23 de Maio, 2016 - 12:10 ( Brasília )

Programa de pesquisas da Marinha contribui para preservação da Ilha da Trindade


Lane Barreto


Situada no centro do Atlântico Sul, a distância de cerca de 1.150 km do município de Vitória (ES), ponto mais próximo do território brasileiro e a 4.300 km do Continente Africano, a Ilha da Trindade é considerada um posto avançado para a Defesa Nacional.

Por estar no extremo oriental do Brasil, a localização de Trindade permite a identificação e o controle de embarcações que transitam em águas próximas da região. Este é um dos motivos pelo qual a Marinha do Brasil ocupa a ilha desde o ano de 1952, explica o capitão de fragata, Sidnei da Costa Abrantes.

“A ocupação da ilha nos garante um ponto de observação no meio do oceano. E ele é considerado estratégico para a Marinha, haja vista que 95% do comércio externo brasileiro são realizados por via marítima. Além desses motivos, também existe a questão ambiental envolvida, já que a ilha possui bioma particular, que o diferencia de outros encontrados no continente”, informa Abrantes.

No local, é mantido um destacamento permanente, com cerca de 40 militares, trocados a cada quatro meses, responsável pela proteção do território. A ocupação contínua pela Marinha assegura ao Estado brasileiro o direito exclusivo de exploração no raio de 400 km em torno da ilha. “Existem interesses de cunho econômico que são vinculados à ocupação para que tenhamos o direito de ter ao redor da ilha 200 milhas náuticas de zona econômica exclusiva”, declara o comandante.

Entre os benefícios do direito exclusivo está o de propriedade às descobertas feitas pelo país no local. Trindade possui intensa vida marinha, com várias espécies de peixes, algumas delas endêmicas, ou seja, encontradas somente na ilha. Além disso, existem os peixes de passagem como os dourados, as garopas e as garopetas, cujo tipo mais recorrente recebeu dos militares que guarnecem o local o apelido carinhoso de “pufa”, abreviação de “por favor, me pegue”. Também são encontrados tubarões lixa e recifais. Exemplares de tubarão-tigre com aproximadamente três metros de comprimento já foram avistados na região.

As praias arenosas da Trindade formam um dos mais importantes sítios reprodutivos da tartaruga verde de todo o mundo. Ainda incidem na região as denominadas tartarugas legítimas ou de pente.

O Projeto Tamar (Projeto Tartaruga Marinha) desenvolve importante trabalho de conservação para a preservação dessas espécies. “A ilha é o local onde ocorre a maior quantidade de desovas de tartaruga verde no oceano Atlântico Sul. O Tamar, anterior ao início do Projeto de Pesquisas Científicas, executa o monitoramento da quantidade de tartarugas que visitam as praias da Trindade para efetuar as desovas”, conta o comandante.

Protrindade

Por causa da ampla diversidade da flora e da fauna na região, o local atrai biólogos, botânicos e geólogos. Como a ilha é propriedade da União e tutelada pela Marinha, a visitação não é pública e só ocorre mediante autorização prévia da Força Naval. “O programa de pesquisas é fruto de uma demanda da própria comunidade científica, porque era muito difícil um pesquisador ingressar no local para conduzir projetos e pesquisas”, afirmou Abrantes, ao ressaltar um dos motivos que levou à criação do Programa de Pesquisas na Ilha da Trindade (Protrindade).

Ele explica ainda que um dos principais objetivos do Protrindade é sistematizar a ida desses pesquisadores, oferecendo oportunidade à realização do maior número possível de projetos científicos. O Protrindade gerencia o desenvolvimento de pesquisas científicas na ilha, no Arquipélago de Martin Vaz e na área marítima adjacente. Trindade e Martin Vaz formam o complexo insular mais distante da costa brasileira, sendo os últimos pedaços do Brasil perdidos no Atlântico.

O programa é supervisionado pela Subcomissão para o Plano Setorial para os Recursos do Mar (PSRM), a qual está diretamente ligada a Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM).

O CIRM é um colegiado formado por 18 ministérios com a função de acompanhar e regular as atividades necessárias para o desenvolvimento da Política Nacional para os Recursos do Mar.

Por meio de deliberações conjuntas, o colegiado do CIRM define as diretrizes para o território marítimo nacional. “Esses membros se reúnem periodicamente e discutem as atividades que são necessárias para a implementação da Política Nacional para os Recursos do Mar. Nessas reuniões são discutidas as ações de caráter comum para que a política tenha uma consecução adequada aos interesses do Estado brasileiro”, explica Costa Abrantes.

Estação Científica

Inaugurada em dezembro de 2010, a Estação Científica da Ilha da Trindade (ECIT) é o local que acomoda os militares e pesquisadores na ilha. O projeto arquitetônico foi concebido na Universidade Federal do Espírito Santo –UFES, que buscou reduzir o impacto ambiental. A Diretoria de Obras Civis da Marinha (DOCM) incorporou soluções modernas, como a técnica construtiva em PVC e o uso de iluminação e ventilação natural para o projeto de construção.

A estação científica tem capacidade para alojar até oito pesquisadores e possui na sua estrutura física: sala de estar, cozinha, dois banheiros, varanda e dois laboratórios, sendo um seco e outro úmido.