Isto
é uma reforma, e não uma revolução
Helena
Chagas
BRASÍLIA.
Dos primeiros dias de agosto até o início
de setembro, 13 ministros do Exterior e chefes de Estado
e governo africanos terão passado por Brasília.
É o sinal mais concreto de que o Brasil e os outros
países do Grupo dos Quatro (Alemanha, Japão
e Índia) não jogaram a toalha e continuam
trabalhando pela reforma que poderá lhes garantir
vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.
A derrota no primeiro round a decisão da
União Africana de apoiar proposta diferente da
do G-4 não desanima o chanceler Celso Amorim,
que continua cabalando votos africanos para chegar aos
dois terços necessários na Assembléia-Geral
da ONU, em 13 de setembro. Em entrevista ao GLOBO, em
que critica a nova bipolarização entre EUA
e China, Amorim assegura que a posição africana
pode mudar. E que não perdeu o jogo.
Com
a decisão da União Africana de apoiar outro
projeto, o Brasil perdeu a chance de ser membro permanente
do Conselho de Segurança da ONU?
CELSO
AMORIM: De jeito algum. Não jogamos a toalha. Até
porque o Brasil não está sozinho nisso.
A reforma da ONU é um projeto do G-4 e de 32 outros
países que patrocinaram a proposta, entre eles
a segunda e a terceira maiores economias do mundo, França
e Reino Unido. Não é uma aspiração
brasileira tirada do abstrato. Os países da América
do Sul também apóiam, com exceção
de Argentina e Colômbia.
Mas
a posição da União Africana não
jogou por terra as chances do G-4?
AMORIM:
O que é essa posição? A África
não se posicionou contra o nosso projeto. Ela fechou
posição em torno do projeto deles, que é
muito parecido com o nosso, com uma diferença importante,
que é o direito a veto dos novos membros permanentes.
No nosso, deixamos o veto para um segundo momento. Achamos
que isto é uma reforma, e não uma revolução,
e tem que ser feita em etapas.
Esses
países estariam traduzindo interesses de EUA e
China em inviabilizar a reforma?
AMORIM:
Não acredito que haja má-fé. Alguns
países podem ter insistido nessa proposta maximalista
para inviabilizar, mas acho que, progressivamente, a grande
maioria dos africanos está entendendo que é
melhor apoiar outra proposta do que não haver reforma
alguma. Eles não disseram não à proposta
do G-4. Criaram uma comissão para estudar e vão
ter nova reunião no início de setembro.
Podem chegar à conclusão de que a deles
é inviável e apoiar a do G-4. Pelo menos
parte dos países pode mudar de posição.
Por
isso esse desfile de 13 chefes de Estado e chanceleres
africanos em Brasília?
AMORIM:
Não é por isso, mas é claro que ajuda.
O presidente da Gâmbia disse aqui claramente ser
favorável à proposta do G-4. A luta continua.
Por
que a proposta do G-4 é melhor?
AMORIM:
Porque atende a uma necessidade de reforma da ONU. Não
é a reforma definitiva. O mundo muda. Em 15 anos,
pode haver uma situação diferente. Colocamos
uma cláusula de revisão com esse prazo.
O
pleito brasileiro está sendo boicotado na própria
região, pela Argentina...
AMORIM:
O Brasil já concordou em ter um argentino em sua
delegação na ONU, e temos que deixar claro
que os países que entrarem no Conselho estarão
representando suas regiões. O país terá
que ver uma forma de representar toda a região.
Se não, não faz sentido entrar.
A
disputa na ONU deixa clara uma nova bipolarização
entre EUA e China?
AMORIM:
É uma coisa que a China sempre criticou na época
da URSS. Mas agora parecem estar criando uma nova bipolarização
mundial. Deveria haver uma forma de expressarem isso sem
que seja a de não permitir a entrada de quatro
países no Conselho de Segurança. E tem que
ficar claro para esses países que um Conselho mais
representativo vai facilitar a implementação
das decisões, dará legitimidade para que
as decisões sejam seguidas. Fazer a guerra unilateralmente
é possível, mas construir a paz é
impossível.
A
política externa brasileira está sendo criticada
por causa dessa questão do Conselho...
AMORIM:
No Brasil, ocorre uma coisa estranha. Há setores
que parecem satisfeitos com fracassos do próprio
país. Isso contrasta com a atitude interna dos
outros países do G-4, por exemplo. No Japão,
todos, a população, a mídia, fazem
campanha para integrar o Conselho. Aqui, não. Mas
esse processo, ainda que não se conclua agora,
foi fundamental para nós. Com o G-4, o Brasil mudou
de patamar na ordem mundial. Traçamos um caminho
sem volta.