depois que chega o primeiro avião, de quatro a
cinco anos, devido a fabricação. O contrato
tem que ser assinado para se começar e depois se
discute como fazer o pagamento. Faz parte da licitação
o tipo de oferta de financiamento: pagar em dez anos ou
em cinco anos ou pagar em 10 anos a partir do quinto.
Defesanet - Comandante, sabe-se que os Mirages param
em dezembro de 2005. Já foi definida uma solução
para cobrir o vácuo até a chegada dos novos
aviões?
Brig.
Bueno:
Nós temos várias ofertas. Por exemplo: há
uma oferta da Dassault, de manter os nossos Mirage voando
por mais tempo. Se ganhar o projeto francês pode-se
ficar por mais tempo. A Sukhoi tem o Su-27 e está
entrando com oferta do Su-35. Eles têm o Su-27 que
pode vir para cá e ser recolocado para dar prosseguimento
ao nosso sistema de proteção. Então,
dependendo do tipo de avião a ser escolhido, o
fabricante pode nos fazer uma oferta de modo que continuemos
com o nosso sistema de vigilância e proteção
aérea.
Defesanet
- Essa oferta de solução "fill gap"
poderá pesar na escolha do F-X?
Brig. Bueno:
Não creio que essa oferta vá pesar tanto
na escolha. O que vai ter maior peso na escolha será
o tipo de avião, que é muito importante.
Vai ter a avaliação do tipo de avião
e também das contrapartidas. Se o ofertante não
der nenhuma contrapartida, mesmo sendo o melhor do mundo,
e se houver outro que ofereça contrapartida de
tecnologia, de comércio, de troca de informações,
tudo isso tem um peso bem maior. A decisão vai
ser tomada em nível do Conselho de Defesa, do qual
fazem parte vários órgãos, inclusive
a parte política também. Ao Comando da Aeronáutica
vai caber apenas fazer a apresentação das
avaliações técnicas, falar sobre
as contrapropostas e as qualidades do avião, e
nada mais.
Defesanet
- A respeito da questão de Alcântara? Existe
a hipótese de sabotagem?
Brig. Bueno: Uma
imagem fala mais que dois milhões de palavras.
A gente viu que foi um acidente violento que traumatizou
a todo mundo, e nos traumatizou profundamente, pois estávamos
vivendo a fase de pré-lançamento, de modo
que não imaginávamos que fosse acontecer
uma coisa daquelas. Pela imagem você pode verificar
que será dificílimo determinar a causa efetiva
do que ocorreu. Então em momento algum se disse
que estava fora de cogitação um ato de sabotagem.
Uma pesquisa para um acidente dessas proporções
exige que todas as hipóteses sejam viáveis,
sejam possíveis, têm que ser analisadas.
Não há nenhuma condição de
se descartar qualquer hipótese. Nós tomamos
todas as providências de precaução,
para evitar uma sabotagem, para evitar uma surpresa, ou
melhor, uma decepção, como aquela que ocorreu.
Nós cercamos terra, mar e ar. Algumas coisas nós
podemos afiançar. Um sinal de rádio alienígena
poderia disparar aquele foguete. Poderia haver alguém
e emitir um sinal de rádio para comandar o processo.
Mas nós podemos garantir, com todas as nossas preocupações,
que não houve a emissão de rádio
alienígena. Outra coisa que é um engano
é quando o pessoal fala - e eu tenho visto isso
freqüentemente nos jornais -, de que havia uma grande
quantidade de norte-americanos no setor. Isto não
é a realidade. Tenho que fazer essa ressalva, pois
tem saído freqüentemente essa informação.
Pelo conhecimento que nós tivemos, e nós
estávamos atentos para a possibilidade de estrangeiros
cercando o centro de lançamento e procurando por
alguma coisa ou acesso a alguma informação,
não havia americanos em número considerável
de presença na área. Isso nós podemos
afiançar.
Defesanet - A hipótese de sabotagem foi descartada?
Brig.
Bueno:
De maneira alguma. Nunca falamos disso, nem o ministro
da Defesa, nem o governo, nem o próprio CTA. Se
vocês me perguntarem: houve sabotagem? Aparentemente,
não. Nós levantamos tudo, tomamos providências
e precauções. Mas se vocês me dissessem:
jura que não? Eu não juro. A gente não
sabe exatamente a causa. No dia em que a gente souber
a causa, aí podemos dizer: olha foi isso que aconteceu,
exatamente. Mas isso aí está completamente
aberto para vocês acompanharem, para verificarem,
para seguirem as causas, as pesquisas que nós estamos
fazendo.
Defesanet - Quem teria interesse em sabotar o VLS?
Brig.
Bueno: Eu
acho que qualquer país do mundo com o qual seríamos
concorrentes, ou seja, todos aqueles que podem colocar
um satélite no espaço teriam interesse em
que a gente não o fizesse, ainda mais com as condições
privilegiadas que nós temos, com gasto de combustível
muito menor. Então qualquer país nos considera
concorrente como nós também, quando passarmos
a considerar os outros países nossos concorrentes.
Defesanet - O senhor falou que não precisa de
verba agora para a compra do avião, porém
isso vai contra o que o governo falou, que iria gastar
o dinheiro nos programas sociais, como justificativa para
adiar o projeto.
Brig.
Bueno:
Contei aos senhores como é o mecanismo de financiamento.
Quando o projeto foi suspenso era o segundo dia do governo,
02 de janeiro, e o governo ainda não estava ciente,
não estava sintonizado com esse processo de financiamento.
O processo de financiamento tem um tempo de carência.
Então, não havia necessidade de recurso,
como não existe o recurso. Acabei de explicar que
esse recurso só vai ser necessário depois
do período de carência, depois que recebermos
os aviões. Olha, após a assinatura do contrato
o fabricante vai começar a encomendar a matéria-prima,
vai começar a fazer a estrutura do avião,
vai começar a colocar os pedidos nos fornecedores
de motor, de gerador, de trem de pouso, de pneu, de todos
os componentes do avião, porque ninguém
fabrica um avião completo, normalmente. Só
para termos uma idéia, os alojamentos do trem de
pouso principal do Gripen, por exemplo, são fabricados
na África do Sul e o motor é General Electric,
fabricado nos Estados Unidos. Então, o fabricante
coloca seus pedidos e só vai começar a pagar
aos fornecedores dois a três anos depois. Quando
começar a receber é que ele vai montar aquilo.
Antigamente, nós exigíamos que o fornecedor,
ao entregar a proposta, indicasse o financiador. Agora
não. O Banco Central não aceita que o financiador
tenha relacionamento com o fabricante.
Defesanet - Então, não faz sentido a
afirmativa de foi adiado por motivos de...
Brig.
Bueno: Isso
aí eu não posso julgar. É uma decisão
política do presidente. Não sei o que ele
tinha em mente, tanto é que ele mesmo determinou
que recomeçássemos. Agora, qual foi o motivo
que o levou a fazer isso, isto eu não posso lhe
responder; primeiro, porque não fomos nós;
segundo, porque foi uma decisão política,
como está sendo uma decisão política
dele agora de retomar o processo.

Brigadeiros
J. Carlos ( COMGAR), . Bueno e Ney Britto (V COMAR) e
Coronel Russo (
BACO), na foto não aparece o brigadeiro Sandim
( III FAe). Foto V COMAR
Defesanet
- Gostaria que o senhor falasse um pouco sobro o torneio
de aviação de caça.
Brig.
Bueno:
Peço ao brigadeiro José Carlos, que é
o comandante do Comando Geral do Ar (COMGAR), e o responsável
pelo torneio, que fale a respeito.
Brig. J. Carlos: Um torneio como este é
uma forma como a Força Aérea tem, como todas
as forças aéreas do mundo, de exercitar
as tripulações das unidades aéreas
de maneira bastante intensa em pouco tempo, aproximando
muito a situação psicológica da tensão
de conflito, por exemplo, mas em ambiente de absoluta
paz e tranqüilidade. E ao mesmo tempo em que se aprimora
o espírito de corpo e a união das unidades,
o prazer é muito grande aqui no Rio Grande do Sul
e a com a mesma aviação de caça de
Roraima. Dificilmente os pilotos se encontram e as unidades
se reúnem. É a oportunidade de todo mundo
se reunir para trocar idéias. A forma mais barata
que a FAB tem de reunir uma grande quantidade de pilotos
de unidade num único ponto do país e fazer
um exercício intenso e rápido. Todos voltam
para suas unidades e o lucro que obtivemos é fantástico.
O custo é muito pequeno, mas o resultado é
bastante forte. Basicamente é isso aí. Na
crise em que estamos, esta é uma forma de economizar
recursos fazendo exercícios de grande porte. Escolhemos
o Rio Grande do Sul porque há muito tempo não
fazíamos essa operação aqui e estava
na hora de vir para o sul e todo o nosso pessoal está
vindo, inclusive duas unidades da Amazônia. Basicamente
é essa a idéia.
Defesanet - Acompanhando o torneio desde domingo, vimos
que as equipes estão motivadas. O senhor acha possível
manter essa motivação, caso os programas
de interesse da FAB não cheguem a bom termo?
Brig.
Bueno:
Os programas de melhoria da Força, que chamamos
de "melhoria operacional da Força", são
programas de governo, que após estudos chegou-se
à conclusão de que a Força precisa
ser atualizada. Acredito que falei um pouco aqui a respeito
do conhecimento da pesquisa e desenvolvimento que tem
como ponta de lança o avião. Tudo o que
existe, tudo o que aparece no mundo de inovação
tecnológica, sempre se procura colocar no avião.
Conseqüentemente, dessa área de aeronáutica
partem os outros desenvolvimentos tecnológicos
para a sociedade. De modo que eu acredito que este conhecimento
que está sendo incorporado à Força,
este "upgrade", é também do seu
povo. Então, vai chegar a bom termo. Passarei o
microfone ao Brigadeiro José Carlos, para ele mostrar
como está conseguindo manter esse "elan",
essa vibração, essa vontade de participar
e cada vez de maior união com a Força e
dentro da Força.
Brig. J. Carlos: Motivação é
questão de liderança. Existem comunidades
no mundo extremamente carentes e que mantêm o "elan".
A vida eterna é uma delas. Morrer e ter a alma
eterna é uma forma de ter fé. Motivação
é basicamente uma questão de liderança.
Nesse ponto a Força Aérea tem hoje um corpo
de combatentes bastante treinados. Os Comandantes motivados
e o processo de liderança mantém o nosso
pessoal, eu diria, com muita fé no país
e nas coisas que estão acontecendo. Essa reunião
no Rio Grande do Sul mostra bem isso que vocês estão
acompanhando de perto. Eu acho que o Rio Grande do Sul
é um estado que até ajuda a gente a ter
mais fé no país. Também tem algo
a ver com a forma de tratar disso. Questões de
fé e de liderança nós temos; está
faltando o avião.
Defesanet - O senhor poderia informar o cronograma
do F-X?
Brig.
Bueno:
Vai depender do avião que for escolhido, vai depender
das ofertas que serão feitas, de maneira que são
várias as interrogações. Nós
temos aviões que podem ser entregues em 1 ano,
2 anos, 4 anos, 5 anos. De maneira que esse "gap"
vai depender daquilo que a gente falou inicialmente -
das ofertas ou do avião a ser escolhido como substituto
do Mirage.
Defesanet - E o cronograma da fase atual da licitação?
Brig.
Bueno:
Vai ser em outubro. Hoje, primeiro de outubro, as empresas
deverão estar se reunindo em Brasília, no
DEPED. No começo de novembro, 2 ou 3, haverá
a entrega das ofertas. No começo de dezembro, as
ofertas deverão estar estudadas. Feita a seleção,
digamos técnica, será apresentada ao Conselho
de Defesa ou na última semana de dezembro ou na
primeira semana de janeiro de 2004.
Defesanet - O senhor sabe quais as ofertas que serão
feitas?
Brig.
Bueno:
Não posso adiantar o que gostaríamos e como
gostaríamos, pois inclusive desconhecemos o que
existe de melhoria dentro dos projetos que serão
apresentados. Mantemo-nos afastados justamente para não
ter este conhecimento. Vou dizer mais uma coisa: isto
é tão importante que após a escolha
eu garanto a você que em nenhuma conversa a gente
torna pública a oferta. Todos eles também
dizem que a oferta deles é sigilosa, que cada um
ofereceu a sua e não quer conhecer a do outro,
que não têm nem interesse em conhecer porque
também não querem que o outro conheça
a dele. Então você vê o grau de sigilo
da informação.
Defesanet - Quais são os fornecedores que estão
participando da concorrência?
Brig.
Bueno:
Nós recebemos quatro ofertas: Mirage 2000-5; Gripen;
Sukhoi 35; e F16.
Defesanet: E
o MiG-29?
Brig.
Bueno: O MiG-29 ficou fora da última etapa
e não compareceu mais. O Mirage parece que será
o -9, mas não temos influência nisso. O Mirage
oferecido foi o Mirage 2000-5. Externamente é igual
ao atual . Aliás, acho o Mirage o mais bonito de
todos.
Defesanet - Os aviões serão fabricados
no Brasil?
Brigadeiro
Bueno:
Qualquer avião vai ser fabricado lá fora
e virá desmontado ou voando, pois todos têm
reabastecimento no ar e podem chegar ao Brasil tranqüilamente.
Qualquer dos modelos ofertados pode ser montado até
dentro da própria unidade, que fica em Anápolis.
Desmontado é quando são retiradas as asas,
e colocado o que o francês chama de "batic",
que é o invólucro onde coloca as peças.
Então, não irá gerar nenhum aumento
de mão-de-obra no Brasil. Em princípio,
é essa a figura que a gente vê e tem presenciado.
Defesanet
- Quanto às compensações?
Brig. Bueno:
Quanto às compensações não
sei o que vai ser oferecido. Se a França não
oferecer nada para a gente, acha que vai vender só
porque a Embraer representa a França, que tem 20%
do capital dela . Isto não quer dizer nada porque
não é uma oferta. Se ela comprou 20% dela
está tendo um grande lucro, pois a Embraer é
um grande vendedor de aviões. Eu não sei
o que pode acontecer, mas poderá haver oferta de
compra de açúcar, de soja, de banana, dependendo
do montante que o país vai importar. Suponhamos
que vamos gastar 700 milhões de dólares
e venha de lá uma proposta de comprar quatro bilhões
de dólares de material nosso, ou que venha alguém
dizendo que vai nos dar conhecimento para fabricarmos
um míssil de tal geração, ou foguete
dessa geração, ou automóveis com
determinados tipos de conhecimento científico,
melhoria de aço, etc. A gente não sabe quais
as contrapropostas que poderão vir. Mas tudo o
que for oferecido vai entrar na balança e o Conselho
de Defesa irá avaliar. Isso é questão
política também. Por isso digo que não
é uma definição puramente técnica.
Vamos fazer uma avaliação técnica
e apresentar as propostas de "Offset", de contrapartida,
e quem decidirá é o Conselho de Defesa.
Brig. Sandim - Não é somente a Embraer
que está associada a uma outra empresa; a própria
Avibras, que é genuinamente nacional, também
se associou aos russos para a montagem do Su-35 no Brasil.
Brig. Bueno - A VARIG-VEM também está
associada a um fornecedor, assim como outras companhias.
Quando oferecem passar algo de conhecimento, algo de comércio,
podemos pedir para fabricar isso ou aquilo. Nós
temos fábrica de peças de motor. Quando
compramos o AMX, nós montamos uma fábrica
para produzir peças de motor e temos a capacidade
de fabricar peças de motor e até peças
do motor Rolls Royce Trent. Até hoje fabricamos
essas peças . Hoje essa fábrica retornou
para a FAB, com a venda da CELMA. Estamos recebendo propostas
de fabricar peças de motor para a Pratt & Whittney
do Canadá, para a Rolls Royce e até para
a GE. Não está dentro desse pacote, mas
pode ser que peça para nós fabricarmos dois
milhões de palhetas para um motor da GE, do próprio
Sukhoi, da SNECMA, etc..
Defesanet - O senhor poderia fazer uma avaliação
sobre os demais programas em andamento: F-5 BR, ALX, P3
BR, CL-X, etc?
Brig.
Bueno -
O primeiro AL-X deverá ser entregue em 18 de dezembro.
Neste final de ano deveremos receber também o primeiro
protótipo do F-5 BR. Quando ao A1, a Embraer demorou
bastante para nos entregar a oferta porque o A1 foi fabricado
em três modelos e nós temos que padronizá-lo.
No primeiro modelo, por exemplo, algumas fábricas
pararam de fabricar determinados tipos de peças.
Então ele está condenado. Esse primeiro
modelo, daqui a alguns anos não terá mais
peças de substituição, "spare
parts" para os reparáveis. Ele precisa fazer
um "upgrade" para ser equiparado, receber uma
nova parte de eletrônica, porque a eletrônica
dele é antiquada e precisa ser modernizada nos
moldes do F-5 BR e do ALX. Esperamos que no ano que vem
possamos assinar o contrato e dar prosseguimento a essa
modernização. O CL-X, o CASA C-295, que
já foi escolhido pelo Conselho de Defesa, e o P3
BR estão na fase de estudos e de discussões;
porque o cara ganhou não quer dizer que vai ele
levar como pediu; a gente está discutindo com eles.
Aí nós vamos ficar com o helicóptero
- que realmente precisamos fazer alguma coisa com os nossos
helicópteros - temos alguns muito velhos, como
UH-1H, com mais de 30 anos. O processo já começou.
Fizemos um estudo e definimos que vamos fazer com o fabricante
BELL, que vai ser contratado para modificar o motor, a
parte estrutural e a aviônica. Também não
adianta colocar tudo isso se o helicóptero não
fala, se não pode navegar, coisas nesse sentido.
Estamos descobrindo também que precisamos, como
Força, ter um helicóptero de ataque. Principalmente,
porque a gente vislumbra que não estaremos combatendo
sempre numa planície. Muitas vezes poderemos ter
ações dentro da floresta e em outros lugares
que precisam de helicóptero mais robusto e arsenal
mais moderno. Então há a necessidade de
termos essa parte de helicópteros que é
muitíssimo importante dentro de uma Força
Aérea do tipo de possibilidades que temos no nosso
cenário.
Brig. J. Carlos: O AL-X muda o cenário amazônico
e o helicóptero de ataque mudaria ainda mais o
cenário amazônico.
Defesanet - Seria um novo modelo?
Brig. José Carlos: Não, o modelo é
clássico. Você tem um avião alto que
enxerga, um avião-radar, um interceptador de grande
altitude, que são os jatos, que não consegue
pegar o narcotraficante voando baixinho. Então
você tem que ter um terceiro segmento, que voa baixo
e um avião tipo ALX. E o último segmento
é o helicóptero, que pousa em qualquer lugar
e que vai pegar o narcotraficante. A FAB precisa ter esse
segmento completo, num nível mais alto, um satélite,
um avião de reconhecimento forte, um interceptador
supersônico, um interceptador de baixa performance
e um helicóptero. E, por último, claro,
precisa ter a polícia, que vai prender alguém
e que não é problema das Forças Armadas.
Esse é o segmento completo.
Brig.
Bueno - Agradeço a gentileza dos senhores terem
vindo aqui demonstrar o interesse pela Força Aérea,
pelas Forças Armadas também. É muito
importante que o público saiba como estamos trabalhando,
porque estamos trabalhando e o que estamos fazendo. É
importante também que o governo saiba do interesse
da população pelas Forças Armadas,
de modo que eu só tenho a agradecer aos senhores
por este interesse demonstrado. E agradeço a qualidade,
a curiosidade, e a necessidade da informação.
Essa matéria-prima dos senhores, que é a
informação, eu acho muito importante e nós
não podemos negar. Por este motivo, ficamos um
pouco mais, justamente para atendê-los a contento.
Muito obrigado!
NOTAS
DEFESANET
A entrevista coletiva foi concedida nas instalações
da Base Aérea de Canoas, sob coordenação
da Assessoria de Comunicação Social do V
Comando Aéreo Regional.
O
23º Torneio de Aviação de Caça
ocorreu entre os dias 28 de setembro e 5 de outubro passados.
A
CELMA é uma empresa com instalações
na cidade Petrópolis, região serrana do
Rio de Janeiro. Antes de ser privatizada pertencia ao
então Ministério da Aeronáutica.
Foi criada durante a Segunda Guerra Mundial para produzir
motores de aviões.
O
motor Rolls Royce Trent equipa os aviões : B-777,
B-747, A-330 e A-340.
Mais
detalhes sobre o 23º Torneio de Aviação
de Caça pode ser encontrado em http:www.defesanet.com.br/rv/tac2003/index