Por
que o Brasil não acompanha o mundo
A
economia mundial atravessa um período de prosperidade
sem precedentes.
Enquanto isso, o Brasil completa uma década de
crescimento medíocre
Por José Roberto Caetano e
Roberta Paduan
EXAME
Ao longo da história capitalista, o mundo viveu
alguns momentos particularmente felizes em termos de crescimento
econômico e produção de riqueza, nos
quais tudo parecia conspirar a favor da prosperidade.
Foi assim no início do século 20, quando
a indústria moderna deu um salto para um patamar
até então inédito. O mesmo ocorreu
após a Segunda Guerra Mundial, com a Europa e o
Japão literalmente se reerguendo das cinzas para
se transformar em potências econômicas de
primeira grandeza. É também o que se observa,
em escala sem precedentes, neste início do século
21. A taxa de expansão mundial no ano passado,
de 5,1%, é a mais alta em décadas. Mas o
que realmente chama a atenção é sua
dispersão geográfica. Graças a um
volume recorde no comércio global, os bons ventos
têm soprado não apenas para as nações
ricas, mas especialmente para as remediadas e até
para as mais pobres. Estima-se que exista algo como 20
trilhões de dólares nas mãos de bancos
e investidores em circulação no mundo. A
taxa de juro se encontra num dos patamares mais baixos
dos últimos tempos -- o que funciona como um impulso
extra ao crescimento. Como conseqüência, o
que se vê mundo afora é produção
e consumo em alta, desemprego e miséria em queda.
"É um momento realmente excepcional",
diz o economista Armando Castelar Pinheiro, do Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). "Superou
as expectativas mais otimistas." Para os brasileiros,
esse momento de rara felicidade global deixa a incômoda
sensação de que não estamos participando
como deveríamos da festa. Não se pode esquecer
que o aquecimento da demanda global foi um grande alicerce
para que a economia brasileira se mantivesse em pé
em tempos de crise política. Seria um erro, porém,
nos contentarmos com isso.
Há exatos dez anos o país vem crescendo
menos que a média mundial -- a última vez
que o Brasil andou à frente da manada foi em 1995,
na euforia do Plano Real. Desde então, a economia
brasileira acumulou crescimento de 25%, ante uma expansão
global de 46%, quase o dobro. A desvantagem fica mais
evidente ao se confrontar o desempenho brasileiro não
com a média do globo, mas com países em
estágio de desenvolvimento semelhante, as chamadas
economias emergentes. Aí torna-se nítido
que o Brasil tem andado a passos de tartaruga. Enquanto
os economistas brasileiros comemoram a possibilidade de
o país crescer um pouco mais de 3% neste ano, os
chineses observam a economia encorpar quase 10%, taxa
que tem sido mantida ao longo do último quarto
de século -- lá o desafio é encontrar
uma forma de arrefecer essa impetuosidade. A Índia
vem um pouco atrás, mas ainda assim com um fôlego
de dar inveja. Durante dez anos, de 1987 a 1996, a economia
indiana cresceu à taxa anual próxima de
6%. Recentemente acelerou ainda mais o ritmo e atualmente
avança 7,3%. Até a Rússia, protagonista
de uma grave crise financeira em 1998, tem mostrado uma
invejável capacidade de recuperação
-- atualmente cresce cerca de 7% ao ano. Taiwan, Coréia,
Malásia, Tailândia, Cingapura, Irlanda, Vietnã,
Chile, Indonésia e Turquia também fazem
parte de uma lista extensa de países que têm
conseguido evoluir acima da média global -- e muito
à frente do Brasil. Não é de estranhar
que a economia brasileira, que já ocupou o posto
de oitava maior do mundo, tenha caído para a 14a
posição. "O crescimento brasileiro
certamente está muito aquém dos demais emergentes",
diz o economista Dominic Wilson, do banco americano Goldman
Sachs e autor de um trabalho célebre sobre Brasil,
Rússia, Índia e China (grupo por ele batizado
de "Bric" a partir das iniciais). "O mundo
ainda espera ver o Brasil decolar."
Para
decifrar as razões desse atraso relativo, EXAME
ouviu 120 das 500 maiores empresas do país e perguntou
a empresários e executivos sobre os principais
obstáculos ao crescimento. É constrangedor
constatar que a lista não traz exatamente surpresas
-- lá estão questões já exaustivamente
debatidas e cuja solução tem sido sistematicamente
postergada. Encabeça a lista de problemas a fantástica
carga tributária brasileira. Na última década,
a carga de impostos subiu 10 pontos percentuais e hoje
corresponde a 36% do PIB. A mordida no bolso do contribuinte
é proporcional à da Alemanha e inferior
apenas à de países como Suécia e
Noruega, muito mais ricos e com serviços públicos
infinitamente superiores. Em economias mais comparáveis,
não há nada minimamente próximo à
sanha arrecadadora do Brasil -- a carga tributária
da Coréia está em 26%, no Chile é
de 24% e no México 19%. O sistema tributário
brasileiro é também extremamente complexo
-- segundo o Banco Mundial, uma empresa média gasta
2 600 horas ao ano para vencer a maratona de obrigações
com o Fisco, ante apenas 87 horas na Noruega.
Uma
das facetas mais perversas do nosso modelo tributário
é inibir novos investimentos produtivos -- isso
porque, no Brasil, é preciso pagar imposto para
investir. Tome como exemplo o caso da Suzano, uma das
maiores fabricantes de papel e celulose da América
Latina, com faturamento de 2,6 bilhões de reais
em 2004. Há al guns meses a direção
do grupo vem analisando um projeto de ampliação
de sua fábrica de celulose para exportação
no sul da Bahia. O empreendimento consumiria 1 bilhão
de dólares e geraria 6 000 postos de trabalho durante
a construção. "É desanimador
saber que 140 milhões de dólares servirão
para pagar tributos antes mesmo de começarmos a
operar", afirma David Feffer, presidente e acionista
da Suzano. "Se estivéssemos em um país
como os Estados Unidos, teríamos isenção
de imposto nesse estágio do investimento. Em países
agressivos, como a Coréia e a China, ganharíamos
incentivo de até 10%."
O
apetite desmesurado do setor estatal tem sua origem em
decisões equivocadas tomadas no passado. "Nos
anos 70, boa parte do mundo fez a opção
por mais abertura e menos Estado", diz Samuel Pessoa,
chefe do núcleo de desenvolvimento econômico
da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro.
"O Brasil fez a aposta contrária: fechou o
mercado, pretendeu ser auto-suficiente e inflou a participação
do setor público." De lá para cada,
cada governante fez a sua parte para reforçar essa
presença na economia. Resultado: para manter sua
estrutura paquidérmica, o Estado brasileiro passou
a buscar todo tipo de arrecadação possível.
No mercado financeiro, concorre com a iniciativa privada
e enxuga grande parte da liquidez disponível no
mercado. Segundo dados da Associação Nacional
dos Bancos de Investimento, 70% das carteiras dos fundos
de investimento são compostas de títulos
públicos -- ou seja, o dinheiro de investidores
privados é aplicado na dívida do governo.
"É prioridade atacar a questão fiscal",
diz Manoel Félix Cintra Neto, presidente da Bolsa
de Mercadorias & Futuros. "Quando o Estado gastar
apenas o que arrecada, daremos um passo importante para
os capitais serem direcionados ao investimento na produção."
A
concentração dos capitais em papéis
do governo está na raiz de outro problema apontado
pelos executivos ouvidos por EXAME -- a exorbitante taxa
de juro praticada no país, a mais alta do mundo.
O custo real do dinheiro no Brasil é o triplo do
coreano, o quádruplo do chileno e o sêxtuplo
do russo. "É brutal a diferença de
custo entre os financiamentos de capital de giro feitos
em instituições chilenas e os que fazemos
no Brasil", afirma Herbert Schmid, presidente da
Santista Têxtil, uma das maiores exportadoras de
tecidos do país, que possui uma subsidiária
no Chile desde 1999. Mesmo as empresas com acesso a linhas
de crédito mais baratas no exterior também
têm a capacidade de investimento prejudicada. "Alocamos
até 40% dos nossos recursos em aplicações
para nos proteger de oscilações cambiais",
afirma Mauro Figueiredo, presidente do laboratório
de análises clínicas Fleury. "Se houver
uma desvalorização do real de uma hora para
outra, nossas dívidas podem aumentar drasticamente."
O resultado é que sobra menos dinheiro para o investimento.
E menos investimento hoje é igual a menos produção
e emprego amanhã. Eis a lógica por trás
do crescimento menos acelerado do Brasil. Simples assim.
Uma
das áreas mais afetadas tem sido a de infra-estrutura.
As deficiências do país nesse campo são
antigas e representam um dos principais obstáculos
ao crescimento, dizem os empresários. Portos, estradas,
ferrovias, usinas hidrelétricas -- tudo funciona
mal no Brasil. É compreensível que um país
emergente tenha uma infra-estrutura inferior à
de nações mais ricas. Mas incomoda perceber
a incrível lentidão do país para
mudar essa situação. "Enquanto muito
pouco acontece por aqui, a China tem feito investimentos
pesadíssimos para criar boas condições
para os negócios", diz Castelar, do Ipea.
A taxa de investimento chinesa impressiona: nada menos
que 40% do PIB vão para investimentos, ante 19,5%
no Brasil.
O
fato é que o país vem perdendo muitas oportunidades.
Há um ano e meio, o laboratório Bristol-Myers
Squibb decidiu descartar o Brasil como opção
para implantar uma nova fábrica de medicamentos.
O investimento, de 50 milhões de dólares,
se destinaria a fazer produtos da nova geração
de remédios que o grupo está desenvolvendo
para combater doenças crônicas, como diabetes,
câncer e aids, entre outras. Concorrendo para receber
o inves timento estavam também China, Índia
e México. "Ainda não está resolvido
qual dos países ficará com a fábrica.
Mas o Brasil já está fora do páreo",
diz Mario Grieco, presidente da empresa.
Na
avaliação feita pelos executivos da Bristol,
um dos fatores que colocaram o Brasil em desvantagem frente
aos três concorrentes foram os encargos exagerados
sobre a mão-de-obra -- outro problema que desponta
na pesquisa feita por EXAME com empresários. "A
legislação brasileira não só
impõe custos altíssimos como também
engessa as relações, jogando uma massa de
gente na informalidade", afirma o economista José
Pastore, uma das maiores autoridades do país no
tema. De acordo com Pastore, nos países em que
as regras do trabalho são mais modernas, as partes
negociam quase todo o contrato de trabalho, não
apenas salário, como no Brasil. Na Atento -- empresa
de serviços de atendimento do grupo Telefônica
e quarta maior empregadora do país, com 44 000
funcionários --, uma das maiores dificuldades é
casar a mão-de-obra com a demanda de serviços,
que varia drasticamente ao longo do dia. "Não
posso contratar uma pessoa para trabalhar 2 horas de manhã
e 2 à tarde, porque a lei não permite",
diz Agnaldo Calbucci, presidente da Atento. "O incrível
é que tem quem prefira trabalhar dessa forma, mas
não é possível."
Outro
fator que tem espantado os investidores é a estagnação
do mercado interno. Em 1996, a indústria farmacêutica
registrou no país vendas de 1,9 bilhão de
unidades de remédios e faturamento equivalente
a 8,5 bilhões de dólares. O Brasil ocupava
então o posto de sétimo mercado mundial
de medicamentos. Animados com as perspectivas de crescimento,
vários laboratórios construíram fábricas
e apostaram no país como uma possível plataforma
de exportação. Hoje estão com até
40% de capacidade ociosa. O Brasil, no ranking mundial
do setor, caiu cinco posições -- agora é
o 12o mercado. "Perdemos vários projetos para
o México", diz Ciro Mortella, presidente executivo
da Federação Brasileira da Indústria
Farmacêutica. "O Brasil não apenas se
distanciou dos países avançados como também
cedeu espaço a outras economias em desenvolvimento."
O mesmo aconteceu em setores como o de eletroeletrônicos
e o automobilístico -- as vendas estão aquém
do pico histórico alcançado após
o Real.
A
falta de crescimento da renda, um dos motivos da estagnação
observada no mercado interno, alimentou a proliferação
de produtos alternativos de baixa qualidade, falsificados
ou contrabandeados, que não pagam impostos. É
o chamado mercado informal, eufemismo usado no lugar do
termo apropriado -- ilegal. A informalidade, estimada
em até 40% do PIB, é ao mesmo tempo outra
conseqüência do modelo tributário do
país. "As empresas menores vão escapando
do Fisco", afirma Tadeu Nardocci, presidente da Novelis,
multinacional do setor de alumínio. "A maioria
delas realmente não seria viável caso tentasse
cumprir com a carga e a complexidade tributária",
diz Nardocci. O problema é que as empresas ilegais
passam a oferecer uma competição desleal
com aquelas que cumprem as leis. Esse foi o motivo de
a Novelis ter desistido de produzir panelas no país.
A fábrica foi repassada para um grupo que também
enfrentou dificuldades e já a revendeu a um terceiro
comprador. Exemplos semelhantes não faltam em setores
como os de computadores, eletrônicos e outros.
Para
o Brasil, é perturbador constatar a fantástica
oportunidade que pode estar sendo perdida. Não
é que o país esteja parado diante da pujança
global. A taxa de crescimento, de cerca de 3,5%, não
é nenhuma tragédia. O ponto é outro.
No momento, sobram preocupações entre os
economistas quanto à duração desse
período dourado da economia mundial. Há
uma série de desequilíbrios lá fora,
em particular o consumo provavelmente excessivo dos americanos.
Ou seja, é possível que a janela de oportunidade
aberta a países que buscam um salto qualitativo
em breve se feche. China, Índia e Rússia,
entre outros, estão sabendo aproveitar o momento.
"É preciso lembrar que o homem ainda terá
de conviver com os ciclos econômicos", diz
o economista José Alexandre Scheinkman, da Universidade
Princeton. "Assim como estamos vivendo uma boa fase,
haverá necessariamente um desaquecimento mais à
frente. A hora é agora."