30 julho 2003

 

Armas Made in Brazil - Os Estereótipos

Nelson During

Defesanet faz algumas considerações ao artigo publicado pelo articulista Diogo Mainardi de Veja (VEJA -1813) . Trazemos fatos mencionados pela primeira vez que mostram a difícil evolução da indústria de defesa nacional e o esforço dessa indústria no contexto de um projeto nacional.

Abaixo de cada afirmação do articulista estão fatos e análises para melhor informar nossos leitores.

1-Saddam Hussein foi o maior importador de armas fabricadas no Brasil. Por isso perdeu todas as guerras em que se meteu.

Defesanet O Iraque comprou cerca de 364 veículos blindados EE-9 Cascavel empregados em especial na Guerra com o Irã. Desenvolvido para atender a uma solicitação especial do Iraque foi o Sistema ASTROS II ( Artillery Rocket Saturation System ) . O emprego maciço de barragens com foguetes ASTROS II conseguiu deter o avanço iraniano nas ofensivas de 1986 e 87, com grandes perdas para as forças iranianas. A chamada morte silenciosa pelos soldados iranianos. As pesadas perdas exauriram o Irã o que facilitou o fim do conflito.

A Tempestade do Deserto só deu partida, após o General Schwarzkopf ter certeza de que; os SCUD estavam eliminados como arma estratégica e a confirmação de que tropas da coalizão não corriam o risco de sofrerem uma barragem de foguetes ASTROS II. SCUDS e baterias de ASTROS II eram os objetivos prioritários da aviação da coalizão. Observar que os ASTROS II não tinham mais peças de reposição desde 1988.  

Rara foto de ASTROS II em operação pela Arábia Saudita. Operando em

posições semi-enterradas. A Arábia Saudita pavimentou seu avanço na

Operação Desert Storm com o emprego maciço de barragens com ASTROS II.

Foto Yves Debay - Raids

No recente conflito do Iraque, um momento de tensão ocorreu, quando em março foram identificados movimentos de ASTROS II em direção fronteira do Kuwait onde poderiam ser usados em um ataque preventivo contra as concentrações de tropas anglo-americanas que estavam sendo preparadas para o ataque.

O sistema ASTROS II foi a única arma não americana a receber comentários positivos no relatório final da campanha da Guerra do Golfo 1991 ( Final Report to Congress Conduct of the Persian Gulf War - April 1992- pág 753)

Cascavel EE9 capturado pelos iranianos em exposição, como troféu de guerra.

2- Submarino Nuclear É o modelo em miniatura mais caro da história.

Defesanet - Aqui a falta de determinação dos governos ao longo dos anos e o boicote internacional são os fatos relevantes. A Marinha tem levado o projeto adiante, porém a falta de recursos, falta de determinação dos diversos governos e além de tudo as restrições ao acesso de componentes específicos desde projetos como o válvulas especiais para fluxos de grande velocidade e sensores especiais. Desde meados dos anos 80, todo e qualquer componente para o submarino nuclear conta de uma lista de restrição. Recomendamos ver duas cartas do Departamento de Estado bloqueando transferência de componentes eletrônicos para o Brasil- 1ª Carta - 2ª Carta

3- Por falar em sucata, o Brasil tem um acordo para comprar armamentos de segunda mão dos Estados Unidos por uma fração do preço original. Em 2001, os americanos nos venderam 91 tanques M60 por 11,7 milhões de dólares, um décimo de seu valor.

Defesanet - Os carros de combate M60A3TTS (Tank Thermal Sight) foram oferecidos para impedir que o pais finalizasse o acordo com a Bélgica para a compra dos carros de combate Leopard 1. Foram recebidos em 1997 por um processo de leasing . Após muitas resistências e até abandono do equipamento o Exército descobre, lentamente que são os melhores carros de combate da América do Sul. Os Carros de Combate leopardo 1 comprados necessitam um extenso upgrade ( computador balístico, sistema de estabilização e visão termográfica e passiva para o motorista), um custo mínimo de U$500.000 por cada carro. Ou seja mais de U$ 50.000.000 para atualizar os mais de 100 leopardos brasileiros, além da necessidade me melhorar a blindagem. Ao ginal do período de leasing o Brasil acabou adquirindo esses veículos que acrediamos ter sido um dos melhores negócios feitos pelo Exército Brasileiro, a compra do M60A3TTS.

O acordo com os Estados Unidos é o Chamado Protocolo 505, porém impõem uma série de restrições ao uso do equipamento e obriga inspeções constantes pelas Forças Americanas nos quartéis brasileiros.

4- Para efeito de comparação, a estatal ENGESA, nos anos 80, investiu 100 milhões de dólares para projetar o tanque Osório, que nunca saiu da fase de protótipo.

Defesanet - A empresa ENGESA ( Engenheiros Especializados SA) era privada ( Família Whitaker Ribeiro). O desenvolvimento de um equipamento novo é mais custoso, do que um produto, que está sendo vendido como excedente. O carro de combate Osório era superior em conceito ao M60A3TTS com alguns itens bem à frente dos seu congêneres na época ( M1 A1, Leopard 2, Challenger e o russo T72). Atropelado pelo fim da Guerra Fria, favores que os árabes tinham para com os americanos e em especial a falta de vontade do governo brasileiro em apoiar o projeto no mercado internacional levou a empresa para uma crise e a falência.

5- Outra grande aposta da indústria bélica nacional foi o caça AMX. ... custou 2,5 bilhões de dólares a cada país...... O plano era vender 800 unidades no mundo todo. Foram vendidas apenas oito, para a Venezuela. Os italianos o apelidaram de F-32, porque custava o dobro de um F-16. ... por causa de seus defeitos estruturais. De fato, ele caía sem parar. Em 2002, depois de mais uma queda, com a morte do piloto, toda a frota italiana do AMX foi interditada.

Defesanet - O transcorrer do programa AMX não foi sem tumultos e a harmonização de requisitos brasileiros e italianos, mais a necessidade de adaptar componentes não fornecidos para o Brasil como o canhão americano GAU-8 Avenger substituído pelo francês DEFA 30 mm. A piada do F32 circulava na própria FAB, pois a missão do AMX, função de ataque não é missão mais adorada pelos pilotos. Além do mais, o espírito caçador esperava um caça. O número de 800 aviões incluía as compras do Brasil e Itália, com o fim da Guerra Fria, quantidades de SU25 e o preço final elevado afastaram clientes em potenciais. Em 1998 o AMX da FAB teve um excelente desempenho no exercício RED FLAG com a USAF. A AMI ( Força Aérea Italiana ) teve um bom desempenho dos seus Ghibli em Kosovo, 1999..

Desenho do AMX monoplace. A FAB opera 55 aviões desse tipo

que estão em processo de modernização.

Fontes da EMBRAER reconhecem que sem o conhecimento de sistemas desenvolvidos para o AMX certamente não teriam a família do jato regional EMB145 . Os aviões da FAB estão recebendo nova suite de aviônicos e radar o que dará uma capacidade enorme ao avião. A FAB teve dois acidentes com perda total dos aviões dos 57 de sua frota em 14 anos de operações. Um por erro do piloto e outro por problemas de mecânicos. Não há restrições estruturais tanto nos aviões da Itália como nos do Brasil

6-O Ministério da Defesa dos Estados Unidos coloca o Brasil em 12º lugar na lista de países com os maiores gastos militares. Ficamos entre Coréia do Sul e Israel. Duas nações em estado de guerra. Deveríamos cortar esses gastos pela metade.

Defesanet - Certamente o articulista retirou os dados do Defesanet ( artigo Orçamentos). A valorização do real frente o dólar colocou uma questão difícil para os militares, ou melhor, demonstrou uma estrutura de gastos, que até o momento os militares não conseguiram resolver. Mais de 80 % do orçamento vai para soldos e pensões.

7- Um jeito simples e rápido de poupar dinheiro é abolir o serviço militar obrigatório.

Defesanet - O serviço de militar por conscritos é mais barato e certamente menos eficiente do que tropas profissionais. O Brasil tem usado um mix de tropas profissionais ( pára-quedistas e fuzileiros navais) com conscritos Uma questão posta às Forças Armadas é da redução do seu tamanho. Um assunto, que estava por trás da dispensa dos 40.000 recrutas, no ano de 2002. A análise desenvolvida pelo Ministro Quintão e seu "Grupo de Notáveis" não progrediu por divergências com as forças, exatamente pelas missões que deveriam ser levadas por cada uma e seu tamanho.

8-Outro jeito é chamar de volta todos os adidos militares lotados no estrangeiro. Esse negócio de adido militar não dá sorte para o Brasil. Costa e Silva, Médici e Geisel foram adidos militares. Melhor suprimir o cargo.

Defesanet - Ao contrário, temos que abrir os canais de comunicação das Forças Armadas Brasileiras com o mundo. O nível de contatos com forças armadas estrangeiras é mínimo. Estamos numa posição de "desconhecimento estrutural", tanto em termos de tecnologia militar como o estado da arte operacional. Quais as implicações dos conceitos do "Network Centric Warfare" dos suecos, ou a "Compressão do Tempo" como usado pelos americanos no conflito do Iraque, ou os conceitos chineses de "Assimetria e Guerra Irrestrita". Quais as influências dessa sopa de letras que será fundamental nos combates do futuro: UAVs, UCAVs, UCGVs e C4ISR? Mudar a postura de a aditância ser um prêmio, mas torná-la uma real fonte de captação de informações técnicas e operacionais aplicáveis à realidade brasileira.

9-A venda da estatal Imbel à iniciativa privada também poderia render uns trocados.

Defesanet - No dia 24 de Julho 2003, assumiu o novo Presidente da IMBEL ( Indústria de Material Bélico ), General-de-Divisão José Carlos Albano do Amarante, substitui o General Paiva Chaves e tem a missão de reposicionar comercial e industrialmente a empresa. A IMBEL tinha o seu grande patrimônio, que era a herança do acervo da massa falida da ENGESA, porém esse valor evaporou em 10 anos. A associação com a inglesa Royal Ordnance na formação da South America Ordnance poderá ser revista

10- Aliás, a guerra civil em nossas cidades é um filão que deveria ser mais bem aproveitado. De olho nesse mercado, a Avibrás lançou o modelo antidistúrbio do blindado Guará, feito para subir morros e invadir favelas, dotado de metralhadora e jato d'água para dispersar manifestantes.

Defesanet - O conhecimento do que seja operações militares em zonas urbanas é totalmente desconhecido para nós brasileiros. Pouco ou nenhum conhecimento temos das operações MOUT ( Military Operations in Urbanised Terrain), de: Israel nos territórios ocupados, Russos em Grozny. Interessante ver estudos de fontes militares estrangeiras com longas análises sobre questões táticas e operacionais aplicadas na cidade do Rio de Janeiro. Para o Guará veja a reportagem de Defesanet sobre blindados da LAD2003. A idílica ação de jatos dŽágua não teria qualquer efeito a não ser refrescar no calor dos trópicos. Em documento, de Abril de 2003, o General Albuquerque, Comandante do Exército, fala para considerar operações em regiões urbanas como elemento da estratégia de resistência. Rompeu o tabu ainda que tímido nesse campo. Veja Boletim Defesanet

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Um Fato Notável

O avanço tecnológico brasileiro em certas áreas pode não ser percebido pela imprensa e a sociedade, e cumprimos aqui essa tarefa. O Brasil é o único pais, além dos Estados Unidos, que tem um sistema operacional de alerta aéreo antecipado e um sistema de vigilância terrestre. Os dois aviões modelos R99A e B e a integração de sistemas eletrônicos desenvolvidos pela indústria nacional ( EMBRAER. ATECH, etc ) produziram um sistema único no mundo.

Patriotismo ou ufanismo verde-amarelo? Não, mas um justo orgulho das realizações da engenharia nacional. Trabalho da organização SIVAM que acabou dando ao Brasil uma projeção estratégica dominante na Região Amazônica e por dizer na América do Sul.

Além disso o Brasil é o único pais do mundo a ter conhecimento operacional de interpretação de dados e características desses sistemas sobre a florestas tropicais ou regiões de vegetação densa. Válido especialmente para o sistema de vigilância terrestre.

Parece que temos algo.

Aviões R99 A ( vigilância Aérea ) e o R99 B ( Vigilância Terrestre ) do 2º/6º Guardião da Força Aérea Brasileira.

A FAB receberá 5 aviões R99 A e 3 do tipo R99 B.

 

Embraer participará em concorrência do US Army - Link

Lockheed Martin escolhe EMBRAER - link