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Importante reportagem que ajuda a delinear o futuro próximo do Brasil. Após sofrer pesadamente com as crises financeiras dos anos 90 (México,
Ásia e Rússia), o Brasil não aproveita o atual período de crescimento econômico mundial.

Mais análises podem ser encontradas na página de EXAME

Notas Estratégicas - Strategic Notes
Defesanet 03 Outubro 2005
Exame 23 Setembro 2005

Por que o Brasil não acompanha o mundo

A economia mundial atravessa um período de prosperidade sem precedentes.
Enquanto isso, o Brasil completa uma década de crescimento medíocre



Por José Roberto Caetano e
Roberta Paduan

EXAME Ao longo da história capitalista, o mundo viveu alguns momentos particularmente felizes em termos de crescimento econômico e produção de riqueza, nos quais tudo parecia conspirar a favor da prosperidade. Foi assim no início do século 20, quando a indústria moderna deu um salto para um patamar até então inédito. O mesmo ocorreu após a Segunda Guerra Mundial, com a Europa e o Japão literalmente se reerguendo das cinzas para se transformar em potências econômicas de primeira grandeza. É também o que se observa, em escala sem precedentes, neste início do século 21. A taxa de expansão mundial no ano passado, de 5,1%, é a mais alta em décadas. Mas o que realmente chama a atenção é sua dispersão geográfica. Graças a um volume recorde no comércio global, os bons ventos têm soprado não apenas para as nações ricas, mas especialmente para as remediadas e até para as mais pobres. Estima-se que exista algo como 20 trilhões de dólares nas mãos de bancos e investidores em circulação no mundo. A taxa de juro se encontra num dos patamares mais baixos dos últimos tempos -- o que funciona como um impulso extra ao crescimento. Como conseqüência, o que se vê mundo afora é produção e consumo em alta, desemprego e miséria em queda. "É um momento realmente excepcional", diz o economista Armando Castelar Pinheiro, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). "Superou as expectativas mais otimistas." Para os brasileiros, esse momento de rara felicidade global deixa a incômoda sensação de que não estamos participando como deveríamos da festa. Não se pode esquecer que o aquecimento da demanda global foi um grande alicerce para que a economia brasileira se mantivesse em pé em tempos de crise política. Seria um erro, porém, nos contentarmos com isso.

Há exatos dez anos o país vem crescendo menos que a média mundial -- a última vez que o Brasil andou à frente da manada foi em 1995, na euforia do Plano Real. Desde então, a economia brasileira acumulou crescimento de 25%, ante uma expansão global de 46%, quase o dobro. A desvantagem fica mais evidente ao se confrontar o desempenho brasileiro não com a média do globo, mas com países em estágio de desenvolvimento semelhante, as chamadas economias emergentes. Aí torna-se nítido que o Brasil tem andado a passos de tartaruga. Enquanto os economistas brasileiros comemoram a possibilidade de o país crescer um pouco mais de 3% neste ano, os chineses observam a economia encorpar quase 10%, taxa que tem sido mantida ao longo do último quarto de século -- lá o desafio é encontrar uma forma de arrefecer essa impetuosidade. A Índia vem um pouco atrás, mas ainda assim com um fôlego de dar inveja. Durante dez anos, de 1987 a 1996, a economia indiana cresceu à taxa anual próxima de 6%. Recentemente acelerou ainda mais o ritmo e atualmente avança 7,3%. Até a Rússia, protagonista de uma grave crise financeira em 1998, tem mostrado uma invejável capacidade de recuperação -- atualmente cresce cerca de 7% ao ano. Taiwan, Coréia, Malásia, Tailândia, Cingapura, Irlanda, Vietnã, Chile, Indonésia e Turquia também fazem parte de uma lista extensa de países que têm conseguido evoluir acima da média global -- e muito à frente do Brasil. Não é de estranhar que a economia brasileira, que já ocupou o posto de oitava maior do mundo, tenha caído para a 14a posição. "O crescimento brasileiro certamente está muito aquém dos demais emergentes", diz o economista Dominic Wilson, do banco americano Goldman Sachs e autor de um trabalho célebre sobre Brasil, Rússia, Índia e China (grupo por ele batizado de "Bric" a partir das iniciais). "O mundo ainda espera ver o Brasil decolar."

 

Para decifrar as razões desse atraso relativo, EXAME ouviu 120 das 500 maiores empresas do país e perguntou a empresários e executivos sobre os principais obstáculos ao crescimento. É constrangedor constatar que a lista não traz exatamente surpresas -- lá estão questões já exaustivamente debatidas e cuja solução tem sido sistematicamente postergada. Encabeça a lista de problemas a fantástica carga tributária brasileira. Na última década, a carga de impostos subiu 10 pontos percentuais e hoje corresponde a 36% do PIB. A mordida no bolso do contribuinte é proporcional à da Alemanha e inferior apenas à de países como Suécia e Noruega, muito mais ricos e com serviços públicos infinitamente superiores. Em economias mais comparáveis, não há nada minimamente próximo à sanha arrecadadora do Brasil -- a carga tributária da Coréia está em 26%, no Chile é de 24% e no México 19%. O sistema tributário brasileiro é também extremamente complexo -- segundo o Banco Mundial, uma empresa média gasta 2 600 horas ao ano para vencer a maratona de obrigações com o Fisco, ante apenas 87 horas na Noruega.

Uma das facetas mais perversas do nosso modelo tributário é inibir novos investimentos produtivos -- isso porque, no Brasil, é preciso pagar imposto para investir. Tome como exemplo o caso da Suzano, uma das maiores fabricantes de papel e celulose da América Latina, com faturamento de 2,6 bilhões de reais em 2004. Há al guns meses a direção do grupo vem analisando um projeto de ampliação de sua fábrica de celulose para exportação no sul da Bahia. O empreendimento consumiria 1 bilhão de dólares e geraria 6 000 postos de trabalho durante a construção. "É desanimador saber que 140 milhões de dólares servirão para pagar tributos antes mesmo de começarmos a operar", afirma David Feffer, presidente e acionista da Suzano. "Se estivéssemos em um país como os Estados Unidos, teríamos isenção de imposto nesse estágio do investimento. Em países agressivos, como a Coréia e a China, ganharíamos incentivo de até 10%."

O apetite desmesurado do setor estatal tem sua origem em decisões equivocadas tomadas no passado. "Nos anos 70, boa parte do mundo fez a opção por mais abertura e menos Estado", diz Samuel Pessoa, chefe do núcleo de desenvolvimento econômico da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro. "O Brasil fez a aposta contrária: fechou o mercado, pretendeu ser auto-suficiente e inflou a participação do setor público." De lá para cada, cada governante fez a sua parte para reforçar essa presença na economia. Resultado: para manter sua estrutura paquidérmica, o Estado brasileiro passou a buscar todo tipo de arrecadação possível. No mercado financeiro, concorre com a iniciativa privada e enxuga grande parte da liquidez disponível no mercado. Segundo dados da Associação Nacional dos Bancos de Investimento, 70% das carteiras dos fundos de investimento são compostas de títulos públicos -- ou seja, o dinheiro de investidores privados é aplicado na dívida do governo. "É prioridade atacar a questão fiscal", diz Manoel Félix Cintra Neto, presidente da Bolsa de Mercadorias & Futuros. "Quando o Estado gastar apenas o que arrecada, daremos um passo importante para os capitais serem direcionados ao investimento na produção."

A concentração dos capitais em papéis do governo está na raiz de outro problema apontado pelos executivos ouvidos por EXAME -- a exorbitante taxa de juro praticada no país, a mais alta do mundo. O custo real do dinheiro no Brasil é o triplo do coreano, o quádruplo do chileno e o sêxtuplo do russo. "É brutal a diferença de custo entre os financiamentos de capital de giro feitos em instituições chilenas e os que fazemos no Brasil", afirma Herbert Schmid, presidente da Santista Têxtil, uma das maiores exportadoras de tecidos do país, que possui uma subsidiária no Chile desde 1999. Mesmo as empresas com acesso a linhas de crédito mais baratas no exterior também têm a capacidade de investimento prejudicada. "Alocamos até 40% dos nossos recursos em aplicações para nos proteger de oscilações cambiais", afirma Mauro Figueiredo, presidente do laboratório de análises clínicas Fleury. "Se houver uma desvalorização do real de uma hora para outra, nossas dívidas podem aumentar drasticamente." O resultado é que sobra menos dinheiro para o investimento. E menos investimento hoje é igual a menos produção e emprego amanhã. Eis a lógica por trás do crescimento menos acelerado do Brasil. Simples assim.

Uma das áreas mais afetadas tem sido a de infra-estrutura. As deficiências do país nesse campo são antigas e representam um dos principais obstáculos ao crescimento, dizem os empresários. Portos, estradas, ferrovias, usinas hidrelétricas -- tudo funciona mal no Brasil. É compreensível que um país emergente tenha uma infra-estrutura inferior à de nações mais ricas. Mas incomoda perceber a incrível lentidão do país para mudar essa situação. "Enquanto muito pouco acontece por aqui, a China tem feito investimentos pesadíssimos para criar boas condições para os negócios", diz Castelar, do Ipea. A taxa de investimento chinesa impressiona: nada menos que 40% do PIB vão para investimentos, ante 19,5% no Brasil.

O fato é que o país vem perdendo muitas oportunidades. Há um ano e meio, o laboratório Bristol-Myers Squibb decidiu descartar o Brasil como opção para implantar uma nova fábrica de medicamentos. O investimento, de 50 milhões de dólares, se destinaria a fazer produtos da nova geração de remédios que o grupo está desenvolvendo para combater doenças crônicas, como diabetes, câncer e aids, entre outras. Concorrendo para receber o inves timento estavam também China, Índia e México. "Ainda não está resolvido qual dos países ficará com a fábrica. Mas o Brasil já está fora do páreo", diz Mario Grieco, presidente da empresa.

Na avaliação feita pelos executivos da Bristol, um dos fatores que colocaram o Brasil em desvantagem frente aos três concorrentes foram os encargos exagerados sobre a mão-de-obra -- outro problema que desponta na pesquisa feita por EXAME com empresários. "A legislação brasileira não só impõe custos altíssimos como também engessa as relações, jogando uma massa de gente na informalidade", afirma o economista José Pastore, uma das maiores autoridades do país no tema. De acordo com Pastore, nos países em que as regras do trabalho são mais modernas, as partes negociam quase todo o contrato de trabalho, não apenas salário, como no Brasil. Na Atento -- empresa de serviços de atendimento do grupo Telefônica e quarta maior empregadora do país, com 44 000 funcionários --, uma das maiores dificuldades é casar a mão-de-obra com a demanda de serviços, que varia drasticamente ao longo do dia. "Não posso contratar uma pessoa para trabalhar 2 horas de manhã e 2 à tarde, porque a lei não permite", diz Agnaldo Calbucci, presidente da Atento. "O incrível é que tem quem prefira trabalhar dessa forma, mas não é possível."

Outro fator que tem espantado os investidores é a estagnação do mercado interno. Em 1996, a indústria farmacêutica registrou no país vendas de 1,9 bilhão de unidades de remédios e faturamento equivalente a 8,5 bilhões de dólares. O Brasil ocupava então o posto de sétimo mercado mundial de medicamentos. Animados com as perspectivas de crescimento, vários laboratórios construíram fábricas e apostaram no país como uma possível plataforma de exportação. Hoje estão com até 40% de capacidade ociosa. O Brasil, no ranking mundial do setor, caiu cinco posições -- agora é o 12o mercado. "Perdemos vários projetos para o México", diz Ciro Mortella, presidente executivo da Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica. "O Brasil não apenas se distanciou dos países avançados como também cedeu espaço a outras economias em desenvolvimento." O mesmo aconteceu em setores como o de eletroeletrônicos e o automobilístico -- as vendas estão aquém do pico histórico alcançado após o Real.

A falta de crescimento da renda, um dos motivos da estagnação observada no mercado interno, alimentou a proliferação de produtos alternativos de baixa qualidade, falsificados ou contrabandeados, que não pagam impostos. É o chamado mercado informal, eufemismo usado no lugar do termo apropriado -- ilegal. A informalidade, estimada em até 40% do PIB, é ao mesmo tempo outra conseqüência do modelo tributário do país. "As empresas menores vão escapando do Fisco", afirma Tadeu Nardocci, presidente da Novelis, multinacional do setor de alumínio. "A maioria delas realmente não seria viável caso tentasse cumprir com a carga e a complexidade tributária", diz Nardocci. O problema é que as empresas ilegais passam a oferecer uma competição desleal com aquelas que cumprem as leis. Esse foi o motivo de a Novelis ter desistido de produzir panelas no país. A fábrica foi repassada para um grupo que também enfrentou dificuldades e já a revendeu a um terceiro comprador. Exemplos semelhantes não faltam em setores como os de computadores, eletrônicos e outros.

Para o Brasil, é perturbador constatar a fantástica oportunidade que pode estar sendo perdida. Não é que o país esteja parado diante da pujança global. A taxa de crescimento, de cerca de 3,5%, não é nenhuma tragédia. O ponto é outro. No momento, sobram preocupações entre os economistas quanto à duração desse período dourado da economia mundial. Há uma série de desequilíbrios lá fora, em particular o consumo provavelmente excessivo dos americanos. Ou seja, é possível que a janela de oportunidade aberta a países que buscam um salto qualitativo em breve se feche. China, Índia e Rússia, entre outros, estão sabendo aproveitar o momento. "É preciso lembrar que o homem ainda terá de conviver com os ciclos econômicos", diz o economista José Alexandre Scheinkman, da Universidade Princeton. "Assim como estamos vivendo uma boa fase, haverá necessariamente um desaquecimento mais à frente. A hora é agora."

 

 

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