| Guerra
Irregular Moderna
2009: ano de efervescência da luta social
Entrevista João Pedro
Stedile - Jornal Sem Terra nº289 Parte 1
Parte 2 a ser publicada 28 Janeiro 2009
Ao completar 25
anos, o MST entende ser necessário traçar
um panorama das lutas que nos trouxeram até
aqui, as mudanças ao longo destes anos, e
apontar os desafios para o próximo período.
Para contribuir com esse debate, o Jornal Sem Terra(nº
289) conversou com João Pedro Stedile, que
está otimista e acredita que depois de 15
anos de descenso da lutas dos trabalhadores, 2009
será um ano de maior efervescência
da luta social, no campo e nas cidades.
Confira abaixo a
primeira parte da conversa com o dirigente. A segunda
parte você poderá ler na próxima
edição do Jornal Sem Terra.
Lutas: do
latifúndio ao agronegócio
As mudanças
dos inimigos da Reforma Agrária fazem parte
da evolução do capitalismo. No início
do Movimento, o inimigo principal era o latifúndio,
porque concentrava terra e porque havia uma possibilidade
real de ser feita uma Reforma Agrária nos
moldes clássicos, em que a distribuição
de terra é combinada com a indústria.
E este modelo era de interesse de uma burguesia
industrial. Quando o modelo do capitalismo industrial
entrou em crise na década de 80, na seguinte
década, a classe dominante brasileira evoluiu
para um capitalismo internacionalizado, dominado
pelo capital financeiro. Essa nova etapa do capitalismo
chegou na agricultura, durante os últimos
seis anos, com essa nova forma de dominação
por meio das empresas transnacionais, que passam
a controlar o modo de produzir: insumos, adubos,
fertilizantes, venenos, máquinas, o comércio
agrícola e os preços. E eles fazem
uma grande aliança desse novo capitalismo
com os fazendeiros capitalistas, para inclusive
se apoderarem do latifúndio atrasado e incorporarem
as áreas de latifúndio a esse modelo.
Esse modelo, aplicado à agricultura, é
que se chama agronegócio. Com essa mutação,
a luta pela Reforma Agrária passou a incorporar
novos inimigos. Ela não só continua
enfrentando o latifúndio, mas agora também
as empresas transnacionais, o capital financeiro
por trás delas, e o modelo do agronegócio.
Antes era mais fácil, havia a ocupação
do latifúndio e a gente enfrentava o fazendeiro.
Agora não. Agora, mesmo quando a gente ocupa
uma fazenda, em geral, por trás do fazendeiro
tem uma grande empresa, tem o Estado brasileiro,
que o protege, colocando em primeiro lugar não
a eliminação da pobreza e da desigualdade,
mas a produção.
Conluio
com a mídia
Agora, os inimigos
da Reforma Agrária têm muito mais influência
e parceria com os meios de comunicação.
Antes esses meios podiam não se interessar
muito pelos latifundiários, mas eles têm
interesses vinculados com as grandes empresas. Há
um conluio de classe mais complexo. Às vezes,
o mesmo banco tem ações da Globo e
também da Monsanto. A imprensa nos últimos
dez anos começou a tratar o MST como um inimigo
de classe. Antes, a imprensa tinha raiva das nossas
lutas, mas nos suportavam, agora não. E essa
é uma dificuldade, porque eles disputam a
sociedade conosco. E como eles são um monopólio,
significa que vão ter mais influência
sobre a sociedade contra a Reforma Agrária.
Derrotar
o neoliberalismo para viabilizar a Reforma Agrária
Como tudo é
dialético e tem contradições,
o lado bom dessa maior complexidade da luta é
que agora a Reforma Agrária só tem
viabilidade se nós derrotarmos o neoliberalismo.
E para isso vamos ter que criar uma grande aliança
dentro da classe trabalhadora. Significa que os
camponeses vão ter que necessariamente se
aliar com outros setores da classe, com os trabalhadores
da cidade, para realizar a Reforma Agrária.
Se antes o camponês tinha ódio do latifundiário,
e muitas vezes um ódio pessoal, agora ele
tem que desenvolver consciência de classe.
Ele tem que compreender que o inimigo agora é
o sistema, a Monsanto, a Nestlé, inimigos
que a gente não conhece tão bem. E
o nosso Movimento e as demais organizações
que fazem a mediação da luta de classes,
têm que se preparar melhor. Uma coisa é
trabalho de base para ocupar o latifúndio.
Outra é explicar porque temos que ocupar
uma área da Syngenta, por exemplo, que é
uma empresa suíça, que domina sementes
transgênicas. O que é uma semente transgênica,
porque o preço do leite é controlado
pela Nestlé, Parmalat, Danone...
Crise no
Brasil
A crise que se instalou
no centro do capitalismo e que está vindo
para a periferia, provavelmente vai se agudizar
em 2009 aqui no Brasil. Em janeiro, já caíram
os índices de produção da indústria,
aumentou o desemprego, a inadimplência. A
crise tem um papel importante: ela é um estimulador
da luta de classes. Porque na crise todo mundo pode
perder, e alguns podem ganhar. É na crise
que as classes tendem a se reposicionar para defender
mais claramente seus interesses. Nos momentos de
crise há uma readequação da
burguesia, da classe trabalhadora, dos camponeses.
Acredito que 2009 será um ano muito importante
para produzir uma efervescência da luta social.
Para que os camponeses se mobilizem, e, sobretudo,
para que haja uma retomada da luta social nas cidades,
que esteve anestesiada pelo refluxo do movimento
de massas nos últimos 15 anos do neoliberalismo.
E se houver esse reascenso, será um momento
propício para fazer alianças e construir
pautas comuns.
Reforma
Agrária Popular
Nós vamos
seguir com nossa obrigação: ocupar
terra, lutar por crédito, casas. Mas, como
provavelmente vai haver luta social nas cidades,
certamente vai ser criado um clima para que o MST
participe de outras mobilizações com
o tema extra-reforma agrária. Mesmo que essas
lutas não representem mais desapropriações
de terra, mas em médio prazo vão representar
a derrota do neoliberalismo e vão abrir uma
brecha política para que a Reforma Agrária
seja recolocada na pauta de disputa política
da sociedade brasileira. Porque agora a Reforma
Agrária foi derrotada pelo neoliberalismo.
Por isso nossa luta tem sido tão difícil
nesses últimos dez anos. Mas com a crise
e com a retomada das lutas, a Reforma Agrária
será recolocada como uma das reformas necessárias
para sair da crise e trazer mudanças estruturais
para o povo brasileiro. A nova Reforma Agrária
vai estar vinculada com mudanças do modelo
econômico capitalista. Que ainda não
será o socialismo, mas será um modelo
mais popular, com distribuição de
renda e soberania nacional. Isso abre brechas para
uma Reforma Agrária popular, que combine
desapropriações massivas de terra,
com instalação de agroindústrias
cooperativadas, uma nova política agrícola,
em que o Estado garanta a compra de todos os produtos
dos agricultores por um preço justo, um novo
modelo de produção baseado na agroecologia,
combinado com a democratização da
educação. A Reforma Agrária
popular também deve criar condições
para que todos os jovens tenham acesso à
universidade.
Relação
com o PT
A luta de classes
em qualquer país e no Brasil ocorre por ciclos
históricos. Cada ciclo de ascenso do movimento
de massas gera formas específicas de luta,
instrumentos apropriados de organizações
da classe, e seus líderes. O MST é
fruto do ciclo de reascenso de 78 a 89. Aquele período
levou a que o povo brasileiro construísse
e reconstruísse várias formas de luta.
A ocupação de terra é fruto
desse ciclo, os dirigentes do MST são fruto
desse ciclo, a CUT é fruto desse ciclo, o
PT é fruto desse ciclo. Nós nascemos
juntos, como instrumentos parceiros de um mesmo
projeto. Cada um na sua trincheira, mas todos se
ajudando. Esse ciclo terminou na década de
1990, com o descenso do movimento de massas. Quando
vier um novo reascenso no movimento de massas –
espero que seja logo – serão criadas
novas formas de luta, novos instrumentos e novos
líderes. Somos fruto de reascenso passado,
e resistimos em um período de descenso. Poderíamos
ter desaparecido como referência para o povo,
como muitas organizações desapareceram.
Oxalá o MST consiga sobreviver no próximo
reascenso.
Relação
com Estado
Um dos acertos que
o MST aplicou desde o início. Não
porque nós fomos mais sábios, mas
porque aprendemos com experiências do passado.
Que a saúde política de qualquer movimento
de massas é que ele tem que ser autônomo
do Estado, autônomo de governos, autônomo
das igrejas e inclusive de partidos políticos.
Já tivemos movimentos camponeses ligados
a essas quatro áreas da sociedade. Nós
aprendemos que se quisermos ter uma vida saudável
e longa, precisamos ter autonomia. E aplicamos isso
a rigor. Claro que o MST em alguns estados às
vezes não consegue manter a autonomia e paga
caro. A tendência é ser destruído,
definhar, não crescer ou se desviar. Quem
não obedece a regra – e para isso não
precisa fazer reunião de direção
– a realidade política impõe
a pena. Em um estado em que o MST vira puxa-saco
de governo, acaba o governo, acaba também
o Movimento.
Governo
Lula
Acho que nós
conseguimos manter a nível nacional essa
autonomia em relação ao governo Lula.
O que mudou é que nós estávamos
acostumados a ter governos de direita, como na época
da ditadura, de centro-direita, como na época
de Sarney e do Itamar, e agora nós temos
um governo de centro, onde tem gente de direita
e gente de esquerda. Então a natureza do
governo Lula também é diferente. Muitos
companheiros – principalmente na nossa base
- gostariam de estar mais próximos do governo,
para conquistar mais benefícios. E há
outros companheiros que, por esse não ser
um governo de esquerda, acham que deveríamos
ter distância. Os dois estão certos,
mas esse não é o centro da questão.
O centro é que nós mantivemos nossa
autonomia em relação ao governo. Governo
Lula é uma coisa, nós somos outra.
Nós continuamos lutando, tanto é que
a direita nos bate dia e noite. Porque ela sabe
que nós somos autônomos, sabe que o
governo Lula não controla o MST. Isso não
quer dizer que o MST fica torcendo para ter um governo
ruim. Pelo contrário. A gente quer ter um
governo de esquerda. Nossas críticas ao governo
Lula é porque ele se afastou da esquerda.
Quando ele toma medidas boas para a classe trabalhadora,
a gente aplaude. Sempre mantendo nossa autonomia.
Olhando para 2010 a gente espera que o governo seja
mais à esquerda que o Lula.
Caráter
da organização
O debate no MST
é o seguinte: somos um movimento de massas
e temos que ter massa para fazer luta social. Mas
a complexidade da luta de classes exige que a gente
tenha uma organização, uma organicidade
de militantes que constrói setores bem organizados.
Porque só na etapa do movimento de massas
um movimento não ultrapassa o deserto do
descenso, correndo o risco de ser destruído.
É na organização de massas
que se preza pela ideologia, pela doutrina, que
se monta o esqueleto das massas. A organização
de massas é a estrutura óssea que
mantém o organismo de pé. As mudanças
sociais no país dependem de um arco muito
plural de formas de organização do
povo, desde pastorais da igreja até partidos
revolucionários clandestinos. Na luta por
transformações, há espaços
e necessidade de se desenvolver todas as formas
de organização possível. É
besteira conjecturar se o MST será um movimento
de massas ou organização política.
No reascenso vamos precisar de todas essas formas.
É besteira disputar qual delas é ou
será mais importante. O mais importante é
ter um projeto de sociedade. O grande desafio da
esquerda e do povo brasileiro é criar um
projeto de transformação. Para não
cair no simplismo de que basta criar uma nova organização,
uma nova sigla, de que basta construir um núcleo
da Consulta Popular e pronto, estão resolvidos
os problemas revolucionários. Os instrumentos
são para construir um projeto. O importante
é a gente trabalhar no sentido da unidade,
nossa motivação justa deve ser para
construir a unidade para garantir as mudanças
necessárias.
|