Multinacional
do protesto
HUMBERTO TREZZI
Coqueiros do Sul
O
norte do Estado respirou ontem ares de Cuba. Militantes
de esquerda de diversos matizes, oriundos de 10 países
da Ásia, da Europa e da América, desembarcaram
com bandeiras e slogans revolucionários no coração
da fazenda Coqueiros, invadida há oito dias por
2 mil sem-terra.
Agindo
como uma multinacional do protesto, vinculados a ONGs
que fazem um fórum paralelo à Conferência
Mundial de Reforma Agrária em andamento em Porto
Alegre, os estrangeiros receberam o que desejavam: uma
aula prática de conflito agrário. Foram
barrados duas vezes pela polícia, partilharam a
tensão que antecede a expulsão dos sem-terra
e entoaram cânticos rebeldes.
Em
troca, os forasteiros - numa Babel de discursos socialistas
que misturava espanhol, inglês, guarani e até
o idioma bahasa indonésio - fizeram mais do que
revigorar o fervor dos invasores. Transformaram a fazenda
de Coqueiros do Sul, município onde fica a propriedade,
numa paródia da Havana dos anos 60, em plena convenção
da Internacional Socialista. Numa coreografia previamente
ensaiada, os acampados aplaudiram qualquer discurso, mesmo
quando mal-traduzido - ou até os não-traduzidos.
Flâmula
da Venezuela virou coqueluche
A
tour da Capital rumo às terras invadidas começou,
com atraso, às 4h. Houve paradas para o lanche,
outra porque o ônibus velho estragou, além
de duas outras interrupções feitas por policiais
federais e estaduais. Finalmente o grupo chegou à
fazenda-alvo, às 11h30min.
Não
faltaram bandeiras de Cuba à espera dos visitantes,
mas estas perderam em prestígio para a nova coqueluche
dos acampados, a flâmula da Venezuela chavista -
inclusive uma bandeira venezuelana autêntica. Quem
a levou e enrolou no pescoço de um sem-terra foi
Braulio Alvarez, líder da Coordenadoria Agrária
Nacional Ezequiel Zamora (que congrega 4 mil sindicatos
de trabalhadores rurais venezuelanos) e fã incondicional
do folclórico presidente Hugo Chávez.
-
Não se ganha a terra sem luta - disse Braulio.
Foi
a senha para a troca de suvenires - todos com matizes
de esquerda e agrícolas. Os militantes do MST foram
brindados com chapéus de todos os tipos: cônicos,
ao estilo asiático, dos indonésios. Coco
e de feltro, ao estilo dos indígenas andinos. De
palha, vindos do Paraguai. E até boinas espanholas,
além de lenços verdes da Via Campesina.
Presentearam seus benfeitores com camisetas e bonés
do MST.
Uma
ordem da Justiça impedia que os forasteiros entrassem
no acampamento. O MST a interpretoub à sua maneira:
receberam os estrangeiros dentro da fazenda, mas fora
das barracas. E ali mesmo improvisaram discursos nos quais
a tônica foram os brados de resistência e
o tilintar de foices contra facões. Para deleite
dos visitantes.