11 de Março, 2012 - 12:00 ( Brasília )

Reapareceu o mico da construção naval

Uma geração de brasileiros já pagou por dois planos fracassados, o terceiro vai pelo mesmo caminho

Elio Gaspari

Nos últimos 60 anos, a Viúva financiou três grandes planos de construção naval. Os dois primeiros, nos governos JK e Geisel, foram à garra. O terceiro, de Lula, vai pelo mesmo caminho. Se o rumo não for corrigido, uma geração de brasileiros será tricampeã de um mesmo mico.

Em 2003, depois de 20 anos de estagnação, a indústria naval brasileira foi anabolizada (revitalizada, na linguagem oficial), tornou-se a sexta do mundo, um negócio de US$ 50 bilhões que emprega 45 mil trabalhadores.

De cada 10 operários, 8 trabalham para encomendas da Petrobras. Tudo bem, mas um navio que custa US$ 60 milhões em Pindorama sai por US$ 35 milhões em outros países. Preço errado é veneno. Mais cedo ou mais tarde o mercado traz a conta. A Vale, que não é boba, contrata navios na China.

O plano de JK foi à garra quebrando marcas de renome, como a Verolme e a Ishikawajima. Teve uma virtude: quem quebrou, quebrou.

No governo Castello Branco, a professora Maria da Conceição Tavares viu o ministro Octavio Gouvea de Bulhões mandar a Verolme passear.

Na ruína do plano dos anos 70, a coisa foi diferente. A Superintendência Nacional da Marinha Mercante garantiu empréstimos a estaleiros quebrados, eles não construíram os navios nem pagaram as dívidas. Passou o tempo e surgiu a expressão "papéis podres". Designavam títulos garantidos pelo governo que valiam zero.

No mandarinato de Itamar Franco, aceitaram-se esses papéis como moeda corrente para a compra de empresas estatais. Bingo, nascera a privataria. O banco Bozano Simonsen tinha algo como US$ 1,7 bilhão em "papéis podres" e seu dono, Julio Bozano, comprou a siderúrgica de Tubarão, a Usiminas e a Embraer. De náufrago da Sunaman passou a barão do aço. Hoje é o 960º homem mais rico do mundo, com US$ 1,3 bilhão. A Viúva vendeu patrimônio para quitar um plano ruinoso e, com dívidas ruins, empresários compraram estatais boas.

Na outra ponta do balcão, aconteciam gracinhas: um dono de estaleiro, associado a um diretor da Sunaman, lançou um prédio na zona sul do Rio. Entre os compradores dos apartamentos, estavam dois diretores da superintendência e um ex-ministro.

Graças à iniciativa de Lula, o Brasil voltou a ter uma indústria naval que constrói navios e plataformas para a Petrobras. O pedaço da grã-finagem que estava apensa aos negócios desse setor foi substituído por sindicalistas.

O metalúrgico Luiz Sérgio, presidente do sindicato de Angra dos Reis, onde ficava a Verolme, tornou-se deputado, ministro da coordenação política e, posteriormente, da Pesca. Passou a arrecadar doações legais para suas campanhas no novo setor naval.

Passados oito anos, mesmo com os juros camaradas do BNDES, os custos da indústria naval continuam altos. Um navio pode ser oferecido por US$ 80 milhões à Transpetro, enquanto outro, semelhante, é proposto à Petrobras por US$ 60 milhões.

Um estaleiro que não cumpriu seus compromissos renegociou a dívida com o BNDES e fatura alugando suas instalações. No campo das gracinhas, a Polícia Federal, com a ajuda da Petrobras, estourou uma quadrilha de fraudadores de licitações de plataformas. Um gerente de reparos ganhou um Audi e duas viagens aos exterior. Aquilo que o PAC chama de estaleiro Jurong Aracruz, no Espírito Santo, ainda é um matagal.

A joia da coroa dessa nova política foi a construção, em Suape (PE), do estaleiro Atlântico Sul, o maior do país. Em 2007, Lula assinou o contrato de encomenda de dez navios para a Transpetro, parte de um contrato de 22 embarcações, ao preço de R$ 7 bilhões. Era novo, tinha a apoio da Samsung coreana e o respaldo de grandes empreiteiras nacionais.

Cinco anos depois, vai devagar, com serviços atrasados. Seu festejado "João Cândido", lançado ao mar por Lula em 2010, continua lá, com problemas na estrutura. Quem sabia fazer navio era a Samsung, mas as empreiteiras deixaram-na com 6% do negócio. Agora o governo quer que ela controle o estaleiro.

CABRAL ACERTOU

Três dias depois de sua posse como governador do Rio de Janeiro, em 2007, Sérgio Cabral classificou a situação da saúde como "calamidade pública". Tinha razão. Passaram-se cinco anos e, com sua participação, continua certo.

E não é só na medicina pública. No dia 10 de fevereiro, uma cliente do plano de saúde Amil (R$ 1.275 mensais) chegou às 4h30min da madrugada ao hospital São Lucas com uma crise renal e fortes dores.

Ficou na emergência, porque não havia quarto, nem lá nem em outro hospital conveniado.
Foi transferida para outra casa de saúde às 17h30min e só conseguiu autorização para ser internada às 21h.

Coisa de país emergente. O dono da Amil, Edson de Godoy Bueno, simboliza um novo tempo. Está na lista de bilionários da revista Forbes, com um ervanário de US$ 2,2 bilhões. Tomara que ele tenha um bom plano de saúde.

A CONTA DA VALEC

Ao ser detonado da direção da Agência Nacional de Transportes Terrestres, Bernardo Figueiredo disse o seguinte: "Eu agradeço o favor que me fizeram".

No mesmo dia surgiram informações de que seria colocado na presidência da estatal que cuidará do trem-bala.

Noves fora a descortesia com o Senado, se ele for para o novo cargo, poderá descascar um abacaxi que ajudou a plantar.

A Justiça italiana condenou o governo brasileiro a pagar R$ 36,4 milhões à empresa Italplan, que fez o primeiro (e delirante) projeto do trem.

A essa época, o negócio estava na mão da Valec, presidida pelo "Doutor Juquinha", defenestrado em 2011. Bernardo Figueiredo era diretor da Valec. Deve saber o que aconteceu.

AS CONTAS DE OPHIR

Estava errada a informação segundo a qual o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Ophir Cavalcante Junior, procurador do Estado do Pará, licenciado desde 1998, recebeu em janeiro vencimentos acima do teto legal.

Seu contracheque informa que o rendimento bruto daquele mês ficou em R$ 29.800, mas, pela primeira vez, seguindo novo ordenamento salarial dos servidores do Pará, aplicou-se à quantia um redutor para impedir que alguém ultrapassasse o teto legal. Seu desconto foi de R$ 5.360.

Até então, Ophir Cavalcante, como outros procuradores, recebia acima do que a lei permite. Durante o ano de 2011, seus vencimentos brutos variaram entre R$ 26.617 e R$ 32.854.

Ele informa que, em agosto de 2011, requereu a suspensão do pagamento da quantia que ultrapassasse o teto, bem como o cancelamento da gratificação R$ 4.115 por estar lotado em Brasília. (Quem funciona em Brasília é a OAB, a procuradoria da qual está licenciado fica em Belém.)

O redutor foi aplicado em janeiro, mas a gratificação só foi suspensa em fevereiro.

O auxílio-alimentação continua em R$ 314,55, uma mixaria contra a qual a OAB precisa protestar, pois os procuradores do Estado do Pará estão comendo mal.

O SÁBIO PARANOICO

De um paranoico, estarrecido com a notícia de que o senador Demóstenes Torres recebeu do contraventor Carlinhos Cachoeira, seu amigo, um fogão e uma geladeira importados como presente de casamento.

"Ficou perigoso até andar sozinho."