| Guerra
Irregular Moderna
Por onde marchamos
Por Nina Fideles
do Jornal Sem Terra
Bem próximo de completar
seus 25 anos, o MST empenha uma dura luta contra
a grande ofensiva do capital na agricultura, que
hoje se apresenta pelo domínio das transnacionais
sobre o que é produzido e também o
gradativo aumento das extensões de terra
com os monocultivos de cana-de-açúcar,
eucalipto e soja. As conseqüências deste
modelo para o campo vêm se manifestando de
diversas formas. Uma delas foi o aumento significativo
do preço dos alimentos para a população
brasileira e a presença cada vez mais intensa
de empresas estrangeiras no domínio das nossas
terras. Neste contexto, coloca-se uma urgente necessidade
de lutas conjuntas com outros setores da sociedade
para recolocar em pauta a importância da Reforma
Agrária.
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O Jornal
Sem Terra conversou com o integrante da coordenação
nacional do Movimento, José Roberto
Silva, que nos coloca as conquistas e desafios
deste um quarto de século de luta. |
O que dizer da política
agrária dos últimos anos?
Os trabalhadores rurais Sem Terra
e a sociedade tinham uma grande esperança
e uma expectativa com o governo Lula realizar a
tão sonhada Reforma Agrária. O que
nós vimos ao longo destes seis, sete anos
é que não existiu um programa de Reforma
Agrária. Os trabalhadores tinham motivos
de sobra para acreditar neste governo, por ele ter
vindo da classe operária e por existirem
mais de cem mil hectares de terras improdutivas
no Brasil. Esta esperança foi se desfazendo
a partir deste ato explícito do governo em
optar por um outro projeto, um outro modelo de agricultura
– baseado na expansão da produção
canavieira, de eucalipto, soja, e outros produtos
voltados para exportação e que viabilizam
o agronegócio.
Quais são os
números divulgados pelo governo e quantas
famílias de fato foram assentadas?
Se avaliarmos os números divulgados
pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário
(MDA) e pelo Incra nestes seis últimos anos
do governo Lula, a gente percebe que não
houve nenhuma Reforma Agrária. Basta pegar
os números. Há uma grande propaganda
sobre a quantidade de assentamentos, mas o que o
governo tem feito é o mesmo processo que
outros governos fizeram anteriormente: maquiando
números. Nos últimos seis anos, menos
de 150 mil famílias foram assentadas e o
governo divulga que foram assentadas 448 mil famílias.
Basta ver os dados de 2008, onde a meta estabelecida
não atingiu 10%. Além de que a maioria
destes assentamentos foram realizados na região
Norte, principalmente na região Amazônica.
Resumindo, é uma Reforma Agrária que
não enfrenta o latifúndio improdutivo,
mas assenta as famílias em terras públicas
e regulariza as terras, reassentando famílias.
Isso não é Reforma Agrária.
Qual seria o panorama
da infra-estrutura dos assentamentos no Brasil?
A política do governo não
priorizou os assentamentos e tampouco a pequena
agricultura, ao contrário do que foi propagandeado.
Basta ver os dados. Hoje são mais de 70%
dos assentamentos sem infra-estrutura. Sem estradas,
energia elétrica, sem escolas... Basta ver
em cada estado, em cada região. A burocracia
para atingir os programas de crédito e apoio
é tão grande que impede as famílias
de terem acesso.
A maioria dos setores dentro do
Incra e do MDA viraram um balcão de negócios,
e não funcionam para elevar o nível
de sociabilidade das famílias assentadas,
mas, sobretudo para inviabilizar os assentamentos,
para provar para a sociedade que assentamentos não
dão certo. Aqueles que se adequaram à
lógica de produção do agronegócio,
o governo prioriza, mas não chegam a 10%.
Mas no geral, não existe esta política
de viabilidade econômica e social. Usam destes
instrumentos para mostrar que o caminho é
o agronegócio. Mas não podemos negar
que os assentamentos são marcos históricos
da melhoria na vida dos camponeses, dos Sem Terra
e da sociedade como um todo. A contribuição
que o MST tem dado à sociedade nos últimos
25 anos, na construção do homem novo,
da mulher nova, dos alimentos sem venenos, e outros,
é uma contribuição extremamente
importante. O MST tem evitado que várias
pessoas deixem a vida no campo para irem para as
grandes cidades, para as favelas.
E os acampamentos?
Temos mais de 100 mil famílias
acampadas. Infelizmente muitas estão há
mais de dez anos debaixo de lona preta. O governo
tenta desmobilizar as famílias que estão
acampadas, que estão lutando, em troca de
políticas compensatórias. Mesmo assim
elas continuam acampadas, pressionando para que
de fato consigam ser assentadas. E com isso, com
a não-realização da Reforma
Agrária, aumenta a violência e a truculência
de governos, latifundiários e empresas transnacionais.
Principalmente nos locais onde existem grandes latifúndios
e em que os poderes do Estado ou estão coniventes,
ou omissos.
É possível
aplicar uma Reforma Agrária dentro desta
lógica neoliberal?
Para nós está claro
que não há a mínima condição
de ser realizado uma Reforma Agrária dentro
dos marcos capitalistas. Nós estamos discutindo
que é possível sim, com a força
das organizações, com a força
popular, a gente construir uma grande força
e conseguir realizar uma Reforma Agrária
social popular que se contraponha a esta que está
sendo supostamente aplicada. Só acreditamos
que seja possível uma Reforma Agrária
de fato, se a gente construir esta grande força.
Que agregue as diversas organizações,
movimentos, entidades do campo da cidade para a
luta concreta que enfrente este modelo.
Há uma grande
investida na produção de etanol no
Brasil. Um aumento significativo de terras cultivadas
com cana-de-açúcar, o resgate das
usinas falidas, etc... Qual a consequência
disso nos assentamentos?
Este grande projeto em curso do modelo
econômico e agrícola, controlado pelas
grandes empresas transnacionais, tem um impacto
muito forte na pequena agricultura e nos assentamentos.
Este impacto é bem claro quando o Estado
ao invés de incentivar a política
agrícola que eleve a produção
e comercialização dos alimentos produzidos
nos assentamentos, introduz a subordinação
da pequena agricultura e dos assentamentos à
estas grandes empresas do sistema capitalista financeiro.
Há um estímulo para que a pequena
agricultura se desenvolva dentro do projeto do agronegócio.
Assim, estes assentados terão que se aliar,
se subordinar à esta lógica. Os que
não querem têm como resposta as políticas
compensatórias. E por isso também
não há o melhoramento da qualidade
de vida nos assentamentos.
E mesmo com um cenário
tão desfavorável, ainda podemos contar
com conquistas significativas?
Apesar de toda esta ofensiva do Estado
- seja no judiciário, executivo, ou legislativo
-, das grandes empresas e do latifúndio,
tivemos sim boas conquistas. Com a compreensão
que o MST tem de que a Reforma Agrária não
sairá por força e vontade do governo,
é que o Movimento nestes últimos tempos
tem buscado unir forças com organizações,
especialmente com a Via Campesina e muitas conquistas
importantes podemos aqui destacar. Por exemplo,
com relação a conquista da área
da Syngenta no Paraná (área usada
para experimentos ilegais e que foi palco do assassinato
do companheiro Keno), no caso da área da
Aracruz no Espírito Santo, dos tupis-guaranis,
e outras tantas lutas de enfrentamento, que podem
não ter dado nenhuma vitória direta,
mas certamente pautamos diversos temas na sociedade.
Mas com certeza, uma das maiores vitórias
que tivemos neste período é a elevação
da consciência e formação da
nossa militância. Na compreensão deste
modelo para que, a partir daí, a gente consiga
avançar na luta estratégica e seguir
estimulado. E temos também maior clareza
de quem é o nosso maior inimigo. E estas
conquistas servem para que em 2009 a gente siga
unindo forças neste movimento contra o capital.
Como fazer a disputa
de projeto na sociedade?
Nossa grande preocupação
é construir e fortalecer as diversas organizações
já existentes, assembléia populares,
via campesina nacional e internacional e seguir
unindo não somente os setores rurais, mas
também os setores urbanos com campanhas,
como “o petróleo tem que ser nosso”.
Então, há a possibilidade de elevando
o nível de consciência e reascendendo
o movimento de massas na sociedade, nos temos compreensão
que há possibilidade de fazer grandes mudanças
sem se preocupar com o processo eleitoral. Nossa
preocupação não é discutir
este processo eleitoral. É avançar
na construção de um programa para
a Reforma Agrária que seja compreendido por
toda a sociedade.
Por que atuar nas regiões
metropolitanas? Como avançar?
Talvez este seja um dos desafios mais importantes
do nosso Movimento. Porque se analisarmos as estatísticas,
as conseqüências deste avanço
do capital financeiro na agricultura têm feito
com que uma boa parte da população
rural seja expulsa do campo para as cidades. E estas
pessoas acabam nas favelas. E qual a nossa participação
neste processo? Não temos dúvida da
nossa contribuição junto com outros
setores da sociedade nos meios urbanos, com organizações
urbanas. É preciso compreender a importância
do fortalecimento deste setor urbano e rural de
forma unificada. Talvez seja a saída para
que nosso povo saia deste momento de desânimo.
Temos este papel de contribuir no processo de formação,
participação e no incentivo e também
no exemplo da luta permanente contra o capital,
que é o nosso principal inimigo.
Diante deste quadro,
quais os maiores desafios do MST com seus 25 anos
de luta?
Chegamos até aqui com muita luta, muita mobilização
e também com muita esperança. Nós
não temos um outro caminho a não ser
começar a rediscutir e debater – é
o que estamos fazendo agora – de que é
preciso a gente olhar um pouco mais para os objetivos
específicos e estratégicos do nosso
Movimento que é a luta pela terra, pela Reforma
Agrária e pela transformação
da sociedade. A luta pela Reforma Agrária,
um tema que foi tirado de pauta nos últimos
anos, não somente pelo governo, mas também
por alguns setores populares, é preciso ser
recolocada na pauta do dia. São dois papéis
fundamentais: a luta pela Reforma Agrária
e a luta em conjunto com outros setores pelas transformações
necessárias no Brasil e no mundo. Além
de sempre trabalhar na formação política
da nossa militância. Com tudo isso e a compreensão
dos nossos objetivos e desafios, conseguiremos dar
este salto de qualidade na nossa atuação
e completar mais 25 anos.
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