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Gangues crescem
nos EUA apesar de repressão
Solomon
Moore
A festa terminou quando um grupo de adolescentes
gritou o nome de sua gangue pelo sistema de som:
"Westside!". Do outro lado da pista de
dança, outro grupo de jovens respondeu na
mesma moeda: "Eastside!". Os mais de 200
convidados começaram a deixar o local, naquela
noite de março, e uma discussão entre
as duas gangues no estacionamento resultou em troca
de tiros. Quando a polícia chegou, encontrou
o corpo de Treasure Feamster, uma menina de 13 anos,
vítima inocente do confronto.
O homicídio ajudou a angariar apoio político
na Carolina do Norte para uma séria operação
de repressão às gangues, ao estilo
de Los Angeles. Pelo menos 36 dos Estados norte-americanos
aprovaram leis duras de repressão às
gangues, semelhantes ao regime do qual Los Angeles
foi pioneira nos anos 90, posteriormente expandido
a todo o Estado da Califórnia.
As leis proíbem
reuniões públicas de mais de duas
pessoas suspeitas de serem membros de gangues, estabelecem
bancos de dados para registrar identidades e paradeiros
dessas pessoas, promovem grandes batidas em áreas
suspeitas e estendem as sentenças de prisão
para os crimes relacionados a gangues.
Mas enquanto os
legisladores da Carolina do Norte trabalhavam na
criação de leis desse tipo, começavam
a surgir dúvidas em diversas regiões
do país quanto à eficácia dessa
abordagem. Crescente número de policiais
e promotores, até mesmo em Los Angeles, sugerem
que essas táticas agressivas de repressão
talvez agravem o problema das gangues ao alienar
grupos inteiros de pessoas com relação
à polícia e lotar as prisões
com milhares de jovens, muitos dos quais terminam
por se tornar membros radicais de gangues durante
seu encarceramento.
"Los Angeles
seguiu essa abordagem de combate duro ao crime",
disse Craig Watkins, promotor público em
Dallas, cidade que está abandonando algumas
das táticas desenvolvidas em Los Angeles.
"Mas o resultado disso é superlotação
das prisões, alto índice de criminalidade
e número crescente de membros nas gangues.
Agora, preferimos adotar estratégia mais
inteligente de combate ao crime".
Detenções
em larga escala sempre foram um componente essencial
da estratégia de combate a gangues em Los
Angeles, por mais de 30 anos, segundo Constance
Rice, diretora do Advancement Project, um grupo
liberal criado por advogados defensores dos direitos
civis para trabalhar quanto a questões de
justiça racial. Ao longo dos 10 anos passados,
as autoridades do condado de Los Angeles detiveram
mais de 450 mil menores de idade, disse Rice, e
ainda assim o número de membros das gangues
dobrou.
Earl Paysinger,
vice-comissário de polícia e diretor
de operações da polícia de
Los Angeles, disse que "a repressão
ativa a gangues" praticada pelo departamento
era apropriada para membros de gangues "cujo
único propósito é causar distúrbios
na comunidade". Mas Paysinger disse que o departamento
não havia sido seletivo o bastante em seu
tratamento de pessoas suspeitas de pertencerem a
gangues mas que representam ameaça menor.
Ele disse que uma nova mentalidade estava começando
a se instalar entre os líderes do departamento.
Segundo ele, a polícia
de Los Angeles está agora se concentrando
mais em prevenção e intervenção,
antes de recorrer a detenções. Os
policiais conduzem mais visitas às casas
de possíveis membros de gangues, para encorajar
maior envolvimento de seus país, disse Paysinger,
e o departamento facilitou aos jovens o processo
de remoção de seus nomes do banco
de dados sobre gangues, desde que eles se mantenham
livres de problemas.
"Ao longo de
minha carreira, eu provavelmente detive dezenas
de milhares de membros de gangues", ele conta.
"Isso não funcionou. Agora estamos fazendo
o possível para virar o jogo".
Em Dallas, Watkins
instruiu os promotores a adotar critérios
mais seletivos quando solicitarem penas de prisão
para membros jovens de gangues que poderiam se beneficiar
de programas de reabilitação. Em junho,
o Legislativo do Texas aprovou US$ 273 milhões
para a construção de novas prisões
mas também US$ 203 milhões para programas
de tratamento de drogas e reabilitação.
"No Texas,
nós tentamos trancafiar os membros de gangues
e esquecer nossas preocupações",
disse Watkins. "Agora, queremos prendê-los,
mas corrigir seu comportamento". Mas a abordagem
dura ainda mantém seus atrativos em diversos
Estados, especialmente aqueles onde problemas sérios
com gangues são relativamente novos.
Os legisladores
estaduais da Carolina do Norte estão trabalhando
em projetos de lei que definiriam como gangue qualquer
grupo de três ou mais pessoas que se unam
com o "propósito primário"
de cometer crimes. Uma versão inicial do
projeto incluía uma cláusula que se
concentraria em membros de gangues a partir dos
12 anos de idade. Essa porção do texto
terminou abandonada, mas serve como indicação
da existência de um forte interesse na adoção
de uma postura severa de defesa da lei e da ordem.
"Estamos falando
de crime organizado, e da mesma maneira que usamos
leis específicas para combater o crime organizado
quando estávamos tentando derrotar a máfia,
precisamos de leis que ajudem a derrotar as gangues",
disse Patrick McCrory, prefeito de Charlotte. "A
questão vai além da venda de drogas
e do recurso à violência. Estamos falando
de atos coordenados e estratégicos organizados
por uma estrutura, e temos de enfrentar essa estrutura".
Mas alguns críticos
na Carolina do Norte se preocupam com a possibilidade
de que a lei agrave a discriminação
racial pela polícia em um Estado no qual
os negros respondem por menos de 25% da população
mas por quase 60% dos detentos em penitenciárias.
Tradução:
Paulo Eduardo Migliacci ME
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